A ideologia do mérito e a produção do homem eficiente, por Michel Aires de Souza Dias

Em um mundo dominado pelas mercadorias, onde as relações humanas são relações entre coisas, os indivíduos devem abandonar suas pretensões de liberdade e autonomia.

A ideologia do mérito e a produção do homem eficiente

Por Michel Aires de Souza Dias

Todos os dias as propagandas na televisão procuram convencer as pessoas a superar seus limites, a  serem resistentes e a lutar por seus sonhos. Elas os incentivam a buscar com todas as forças o que desejam, como um desafio e uma obrigação. Somente assim poderão alcançar um lugar ao sol. Hoje, as propagandas se tornaram meios privilegiados de administração do espírito. Para o sociólogo polonês Zigmunt Bauman (2008), a sociedade do consumo concentra seu treinamento assim como as pressões coercitivas exercidas sobre seus membros  desde a infância e ao longo de suas vidas, na administração do espírito. Ela deixa a administração dos corpos ao trabalho individual, supervisionado e coordenados por indivíduos espiritualmente treinados e coagidos. O objetivo é que cada um aperfeiçoe o eu para que ele se torne cada vez melhor como uma mercadoria. É a ideologia do esforço e do mérito que deve coordenar o comportamento e as ações dos indivíduos.

Na sociedade do consumo os próprios indivíduos devem se tornar mercadorias de consumo: “Os membros da sociedade de consumidores são eles próprios mercadorias de consumo, e é a qualidade de ser uma mercadoria de consumo que os tornam membros autênticos dessa sociedade” (BAUMAN, 2008, p.76). Para se tornarem aceitos socialmente é necessário que eles atendam às condições de elegibilidade  definidas pelos padrões do mercado. Cada um deve se tornar disponível no mercado em competição com os outros, buscando seu “valor de mercado”.

Em um mundo dominado pelas mercadorias, onde as relações humanas são relações entre coisas, os indivíduos devem abandonar suas pretensões de liberdade e autonomia. Eles devem se submeter aos padrões de desempenho e eficiência socialmente estabelecidos: “Desde o dia do seu nascimento, o indivíduo é levado a sentir que só existe um meio de progredir nesse mundo: desistir de sua esperança de autorrealização suprema” (HORKHEIMER, 2002, p.145). O sucesso no mercado depende da capacidade de cada um se adaptar e da resistência às pressões que a realidade exerce sobre eles. O pensamento é reduzido ao mundo concreto das coisas, levando os a racionalizarem sua ação para satisfazer as grandes exigências da realidade.

O filósofo frankfurtiano Herbert Marcuse em seu artigo, Algumas implicações da tecnologia moderna, procurou mostrar que a racionalidade tecnológica se tornou um instrumento para se obter um maior controle sobre os indivíduos. O aparato técnico estabelece padrões, modos de pensar e formas de comportamento que predispõe os indivíduos a assimilarem e introjetarem seus mandamentos. Desse modo, eles somente podem se tornar membros ativos na sociedade ao se submeterem aos padrões externos de adaptação, desempenho e eficiência. Para Marcuse (1999), a eficiência se caracteriza pelo fato de que o desempenho individual é motivado, guiado e medido por padrões externos ao indivíduo, padrões que dizem respeito a tarefas e funções predeterminadas: “O indivíduo eficiente é aquele cujo desempenho consiste numa ação somente enquanto seja a reação adequada às demandas objetivas do aparato, e a liberdade do indivíduo está confinada à seleção dos meios mais adequados para alcançar uma meta que ele não determinou. Enquanto o avanço individual independe de reconhecimento e se consuma no próprio trabalho a eficiência é um desempenho recompensado e consumado apenas em seu valor para o aparato” (MARCUSE, 1999, p.78).

O filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer (1985) procuraram mostrar em sua obra,  Dialética do Esclarecimento,  que a sociedade se tornou no capitalismo tardio cada vez mais administrada. Ela tornou-se administrada porque a dominação social foi calcada na racionalidade técnica e administrativa, transformando os indivíduos em objetos de controle, planejamento e organização. Desse modo, a partir do aparato técnico, os indivíduos são talhados para fazer coisas, para manipular objetos, cultuando a eficiência, a organização e o controle. Eles são educados para serem sujeitos ativos, produtivos e eficientes. Devem se submeter à ideologia da eficiência e do mérito.  

A grande consequência dessa ideologia no plano da subjetividade é o desenvolvimento de personalidades coisificadas. Muitos indivíduos se tornam frios, calculistas e adquirem uma mente manipuladora. Agem sem escrúpulos e procuram obter vantagens sobre os outros. Eles usam as pessoas como objetos. Tornam-se incapazes de desenvolverem experiências humanas afetivas. Esse tipo de personalidade pode ser encontrados entre os grandes empresários que, sem o mínimo de escrúpulo, usam de todos os meios para obter poder e dinheiro.  Pode ser encontrado também em ladrões e criminosos, que apresentam traços de incomunicabilidade e psicopatia.

Ao analisar o diário de Höss, as anotações de Himmler e Eichmann, membros da alta cúpula Nazista, Adorno (1995) percebeu traços de personalidade coisificada. Esses líderes se distinguem pela fúria organizativa, pela incapacidade de levar experiências humanas diretas, por apresentarem um déficit de emoções e por um realismo exagerado. Eles são incapazes de pensar uma realidade diferente, são ávidos pela vontade de fazer coisas: “Eles fazem da ação, do ser atuante, da chamada efficiency enquanto tal, um culto, cujo eco ressoa na propaganda do homem ativo” (ADORNO, 1995, p.129). O resultado dessa forma de comportamento nós já sabemos, foi o uso da eficiência técnica para assassinar milhões de pessoas.  

Além do culto da eficiência, a coisificação da consciência também aparece no culto aos equipamentos. Hoje existe um amor por equipamentos eletrônicos, carros, computadores e toda espécie de tecnologia. A técnica foi fetichizada, tornou-se um fim em si mesmo Adorno (1995) observou que essa relação com a técnica é  exagerada e irracional, chegando a ser patológico. Os homens esquecem que os equipamentos são extensões do corpo, para tornar a existência mais fácil. Os indivíduos passam a valorizar mais a tecnologia em detrimento das relações humanas. Com isso se tornam cada vez mais frios. Como afirma o pensador frankfurtiano: “Um mundo em que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica” (ADORNO, 1995, p.132). Desse modo, o mundo tecnológico cria as condições objetivas para a barbárie.

Referências

ADORNO, Theodor.  Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

BAUMAN, Zygmunt, Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de janeiro: Zahar, 2008.

HORKHEIMER, Max. Eclipse da Razão. São Paulo: Centauro, 2002.

MARCUSE, Herbert. Algumas Implicações Sociais da Tecnologia Moderna. In: Tecnologia, Guerra e Fascismo, São Paulo: Editora Unesp, 1999.


Michel Aires de Souza Dias – Doutorando em educação pela Universidade de São Paulo. Email:[email protected]

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