A moeda e o bau da Dindinha, por Luciano Hortencio

por Luciano Hortencio

Da Dindinha (Luiza Gomes Ferreira) tenho pouquíssimas lembranças. Somente tenho dela uma recordação de estar sempre sentada na rede, com um rosário nas mãos. Um problema no nervo trigêmeo a impedia de deitar-se e passou seus últimos anos dormindo sentada. Quando morreu Dindinha tinha eu somente cinco ou seis anos.

Hoje o amigo Emiliano Queiroz fez a ela referências elogiosas, que me causaram arrepio. Não sabia eu nada do que relatou o grande ator cearense: “ Meu pai  lia todos os jornais que sua bivó recebia de Fortaleza às vezes via Rio de Janeiro. Dona Lulu era a maior autoridade na segunda guerra mundial e passava os jornais que eu ia pegar para meu pai que admirava a inteligência de D.Lulu. Foi ela quem deu a noticia prá mim da Queda de Berlim….era muito politizada.”

Por uma feliz coincidência havia eu fotografado seu bau e essa moedinha, dos quais relatarei o fato a eles inerentes.

O bau da Dindinha, após sua morte, permaneceu com vovó Umbelina até sua partida em 1962, quando mamãe o trouxe para Fortaleza.

Apesar de morarmos em casa muito grande, faltava espaço para nossos móveis e os trazidos de Russas. Por esse fato o bau da Dindinha acabou ficando no quarto dos bregueços, onde eram também colocadas nossas galinha chocas nos seus ninhos. Isso acabou por sujar e estragar irremediavelmente o couro do qual era revestido.

Desde cedo tenho a preocupação em conservar e resgatar nossas memórias. Assim sendo, pedi a mamãe que me desse o bau e fui prontamente atendido. Eu mesmo lavei o bau com esmero, troquei-lhe o forro, porém não tinha dinheiro para restaurá-lo. A limpeza e o esmero foi tamanho que mamãe o “pediu emprestado” e nele guardou suas coisinhas mais caras até sua morte em 2003.

Obviamente que o bau voltou pra mim, porém com o couro irremediavelmente estragado. Tentei achar um artesão que fizesse a restauração, porém não o encontrei. Certa noite sonhei que Dindinha me dizia que entre o couro e a madeira havia uma moedinha de ouro. Aquilo me intrigou sobremaneira e resolvi eu mesmo retirar o couro trabalhado com cravos.

Moeda de ouro não havia, porém essa moedinha de cem reis, que guardo carinhosamente aos pés de uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, que também pertenceu à minha bisavó.

Resolvi restaurar o bau sem seu couro original, porém as marcas dos cravos permaneceram e ficou ainda mais bonito.

COISAS QUE O TEMPO LEVOU.

Maria Stella Simões Lins de Souza, Umbelina Felismino Simões e Luiza Gomes Ferreira.

Mauro Silva e sua Bandinha – BAÚ DO MEU AVÔ – Pietro Cavallini.
Disco RGE 10.105-A.
Julho de 1958.
Disco constante do Arquivo Nirez.
Coisas que o tempo levou

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