Billie Holiday ao vivo

Por Jota A. Botelho


The Sounds of Jazz. CBS TV Broadcast. Dezembro de 1957. Da esquerda para à direita: Billie Holiday, Lester Young, Coleman Hawkins e Gerry Miligan.

Billie Holiday nos é presenteada com grandes apresentações ao vivo, entre 1950 a 1959, com Count Basie, Corky Hale, Georgie Auld, Mal Waldron, Mary Osborne, Vinnie Burke, Osie Johnson, Roy Eldridge, Doc Cheatham e muitos outros, no documentário Strange Fruit.


A letra da canção e cenas do documentário Billie Holiday – Strange Fruit.
 

O LIVRO SOBRE A CANÇÃO STRANGE FRUIT


Capas do livro de David Margolick. 

STRANGE FRUIT – A FRUTA AMARGA DO RACISMO
Um clássico na luta contra o racismo tem sua história destrinchada na obra de David Margolick
Textos reunidos de Luiz Felipe Reis & José Carlos Ruy 

Nova York, 1939. Os garçons interrompem o atendimento, a clientela silencia e um breu retumbante toma a sala do Café Society, um bar construído no porão da Sheridan Square, no Greenwich Village. No escuro infinito, um ínfimo rasgo de luz focaliza o rosto de Billie Holiday. Um piano chama e “Strange Fruit” brota. Em apenas três minutos a escuridão da noite torna a invadir o café. É o tempo necessário para que ela entoe seu número final. Billie deixa o palco. Sem despedida, bis, nada. Apenas escuro e silêncio. Até que uma mão se junta a outra, e uma ovação inunda a sala. Mas não há volta. A diva não reaparece. E, invariavelmente, a cena se repete nas noites nova-iorquinas de 1939. “Strange Fruit – Billie Holiday e a biografia de uma canção”, é a história de uma canção de protesto e também uma denúncia veemente do feroz racismo existente nos  EUA.  O tema é assustador: o linchamento de negros nos Estados Unidos, comuns há algumas décadas. Esta é a receita que resultou num dos maiores clássicos da canção de protesto nos EUA, cuja história está contada no livro de David Margolick.

“As pessoas tinham de se lembrar de ‘Strange Fruit’, ficar com as entranhas queimadas pela música”, recordou Barney Josephson, o ex-dono do clube, em entrevista concedida ao jornalista americano David Margolick, em 1998. “Minha instrução era para ela sair, ponto”.

À época, Margolick preparava uma reportagem que foi publicada em setembro daquele ano pela revista “Vanity Fair”. Três anos depois, a matéria foi ampliada no livro “Strange Fruit – Billie Holiday e a biografia de uma canção”.  Nele, o jornalista constrói, como deixa claro o título, a história de vida de uma única canção, desde o nascimento até a sua mort… — bem, “Strange Fruit” recusa-se a morrer. Considerada a primeira canção de protesto explícito contra o racismo e o linchamento de negros no Sul dos Estados Unidos, ela é um poema metafórico que ilustra o modo como os negros eram mortos e exibidos ao público: pendurados em galhos de árvores, como “frutos estranhos”.

— Essa única canção contém toda a história dos direitos civis nos Estados Unidos. É um lembrete da capacidade única que a música tem de capturar a condição humana — diz Margolick.

E é exatamente a força e a perenidade dessa peça emblemática do repertório de Billie Holiday que o autor investiga. Para isso, reconstrói a história do nascimento da canção, liquidando mitos criados até por sua intérprete oficial.

— Eu queria esclarecer a informação sobre o autor da canção, porque alguns mitos foram propagados pela Billie e pelas pessoas que assinaram com ela a sua autobiografia (“Lady sings the blues”) — diz o jornalista. — Eles fabricaram a história de que ela a teria escrito após testemunhar um linchamento.

A música, composta aí pelo final de 1937, foi gravada originalmente por Billie Holiday em abril de 1939 e logo apresentada em público no Café Society, uma espécie de clube noturno que reunia socialistas, comunistas, sindicalistas e democratas em Nova York (foi fechado, no começo da década de 1950, pelos caça-comunistas liderados pelo direitista chefe do FBI, J. Edgar Hoover). Foi um choque. Em sua autobiografia, a própria Billie Holiday registrou o impacto: quando terminou de cantar: silêncio total; “então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente e, de repente, todo mundo estava aplaudindo”.

