Aventura em Buenos Aires, por Caiubi Miranda

Minha esposa é porteña. Logo que nos casamos viemos morar no Rio mas íamos com alguma frequência a Buenos Aires visitar os pais e parentes dela que lá viviam.

Por volta de 1977 ou 1978 fizemos uma dessas visitas familiares. A Argentina vivia então sob as mãos de ferro de Videla, o mais cruel dos ditadores argentinos. Desaparecidos aos montes, prisões na calada da noite, torturas inimagináveis – dizem que Videla gostava de assisti-las pessoalmente – cadáveres e torturados semimortos eram atirados de avião em alto mar… O horror dos horrores! Nós, aqui no Brasil, tínhamos alguma notícia do que acontecia, mas os argentinos, pouco ou nada sabiam do que ocorria em seu país.

Numa das noites dessa viagem, decidimos ficar em casa tranquilos, jogando canastra e conversa fora. Num determinado momento, já um pouco tarde, decidimos ir comprar uma pizza, duas quadras de distância da nossa casa. Não existia delivery nessa pizzaria e tínhamos que levar as formas de alumínio de casa.

E lá fomos eu e meu cunhado – os dois mancebos da casa, eu cabeludo e barbudo – segurando nossas formas de pizza. Quando viramos a esquina escutamos enorme ruído de pneus de carros arrancando e vimo-nos súbito cercados por 8 Ford Falcon dos quais desceram pelo menos uma dezena de homens em roupas civis, mas todos empunhando metralhadoras. Sabíamos que eram policiais porque, além da cara, os Ford Falcon eram os carros oficiais da polícia não tão secreta de Videla.

“Abajo! Abajo!” gritavam todos juntos. Largamos as formas de pizza e deitamos no chão de barriga prá baixo e a mão nas costas para que nos algemassem. Enquanto um me algemava, outro mantinha o cano da metralhadora encostado em minha cabeça. Nunca senti tanto medo em minha vida: pensava em tudo que já tinha lido e ouvido falar sobre a repressão na Argentina. E tinha certeza que daquela não escaparia. Dei uma olhada em redor e fiquei apavorado ao ver que não havia ninguém na rua e que todas as janelas estavam fechadas, luzes apagadas. “Eu sou brasileiro, eu sou brasileiro” repetia sem cessar já que não me ocorria outra coisa a dizer.

Depois de nos revistarem, juntaram-se num canto, conversaram alguns minutos e acho que chegaram à conclusão que não éramos as  pessoas que aparentemente eles estavam esperando e, portanto, deveríamos ser soltos. Foi o que fizeram. Soltaram as algemas, ainda com a ameaça das metralhadoras, deram-nos um pé na bunda e ordenaram que fugíssemos.

Quando estávamos quase chegando em casa, meu cunhado disse suas primeiras palavras: “sabe que me passó? Me isse pis…”. Reparei, então, em mim. Coloquei  a mão e  vi que também estava completamente mijado.

Entramos em casa gotejando e levamos pelo menos meia hora para explicar o que ocorrera. Não conseguíamos falar direito e nem explicar as coisas com clareza. Tomamos um uísque pistoleiro e fomos para o banho. Só então consegui me tranquilizar um pouco e perceber que eu continuava vivo, apesar do enorme susto.

Vesti o pijama, voltei à sala e me servi de outro uísque, duplo dessa vez. Era a garantia que eu ia me tranquilizar de vez. Sentado no sofá, senti que minha pulsação voltava ao normal e eu começava a me lembrar de alguns detalhes que tinham desaparecido da minha memória. Como, por exemplo, a sensação de horror de ter a metralhadora encostada em minha fronte.

Sentindo minha tranquilidade e do meu cunhado também, minha sogra nos falou: “Imagino que vocês não sejam homens bastante para ir buscar minhas formas de pizza que devem estar lá jogadas pelo chão. São caríssimas.”

Virei meu uísque e fui dormir. 

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