Apelo para Soledad Barrett no teatro brasileiro, por Urariano Mota

Terminam esta semana, no Recife, as apresentações de “Soledad, a terra é fogo sob nossos pés”. O espetáculo é a primeira dramatização da vida de Soledad Barrett nos palcos brasileiros.   

Antes, um pequeno esclarecimento.  

Quem foi, quem é Soledad Barrett Viedma? Qual a sua força e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou grávida para a execução. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar “O massacre da granja São Bento”.

E Soledad Barrett Viedma não cabe em um parêntese. Ela é o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que não fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida até em roupas rústicas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que não houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti;  ainda que não fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevidéu, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que não fosse neta do escritor Rafael Barrett, um clássico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim… ainda assim o quê? Para dizer pouco, digo que o crime contra Soledad Barrett Viedma é um dos casos mais eloquentes da guerra suja da ditadura no Brasil.

O espetáculo no teatro recupera e atualiza a vida de Soledad para todos, os mais e menos jovens brasileiros. A vida, os conflitos de mulher, de mãe, de filha, de militante perseguida, destruída em pleno voo de sonho e juventude, tem nesse espetáculo a recuperação da musa e guerrilheira como a mulher que todos aprendemos a amar. 

 

A peça é encenada pela grande atriz e idealizadora do espetáculo, Hilda Torres, com a  direção da atriz e diretora Malú Bazan. As duas também são responsáveis pelo texto do monólogo. A artista plástica Ñasaindy Barrett de Araújo, única filha de Soledad Barrett, compôs músicas e a identidade visual do projeto, que estabelece um diálogo intenso com a música.

 

Nas palavras de Ñasaindy Barrett, que assina composições e põe sua bela voz de cantora no espetáculo:

 

“A partir dos 20 anos de idade, comecei a escrever, cantar, compor e tocar. Hoje  recupero também o aspecto mais plástico, de artes plásticas. Há muitas coisas que estão surgindo juntas. E por outro lado, estou me pondo à disposição de intensificar minha relação com os Direitos Humanos, e de contar minha parte na história como filha de Soledad, como filha de Damaris, como filha de José María Ferreira de Araújo. Estou aqui disponível para poder ser uma referência a mais para a luta e resgate da memória, da verdade e da justiça”.

 

O que dizer de uma filha que reencontra a verdade e glória da sua mãe, de Soledad Barrett, que foi e tem sido tão caluniada, ainda hoje, como terrorista? Isso não é, já em si, uma vitória de humanidade, um sonho impossível da arte que repõe a vida?

 

A montagem sobre a vida de Soledad nasceu de uma pesquisa intensa que teve início depois que Hilda Torres ganhou de um amigo o livro Soledad no Recife,  que um dia escrevi. Movida pelo livro, Hilda realizou uma série de entrevistas e pesquisa documental sobre a vida da guerrilheira paraguaia. E nasceu assim o monólogo, escrito por ela e Malú Bazan.  Nas palavras da atriz Hilda Torres:

 

“Tenho 3 olhares imediatos sobre o espetáculo. Sobre Soledad, ela é uma mulher tão forte, que falar dela 42 anos depois é resgatar uma força inerente a toda trajetória da sua vida.  Essa personagem cobra de mim e impulsiona uma força maior do que eu já tinha em minha própria história. A ponto de me deixar muito, muito mexida. A cada espetáculo, a cada noite, me sinto com a alma em carne viva. O outro olhar é trazer a personagem de Soledad para que as pessoas tenham o conhecimento da história. Tem sido extremamente impactante, o público mostra impacto com a peça, as pessoas acolhem de forma emocionada, a sensação que trazem pra gente, além da gratidão, é como estamos resgatando uma história para outra geração. Quem sofreu a ditadura, conta que tem um sentimento de continuidade, não só de resgatar, mas de vivenciar, de repensar para a atualidade. É muita emoção. E tem um olhar para a juventude de hoje, para as pessoas que não conhecem a história. Todos têm se sentido impactados e provocados a olhar o momento que estão vivendo. Uma jovem de 19 anos me abraçou, em lágrimas. Ela me disse: ‘muito obrigada, eu não sabia da história de Soledad’. Os jovens percebem que têm que ter um olhar mais crítico para a realidade hoje.”

 

Pois bem, meus amigos, esse grande espetáculo, essa recuperação da vida e luta de uma mulher entregue à repressão pelo marido, uma tragédia que um dia foi encenado com o terror de Estado, sangue e traição no Recife, precisa ir para outras cidades do Brasil. Mas não tem como até aqui, não tem dinheiro ou patrocínio, até a presente hora. Por enquanto, o monólogo de Soledad Barrett está sendo levado na garra, somente na vontade e dedicação absoluta da produção teatral à sua história. Este é o apelo. Que se movam secretarias de cultura e de direitos humanos, que convidem e deem condições mínimas para que mais brasileiros possam ver a ressurreição de Soledad Barrett no palco.

 

Atenção, para os contatos:

 

Hilda Torres – (81) 996625333

 

Márcio Santos – (81) 997105837

 

Email: [email protected]

 

 

Levem Soledad Barrett para os teatros do Brasil. O monólogo é um momento de renovação e recuperação da cena teatral para a vida, anunciada e denunciada com emoção, beleza e arte. O espetáculo não deve ficar apenas no Recife. Ele apenas começou aqui, mas não pode morrer nesta cidade, como a sua heroína. Soledad é viva história de todo o Brasil.

 

*Rádio Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/270402-333

 

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