A versão de Mário de Andrade para o samba rural, por Augusto Diniz

A versão de Mário de Andrade para o samba rural

por Augusto Diniz

Foi em novembro de 1937 – portanto, há 80 anos – num ensaio publicado no volume XLI da Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, que se cunhou a expressão samba rural pela primeira vez. Seu autor foi Mário de Andrade. Por ter sido um dos maiores estudiosos da cultura brasileira, ficou quase inconteste que ele foi, de fato, o criador do termo – embora pesquisadores menos famosos da época tenham escrito sobre umbigada, samba de roda, de tambor e jongo, sem necessariamente condensá-los numa denominação como Mário de Andrade o fez.

Esse artigo de Mário de Andrade – bastante citado em estudos sobre a história da música popular no Estado de São Paulo – intitula-se “Samba rural paulista”. O texto trata da formação do rancho, cordão e das associações, compostos em sua maioria por negros e seus descendentes, para dançar samba com seus instrumentos de percussão – devidamente acompanhado de cachaça, ou pinga como ele cita no trabalho.

Era mais uma experiência in loco de Mário de Andrade pelo Brasil para entender sua cultura e tradições. O autor do livro “Macunaíma”, exemplo-mor na sua busca pelo entendimento dos traços culturais do País, retrata neste texto os detalhes da representação e a “força nos sambas rurais”. O conjunto de evolução, da coletividade, do canto, da dança, da sensualidade, do diálogo, do ritmo e da coreografia, que Mário de Andrade descreve nesse artigo, é caracterizado por ele como samba rural.

“Na terminologia dos negros que observei, a palavra samba tanto designa todas as danças da noite como cada uma delas em particular. Tanto se diz ‘ontem o samba esteve melhor’ como ‘agora sou eu que tiro o samba’. A palavra ainda designa o grupo associado pra dançar sambas. O dono-do-samba de São Paulo me falou que este ano ‘o samba de Campinas não vem’. E outros acrescentaram que a qualquer momento devia chegar a Pirapora ‘o samba de Sorocaba’” – Mário de Andrade. 

Conheça o ensaio na íntegra aqui.​

Mário de Andrade fez o relato do que viu na cidade de Pirapora do Bom Jesus, considerado berço do samba de São Paulo. O samba rural foi ao longo do tempo sendo incorporado por sambistas da capital paulista, que também receberam influências do samba tradicional urbano.

O cantor e compositor Geraldo Filme foi um grande exemplo de um sambista com processo de criação inserido nos dois gêneros – ele fez até uma música para exaltar o samba de Pirapora: ouça aqui.

Osvaldinho da Cuíca é uma das maiores referências vivas no trânsito entre o samba rural e o samba urbano. O músico tem composições reverenciando o samba de Pirapora, além de constantemente citá-lo. Trata-se indiscutivelmente de um dos maiores divulgadores hoje daquilo que Mário de Andrade descreveu há 80 anos. Outro que tem um trabalho voltado ao samba rural paulista é o compositor Dorinho Marques, que possui um CD solo exaltando o gênero.

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