A Reação Ideológica no Filme “Sem Limites”

 

O filme “Sem Limites” (Limitless, 2011) a princípio representa uma reação ideológica à onda de documentários críticos à financeirização global trazida pelo modelo neoliberal ao narrar a estória de um protagonista que poderíamos chamar de “neuro-yuppie” (legítimo representante da chamada “Geração Y) que vê seu cérebro turbinado por “smart pills” e enriquece no mercado financeiro. Um novo modelo de “self made man”, não mais legitimado por modelos éticos ou morais protestantes do início do capitalismo, mas agora  fundamentado no paradigma neurocientífico.

Eddie Morra (Bradley Cooper) quer ser um escritor, mas nunca consegue começar seu livro. Vive maltrapilho em um pequeno apartamento sujo e empilhado de lixo. Enquanto isso, sua ex-esposa (Lindy, Abbie Cornish) é bem sucedida e recentemente promovida ao cargo de editora. Seu cotidiano se arrasta entre bares, ruas e a tela de seu laptop para a qual olha sem conseguir iniciar a primeira linha de seu livro. Um “looser”.   Até que um dia encontra nas ruas Vernon (Johnny Whitworth), seu ex-cunhado, que lhe apresenta uma nova droga chamada NZT, capaz de fazer seu usuário ter acesso a 100% das informações do cérebro, indo além dos 20% da média das pessoas.

Após experimentar a droga e ter uma experiência extra-corpórea, tudo na sua mente fica claro e limpo. A matiz da fotografia do filme adquire um tom avermelhado, o ritmo de Eddie fica frenético e é capaz de escreve um livro em quatro dias e aprender línguas em poucas horas. Acessando qualquer fragmento de informação no seu cérebro, é capaz de aprender qualquer coisa e adquirir habilidades que antes ignorava que pudesse ter. Por exemplo, é capaz de em poucos segundos aprender golpes de luta marcial apenas em relembrar imagens fragmentadas dos filmes de Bruce Lee dos anos 70.

Torna-se um mega-cérebro anabolizado, um super-homem da era da informação. Se no livro no qual se baseia o filme (“Dark Fields” de Allan Glyn) temos uma irônica reflexão de uma mudança cultural americana em um país onde figuras como Bill Gates e Steve Jobs são celebradas como novos heróis, o mesmo não acontece na adaptação de “Sem Limites”: o tom torna-se apologético, um elogio às “smart pills” e a toda cultura terapêutica onde o aprimoramento pessoal se baseia na fármaco dependência (prozacs, valiums etc.).

No livro “Dark Fields” o mito do “self mad man” (o homem bem sucedido pelos seu próprios méritos) é desconstruido quando o protagonista reconhece no olhar do presidente dos EUA  que ele, também, é consumidor de “smart pills”. Ao contrário, no filme “Sem Limites” vemos a construção de um “neuro-yuppie” onde a droga é um recurso para superar as limitações de uma mente brilhante confinada a um corpo. Essa é, de resto, a grande utopia das neurociências e ciências cognitivas atuais: superar as limitações criadas pelo orgânico através de atalhos eletro-neuro-bio-químicos que libertem o espírito da condição existencial limitante da matéria. A Tecnognose. Voltaremos a esse ponto mais adiante.

O grande problema de “Sem Limites” é que não conseguimos entender o tom da narrativa. O filme começa com imagens recursivas (a câmera avança em linha reta por calçadas de Nova York onde planos interpenetram-se com outros planos num interminável plano-sequência) lembrando o filme “A Origem”. Será que teremos outro complexo filme sobre os labirintos da mente? Depois, ao acessar 100% da capacidade do cérebro, as “smart pills” transformam-se em pílulas de ambição: deixa repentinamente de ser escritor e torna-se um brilhante especulador de Wall Street que descobriu um algoritmo capaz de prever todas as tendências do mercado financeiro. De repente, temos uma espécie de “Wall Street 3: onde o dinheiro nunca dorme”. E, não mais que de repente, o filme transforma-se em thriller de ação e perseguição, quando Eddie descobre que por trás das pílulas de NZT estão narco-traficantes e outros homens poderosos que também são usuários da droga e não aceitam competidores.

De qualquer forma, o tom irônico e reflexivo sugerido no início é superado pela apologia da superação do protagonista e o elogio ao atalho neuro-bio-químico da pílula: de perdedor auto-indulgente transforma-se num vencedor (reconquista sua esposa, torna-se milionário e poderoso e ainda tem a pretensão de se tornar senador e, mais tarde, presidente – o que, como sugere a lógica da narrativa – facilmente conseguirá).

Dos Yuppies da Geração X ao Neuro-yuppies da Geração Y

A chamada geração X (os filhos da geração “baby boomer” pós-guerra) produziu, nos anos 80 e 90, a sua autoimagem mais bem acabada: o Yuppie. Derivação da sigla YUP (jovem profissional urbano), esses jovens executivos do setor financeiro e de serviços se beneficiaram do crescimento econômico conduzida por políticas neoliberais de desregulamentação e diminuição de impostos nos EUA e Inglaterra. Ao contrário dos hippies do passado, sua ideologia é focada no indivíduo, materialismo (o sonho de juntar seu primeiro milhão de dólares antes dos 30 anos) e na flexibilidade ética e amoralidade.

“American Psycho”, 2010: agressividade, 
obsessão, impulsividade e frieza nos 
yuppies dos anos 80-90

Filmes como “Wall Street – Poder e Cobiça” (“Wall Street”, 1987) e “Psicopata Americano” (“American Psycho”, 2000) constroem didaticamente o perfil dessa geração: seu sucesso é explicado menos pelas suas capacidades técnico-profissionais e muito mais por características de personalidade, motivação e atitude: agressividade,obsessão, impulsividade, amoralidade, frieza e indiferença.

Diferente disso, o filme “Sem Limites” parece apontar para um novo yuppie, agora na chamada geração Y: o neuro-yuppie. Bill Gates e Steve Jobs são os símbolos para essa geração: ao contrário dos agressivos e amorais yuppies, eles são politicamente corretos (falam em sustentabilidade, criatividade e liberdade), são cientistas da informação e modelos de sucesso baseado no mérito técnico e profissional.

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