“Strange Fruit” é uma canção inquietante, que sempre provocou adesões fervorosas e rejeições ferozes quando era apresentada. Por um motivo simples, como registra Margolick: ela confronta uma nação (os Estados Unidos) com seus fantasmas mais cruéis. A menção aos linchamentos é direta, e chocante, e isso faz dela, como disse na época o crítico E. Y. “Yip” Harburg, um “documento histórico”. Outro crítico de jazz, Leonard Feather, tem opinião semelhante: foi “o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo”; com certeza, disse ele, “nenhuma canção na história dos Estados Unidos representa tamanha garantia de silenciar uma plateia ou gerar tanto desconforto”.

Anos mais tarde, a militante negra e comunista Ângela Davis escreveu, em Blues Legacies and Black Feminism (Legados do blues e feminismo negro), que “Strange Fruit” devolveu “o elemento de protesto e resistência ao centro da cultura musical negra contemporânea”.

A “fruta estranha” do título e da letra é o corpo dos negros linchados e enforcados em alguma árvore, onde ficavam sangrando, balançando ao vento. Na tradução da letra, publicada no livro, o tradutor escreveu o verso final assim: “Eis uma estranha e amarga fruta”. Preferi escolher uma versão em português mais ao pé da letra original, que diz “Here is a strange and bitter crop” (Eis uma estranha e amarga colheita), por duas razões. Primeiro em respeito à ênfase que a interpretação de Billie Holiday dava à última palavra, “crop” (colheita); depois por julgar a palavra “colheita” mais adequada para manter o espírito original da canção: enquanto “fruta”, neste último verso, se refere a uma pessoa singular, a palavra ”colheita” se refere a toda uma coletividade “colhida” nas garras da ferocidade racista.

O linchamento de negros, e outras pessoas acusadas de algum crime, era uma espécie de ritual amplamente aceito nos Estados Unidos. Um levantamento conservador indica que, entre 1889 e 1930 ocorreram 3.833 linchamentos, 90% dos quais no Sul, e a imensa maioria eram negros. “Linchamentos tendiam a ocorrer em cidades pequenas e pobres, muitas vezes tomando o lugar, como disse certa vez o famoso jornalista H. L. Mencken, ‘do carrossel, do teatro, da orquestra sinfônica’”, diz Margolick.

Era uma perversa e feroz “diversão” popular. Eles ocorriam em resposta a uma série de supostos crimes, “não apenas assassinato, roubo e estupro, mas também por insultar uma pessoa branca, por se gabar, por falar palavrão ou comprar um carro. Em alguns casos, não havia infração alguma: era apenas hora de lembrar aos negros ‘metidos’ que eles deviam saber qual era seu lugar”, escreveu o autor.


A foto trágica, e famosa, que inspirou Strange Fruit, fotografada por Lawrence Beitler, de Thomas Shipp e Abram Smith sendo enforcados na cidade de Marion, Indiana, em 7 de agosto de 1930.

Margolick endossa a suposição de que a inspiração da canção Strange Fruit tenha sido uma fotografia que, desde a década de 1930, tem sido uma inquietante denuncia visual daqueles crimes coletivos: o linchamento de dois homens negros ocorrido em Marion, Indiana (no Norte, portanto, e não no Sul…). A foto foi amplamente usada como denúncia contra o racismo e Meeropol provavelmente escreveu seu primeiro poema sobre o assunto inspirado nela, que foi publicado no jornal sindical The New Yorker Teacher, em janeiro de 1937.

O VERDADEIRO AUTOR DA CANÇÃO


Fotos acima: Abel Meeropol, e com filhos do casal Rosenberg, a fotografia que o inspirou e Billie Holiday. Fotos abaixo: Com sua mulher Anne, o casal Rosenberg na prisão, e ao lado, seus filhos Robert e Michael Rosenberg.

