A religião das máquinas do Vale do Silício

Para o cientista de computadores Jaron Lanier, criador do conceito de “Realidade Virtual”, uma nova religião criada a partir da cultura da engenharia computacional seria a idéia corrente no Vale do Silício, Califórnia/EUA, e princípio orientador para a criação da Inteligência Artificial e Internet. Para Lanier seria a criação de um dogma digital: o “computacionismo” ou o “totalitarismo cibernético”.

 

Sempre nos telejornais aparecem notícias pitorescas sobre os últimos desenvolvimentos em Inteligência Artificial (IA): máquinas que sorriem, um programa que pode prever os gostos humanos musicais, robôs que ensinam línguas estrangeiras para crianças etc. Este fluxo constante de histórias nos sugere que as máquinas estão se tornando cada vez mais inteligentes e autônomas? Devemos considerá-las criaturas ao invés de ferramentas?

Não na opinião do cientista de computadores Jaron Lanier. Para ele, isso está não só alterando a maneira como pensamos os computadores. Também está alterando de forma errada os pressupostos de como pensamos nossas vidas: a criação de um dogma digital com o seu credo – o “computacionismo” ou “totalitarismo cibernético” – uma religião das máquinas que, ao encarar os computadores como criaturas, inversamente passamos a interpretar a mente e a consciência como fossem um computador. E o centro dessa nova religião com os seus messias está no Vale do Silício, Califórnia.

Parecem ser críticas de algum pensador humanista, daqueles tecnofóbicos com aversão a máquinas e ao desenvolvimento tecnológico. Pelo contrário, Jaron Lanier foi um dos primeiros a criar o conceito de Realidade Virtual e desenvolver produtos médicos aplicados a cirurgias com essa tecnologia. Lanier estava lá, no momento em que nasciam os primeiros sonhos e doutrinas digitais por meio de jovens nerds em um “amontoado de casas escuras de estuque perto de Palo Alto, Califórnia, na década de 80. Um ambiente hippie de criatividade e abertura onde as técnicas de realidade virtual nasceram”.

Além disso, tem uma carreira paralela como músico e compositor tendo gravado trabalhos com artistas como Philip Glass e Sean Lennon. 

Jaron Lanier

De 1997 a 2001 Lanier foi o cientista-chefe da Advanced Network and Services, que continha o Instituto de Engenharia de Internet 2, e serviu como cientista-chefe da Iniciativa Nacional Tele-imersão, uma aliança de universidades que estudavam as aplicações avançadas para a Internet 2. De 2001 a 2004 foi Pesquisador Visitante da Silicon Graphics Inc., onde desenvolveu soluções para os problemas fundamentais em telepresença e tele-imersão. Lanço alguns textos manifestos como o “Agents of Alienation” em 1995, “One a Half a manifesto” (2000) e o livro publicado no Brasil “Gadgets: Você nâo é um Aplicativo”.

Em agosto do ano passado Lanier publicou no jornal New York Times um artigo (clique aqui para lê-lo: “The First Church of Robotics”) onde denuncia a gestação do que seria a “primeira religião da robótica”, uma verdadeira religião das máquinas cibertotalitária onde “computadores se humanizam e serem humanos tornam-se computadores”. Lanier dá dois exemplos recentes dessa tendência:

Clay Shirky, professor do Programa de Interatividade em telecomunicações da Universidade de Nova York sugeriu que quando as pessoas re-twitam – repassam no Twitter pequenas mensagens para outras pessoas – isso não é uma atividade trivial: enquanto as pessoas performam uma atividade maquinal ao copiar e repassar informação, o pensamento real e criatividade são transferidos para uma grande escala, no interior de um cérebro global, onde problemas são resolvidos e conexões realizadas. “É a desvalorização do pensamento humano”.

Ou, ainda, o escaneamento de livros pelo Google:

“O historiador George Dyson escreveu que um engenheiro do Google uma vez disse-lhe: “Nós não estamos escaneando todos os livros para serem lidos por pessoas. Estamos fazendo isso para serem lidos por uma IA: “Enquanto acompanhamos o Google escaneando livros, uma visão tecnocêntrica incentiva programas a tratarem livros como combustível para um imenso moinho, trechos descontextualizados para um grande banco de dados, ao invés de expressões distintas de escritores individuais. Nesta abordagem, o conteúdo dos livros seria pulverizado em bits de informação a serem agregados, e os próprios autores, o sentimento de suas vozes e as diferentes perspectivas estariam perdidos.”

Então, porque somos embalados pelo conceito de uma Inteligência Artificial cada vê mais inteligente, nos tornando confiantes de que algoritmos avaliem nossas escolhas estéticas, a evolução de um estudante ou o risco de crédito de uma empresa? Por que o apelo teatral a jornalistas e consumidores onde os resultados da engenharia computacional são apresentados por um viés frankensteiniano? Deixemos Lanier dar a resposta:

“A resposta é simplesmente que os cientistas da computação são humanos, e são tão aterrorizados pela condição humana como qualquer outro. Nós, da elite técnica, buscamos alguma forma de pensar que nós podemos DAE uma resposta à morte. Isso ajuda a explicar o fascínio de um lugar como a Singularity University. O influente Vale do Silício narra uma história que seria assim: um dia, num futuro não muito distante, a Internet vai de repente ser incorporada a uma super Inteligência Artificial, infinitamente mais inteligente do que qualquer um de nós individualmente. Vai se tornar um ser vivo em um piscar de olhos e dominar o mundo antes que os seres humanos percebam o que está acontecendo.

 

Alguns pensam que a Internet recém-senciente iria querer nos matar; outros acham que ela seria generosa e nos digitalizaria da mesma forma como o Google digitaliza os livros antigos e, então, viveríamos para sempre como algoritmos dentro de um cérebro global.

 

Sim, isso soa como muitos filmes de ficção científica. Sim, isso soa maluco quando declarado assim tão abertamente. Mas estas são ideias correntes no Vale do Silício, são os princípios orientadores para muitos tecnólogos mais influentes e não apenas diversão.

 

(…) Todos os principais pensamentos atuais sobre a consciência e a alma estão ligados também na fé, o que sugere algo notável: O que nós estamos vendo é uma nova religião, expressa através de uma cultura de engenharia.”

Essa constatação franca de quem vive e trabalha no interior dessa elite tecnológica é elucidativa, pois confirma uma tese que viemos desenvolvendo nas últimas postagens (veja links abaixo): a existência de uma agenda tecnognóstica que tem como horizonte de longo prazo o desenvolvimento sistemático de uma cartografia da mente.

Por trás da ideologia do menor esforço ou da conveniência que domina o marketing das novas tecnologias e da visão “frankensteiniana” dos computadores (máquinas que se transformarão em criaturas independentes e autônomas), existe uma motivação religiosa ou mística: só há salvação se convertermos a mente e a consciência em algoritmos (pureza e transcendência) e deixarmos para trás os “ruídos” que se originam da nossa existência corpórea (ideologia, política, conflito, pecado etc.).

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