As cartas entre Guimarães Rosa e Jorge Cabral

Cordial Correspondência Consular
(entre João Guimarães Rosa e Jorge Kirchhofer Cabral, sem Wikileaks)

01 —————————————————————————

Francfort, Novembro 12, 1940.

Meu caro Cônsul Rosa,

Tenho reparado que diversos Colegas deixam de remeter com regularidade um relatório mensal sobre a vida alegre, que levam neste belo país, desobedecendo assim ao que está claramente preceituado no artigo 1º da Consolidação da Boa Amizade.

A fim de sanar tão grave irregularidade, comunico aos Colegas que, doravante, punirei severamente aos funcionários faltosos, enviando-lhes uma carta anônima cheia de desaforos.

Feita esta primeira admoestação regulamentar, passo a tratar de assuntos mais sérios.

AquiAqui vai tudo correndo muito bem, quer dizer que está tudo bem parado. Felizmente o sono do justo não é interrompido pelo grito estridente da sereia. De maneira que ninguém é tentado a descer ao porão para se encontrar com esse “monstro fabuloso metade mulher e metade peixe”, que também pode ser “apito de barco de vapor cujo som variado parece sair de um instrumento de chaves”, conforme nos ensina o dicionário.

Tenho razões para crer, pela leitura dos mentirosos (relativamente) jornais neutros, que esse posto está sendo vítima noturnamente da lei da gravidade, essa “propriedade atrativa exercida pela terra sobre os graves”, que obriga uma bomba, abandonada no espaço por um aeroplano, a cair aceleradamente contra a crosta do globo terráqueo, procurando atingir de preferência um objetivo nitidamente caracterizado como civil. O melhor remédio para esse estado de coisas é procurar uma tarefa que leve o indivíduo a sair do seu ego, isto é, um trabalho espiritual, vale dizer ainda: um trabalho espirituoso.

Anteontem à noite caíram aqui três bombas, abrindo três enormes crateras num terreno baldio, as quais serão aproveitadas para a plantação de couve gigante.

Gostaria de saber se esse C.C. tem podido remeter a renda. Aqui nada consegui, desde que tomei posse.

Com a moda econômica dos vestidos curtos, tenho tido ocasião de apreciar alguns pares de pernas, dignos de melhor sorte. É um verdadeiro “Beitum”.

Aguardo com interesse o seu relatório.

Abraços do
a) Cabral.

02 —————————————————————————

Cônsul Caro Colega Cabral,

Compareço, confirmando chegada cordial carta. Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada Consolidação Confraría Camaradagem Consular. Conte comigo! Comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente, condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpreme cá conjeturar – cochicando, como convém -: conseguirá comezinha Consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?… Crês?… Crédulo!… Considera:… “cobra come cobra!…” Coletividade de cônsules compatrícios contém, corroendo carne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes… Contrastando, contam-se, claro corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemonos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com companheiros camaradas, combatendo corja contumaz!

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável conseqüências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los, confraternizaremos completamente, com compreensão calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis).

Céus! Convém cobrar compostura. Censo contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônicas contemporânea:

Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos…

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações. Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam céleres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhoneio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas cratéras (cultura couve-colosso…). Cacos cápsulas contra-aéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta, calcanhar!…) conjurando Churchill, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho. Coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (Como conseguir colocar-me chão carioca – Confeitaria Colombo, CC., Copacabana, Catumbi???…) Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!… Calma, calma! conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente. Calculo conseguí-lo-às, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficos contornos carnes cubiçáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?… Cáspite!

Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conheças:

CANTADA

Caso contigo, Carmela,
caso cumpras condição:

Cobrarei casa, comida,
cama, cavalo, canção,
carinho, cobres, cachaça,
carnaval camaradão,
casino (com conta certa)
cerveja, coleira e cão,
chevrolé cinco cilindros,
canja e consideração,
calista, cabeleireiro,
cinema, calefação,
chá, café, confeitaria,
chocolate, chimarrão,
casemira – cinco cortes,
cada compra – comissão,
conforto, comodidades,
cachimbo, calma, … caixão.

Convém-te, cara Carmela?
Cherubim!… Consolação!…

(Caso contrário, cabaças!,
casarei com Conceição.)

Caso contigo, Carmela,
correndo, com coração!…

———-

Chega. Caceteei? Consola-te:

Concluí.

Com cordial, comovido:

Colega, constante camarada,

a) J. Guimarães Rosa
(Cônsul, Capitão, Clínico conceituado.) –

Confirme chegada carta,
comunicando-me com cartão.

03 —————————————————————————

Francforte, Nov., 27, 1940.

Querido Colega Guimarães (Rosa),

Para que fui mexer com casa de abelha? A sua carta colossal chegou como um enxame de marimbondos. Você esgotou o assunto completamente, e mereceu grau 10. Parodiando um francês, direi que Você aliou a imaginação brasileira à “Gründlichkeit” alemã. Vou enviar a sua obra d’arte à Mimeografia do Itamaraty, para que seja distribuída às Missões Diplomáticas e Consulares de carreira, como exemplo da capacidade de trabalho dos nossos cônsules. Enfim, – confesso-me vencido, como a França, ou melhor, como os italianos de Koritza, e só me resta pedir um armistício.

Gostei muito dos carimbozinhos, principalmente do aperto de mão. É invento seu, ou modelo da Harrison? Salva a gente de um grande embaraço, que é o de como terminar uma carta. Eu costumo sapecar um

abraço do
a) Cabral.

FONTE:

Guimarães Rosa: diplomata/Heloísa Vilhena de Araújo.— Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2007.

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