“A Dialética Negativa”: Theodor Adorno Gnóstico

Em dois tópicos do livro “Dialética Negativa” de Theodor Adorno (“Experiência Metafísica e Felicidade”e “Niilismo”) encontramos uma crítica à religiosidade vulgar, aquela que iguala o impulso por transcendência à busca do chamado “sentido para a vida”. Para Adorno, se manifestamos a dúvida se a vida poderia ser dotada de sentido é porque a existência não tem sentido mesmo: através dessa “via negativa” ele identifica nessa religiosidade vulgar um movimento que apenas reforça a Totalidade que cria em nós o mal estar e o desespero que nos faz em vão buscar um sentido para a dor. Mas Adorno surpreendentemente busca uma alternativa de libertação: o niilismo gnóstico e elege Marcel Proust como o exemplo para o seu projeto da “Dialética Negativa”.

 

“O Todo é o Falso” (Adorno)


Considerada a obra de maior envergadura do filósofo e expoente da chamada Escola de Frankfurt, Theodor Adorno, “A Dialética Negativa” (1966) é não somente um acerto de contas com o hegelianismo no último livro da sua vida. É também uma supreendente busca de esperança de saída após obras apocalíticas como “A Dialética do Esclarecimento” e todos os estudos em torno do conceito de Indústria Cultural que apontavam para cenários monolíticos de dominação do Capitalismo Tardio.

Através da “via negativa” Adorno vai buscar a alternativa na “metafísica em queda”, ou seja, ao invés de buscar a transcendência no Absoluto, ele vai encontrar a Verdade no particular, no precário, no singular, na experiência irreprodutível. Isto é, em tudo aquilo que a filosofia Ocidental liquidou em nome das abstrações (Logos, Deus, Mercadoria e Capital) e dos conceitos.

Para tanto, Adorno parte uma decisiva crítica contra a dialética positiva de Hegel (a transcendência por meio da síntese do Espírito em um Absoluto), ao propor as bases de uma “Dialética Negativa”: o resgate da experiência do particular, do concreto e do individual por meio de uma dialética que não liquide o particular por meio de conceitos universais.

Se em toda filosofia ocidental identificamos essa liquidação do particular em nome do Universal, Adorno propõe redimir a experiência individual, trazendo materialidade à metafísica por meio de uma dialética negativa que negue a formação de conceitos para apreender a experiência. Para ele, os conceitos abstratos nada mais são do que reflexos de uma totalidade falsa por ser abstrata (as trocas mercantis, a religiosidade deteriorada, etc.) que mata qualquer possibilidade de alteridade e verdade.

No mundo cotidiano essa liquidação do particular pelo universal é experimentada como sofrimento e mal-estar. Nesse cenário vão se propagar cada vez mais ideias que aspiram por um vulgar impulso por transcendência : 

“O desespero pelo que existe propaga as ideias transcedentais, que em outros tempos foram contidas. Qualquer um, inclusive as que se ocupam com negócios desse mundo, considerará um desvario a ideia de que esse mundo finito de tormento infinito seja abarcado por um plano universal divino” (ADORNO, La Dialectica Negativa. Madrid: Taurus, p. 375.)

Para Adorno a questão do “sentido da vida” é uma metafísica secularizada, isso é, já contaminada pela própria natureza do mundo que pretende questionar. A pergunta obterá uma “falsa resposta”: este impulso religioso vulgar que pretende transcender a miséria reinante somente reproduz a própria totalidade que pretende superar ao entronar uma nova totalidade. É como se pulasse da frigideira para cair no fogo. Diante da totalidade inautêntica do mundo mercantil, a resposta procura por uma nova injeção de sentido a uma realidade vazia, ou seja, procura um novo universal que continuará liquidando a autêntica experiência de singularidade individual.

Proust: a Metafísica na imediatez do mundo

Adorno refere-se a essa experiência da “via negativa” da “metafísica em queda” como a busca da “imediatez subjetiva intacta” ou “subjetivismo do ato puro”, experiência que nos daria o “interior dos objetos”, a redenção do materialismo por meio da metafísica que, finalmente, revelaria a verdade do mundo. É uma espécie de teologia invertida (uma Teologia Negativa) onde a redenção é menos a fuga do espírito em direção do Absoluto do que o resgate do Absoluto no interior dos objetos do mundo.

Adorno exemplifica esse momento sagrado com a reconstituição proustiana da experiência. O que Proust descobre na sua obra “Busca do Tempo Perdido” são experiências singulares extraídas de pequenos lugares e prosaicos acontecimentos, mas que almejam espontaneamente a universalidade, não pela violência de conceitos que abstraem a concreção dos fatos mas da força do individual, do irreprodutível.

“Uma hora não é só uma hora: é também perfumes, sons, projetos, climas” (PROUST, M., À la recherche du temps perduParis, Gallimard, 1999, p. 167). Marcel Proust fala da sensação que encontra ao tropeçar nas irregularidades do piso do casarão dos Guermantes, do barulho dos talheres e do martelo, do sabor da madeleine. Esses momentos, dizia ele, permitem respirar ares de outros tempos, ou “o tempo em estado puro”. Nesses expedientes, diz ele, seria possível obter, isolar, imobilizar a duração de um brilho (PROUST, M., pp. 2266-67).

Portanto, o projeto de Adorno nessa sua derradeira obra é delicado e arriscado: ao se interpor radicalmente ao primado Ocidental do conceito e da abstração, seu projeto pode facilmente cair no irracionalismo ou naquilo que Adorno tanto criticava em Heidegger: a criação de uma “obscura mitologia do Ser”. O desafio da Dialética Negativa é voltar o conceito ao não-idêntico, isto é ir além do conceito através do conceito.

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