Abel Meeropol e sua esposa eram militantes clandestinos do Partido Comunista dos Estados Unidos, ao qual foram filiados até 1947 mas, mesmo assim, vigiados pelo FBI até 1970. Em 1941 ele foi forçado a depor em uma investigação sobre atividades comunistas – queriam saber quanto o partido pagou pela música, ou se os lucros iam para o partido, mas ele negou tudo. O casal permaneceu ligado aos comunistas e, na década de 1950, adotaram os filhos menores do casal Ethel e Julius Rosenberg, executados na cadeira elétrica em junho de 1953 depois de um controverso processo onde foram acusados de espionagem a favor da União Soviética.

A própria Billie Holiday chegou a ser convocada, na década de 1940, para depor perante uma investigação anticomunista, para explicar-se a respeito da gravação e das frequentes apresentações de “Strange Fruit”. Em 1950, Josh White, que havia gravado a música, foi convocado a depor perante o Comitê de Atividades Antiamericanas, coração do tristemente célebre macarthismo.

Para Margolick, não há dúvidas de que Abel Meeropol é o autor da letra e da música, “e passou metade da vida a lembrar as pessoas (disso)”. Homem branco, judeu progressista e professor no Bronx, Meeropol escrevia sob o pseudônimo de Lewis Allan. Admirado por Kurt Weill e Ira Gershwin, tinha pouco mais de 30 anos quando deparou com uma fotografia, publicada numa revista de direitos civis, que estampava o linchamento de dois negros ocorrido em Indiana, em 1930. Abalado com a imagem, Meerepol escreveu o poema “Bitter fruit” e mais tarde, em 1938, pisou à soleira do Café Society para mostrar a Billie sua nova canção. No livro, tanto Meeropol como o dono do bar que lhe abriu as portas especulam sobre a incompreensão de Billie frente à canção: “O que você quer que eu faça com isso?”, ela teria dito ao escutá-la. “Strange Fruit” era diferente esteticamente de tudo o que a cantora interpretara até então. Do ponto de vista temático, iluminava a ruptura do comentário social em meio às baladas de amor e, sob o viés do gênero, não se alinhava nem à tradição folk e nem às inovações do jazz. Mas Margolick é taxativo: “É inconcebível que ela não soubesse o que estava cantando e não sentisse profundamente”.

— Billie se apropriou da canção e fez dela um sucesso. A música não teria ido longe se não fosse por ela, mas também não teria existido sem Meeropol. Essa reescrita da história para torná-la “melhor” é perniciosa. Quis deter isso.

Ao trabalhar para deter isso, Margolick torna o seu livro interessante, porque não se empenha em levantar polêmicas ou tornar definitiva outra teoria. Seu texto aposta na polifonia, recorrendo a fontes e versões distintas que conduzem, por si mesmas, a um melhor entendimento da história. Não só da origem da música. Mas, principalmente, do que ela espelha: a violência indiscriminada contra os negros na sociedade americana. E, para isso, dados: entre 1889 e 1930 ocorreram 3.833 negros que foram linchados e assassinados no Sul dos EUA. No ano em que Billie cantou “Strange Fruit” pela primeira vez, apenas três casos foram registrados. Mas o preconceito estava longe da trégua, e o movimento pelos direitos civis só eclodiria 16 anos depois, após a prisão de Rosa Parks, que se negou a ceder seu lugar no ônibus a um branco.

— “Strange Fruit” foi escrita numa época em que as relações raciais nos EUA eram muito precárias. Os linchamentos, apesar de terem diminuído, não eram discutidos. Por isso, cantar aquela música foi um ato de coragem.

Em meio à plateia de intelectuais de esquerda do Café Society, Billie recebeu apoio. Fora do porão, no entanto, a canção lhe rendeu agressões, e não só físicas. A Columbia Records se negou a gravá-la, e sua mãe protestou quando soube da música. Billie respondia em cada show. A indignação e a ferocidade de sua interpretação eram também usadas como arma para impedir qualquer outro músico de tocá-la: “Ela queria cortar o meu pescoço”, recordou Josh White. E também de quem a desrespeitasse. A um branco abusado, Billie ofereceu cadeiras, e a uma plateia careta, reservou outro plano: “Virou as costas, curvou-se, levantou o vestido e mostrou a bunda preta”, diz Josephson, no livro. “Uma pessoa negra disse ‘kiss my ass’ para uma plateia branca!”

— Os negros não queriam ouvir uma música sobre aquilo, assim como a maioria dos brancos — diz Margolick.

Além de desafetos, o peso da canção se integrou à alma de Billie: “Fiz uma porção de inimigos, sim”, disse ela à revista “Downbeat”, em 1947. “Cantar aquilo não me ajudou em nada”. Margolick comenta:

— Em sua tristeza e tragédia, Billie Holiday passou a encarná-la.

A música popular estadunidense tem inúmeros exemplos de canções e cantores ligados à luta dos trabalhadores e ao protesto social. Um exemplo é Woody Guthrie, o cantor ligado aos comunistas que foi o ídolo da juventude de Bob Dylan; Alfred Hayes e Earl Robinson foram os autores célebre de Joe Hill, imortalizada por Joan Baez e que conta a história do militante operário condenado à morte em 1915; há What Did I Do to Be So Black and Blue?, que Louis Armstrong transformou numa espécie de hino da luta contra o racismo. Isto só para citar algumas, de memória… Mas nenhuma se iguala, em influência, desafio e permanência histórica a “Strange Fruit”, que pode ser ouvida em seguida, na voz da “dona” da canção, Billie Holiday.

Strange Fruit by Billie Holiday
Com fotografias da segregação racial e linchamentos nos Estados Unidos, incluída a famosa foto de Lawrence Beitler, de Thomas Shipp e Abram Smith sendo enforcados na cidade de Marion, Indiana, em 7 de agosto de 1930, que acabou inspirando Abel Meeropol escrever o poema Strange Fruit em 1937, e depois gravada por Billie Holiday em 1939.

https://www.youtube.com/watch?v=Xq2TXDEyyOI align:center]

Ao forçar a nação a enfrentar seus mais sombrios impulsos, Billie não recebia em troca solidariedade, e o autor chega a vislumbrar que a canção, de fato, teria precipitado seu declínio ao buraco negro das drogas. Viciada em álcool e heroína, Billie viu pouco a pouco seu estado de saúde se deteriorar até a sua morte, ainda jovem, aos 44 anos, em 1959. Mas nunca deixou de cantar a canção inquietante que, naqueles anos, foi frequentemente associada à luta por causas progressistas e avançadas. Foi cantada por ela na comemoração do 1º de Maio de 1941, na Union Square, em Nova York. Foi usada, por exemplo, pelo Comitê de Artes Cênicas de Nova York para pressionar os senadores pela proibição dos linchamentos. Na eleição de 1943 embalou a campanha de Ben Davis Jr, o primeiro negro e comunista a ser eleito vereador em Nova York, novamente cantada por ela.

—  A sua agonia pessoal acentuava o tema angustiante da canção — diz Margolick. — Como um grito contra o racismo, “Strange Fruit” representava os obstáculos que alguém como Billie teria de superar, mas que, no caso dela, não foi possível.

Trecho da música Strange fruit, de Lewis Allan (tradução de Carlos Rennó)

Árvores do Sul dão uma fruta estranha / Folha ou raiz em sangue se banha / Corpo negro balançando, lento / Fruta pendendo de um galho ao vento

Cena pastoril do Sul celebrado / A boca torta e o olho inchado / Cheiro de magnólia chega e passa / De repente o odor de carne em brasa

Eis uma fruta para que o vento sugue, / Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue, / Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta, / Eis uma estranha e amarga fruta

Outra tradução:

As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto, / Sangue nas folhas e sangue na raiz, / Um corpo negro balançando na brisa sulista / Um estranho fruto pendurado nos álamos.

Uma cena pastoral no galante Sul, / Os olhos esbugalhados e a boca torcida, / Perfume de magnólia doce e fresca, Então o repentino cheiro de carne queimada!

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem, / Para a chuva recolher, para o vento sugar, / Para o sol apodrecer, para as árvores fazer cair, / Aqui está uma estranha e amarga colheita.

Strange Fruit –  Songwriters de Abel Meeropol (Lewis Allan)

Southern trees bear strange fruit, / Blood on the leaves and blood at the root, / Black body swinging in the Southern breeze, / Strange fruit hanging from the poplar trees.

Pastoral scene of the gallant South, / The bulging eyes and the twisted mouth, / Scent of magnolia sweet and fresh, / Then the sudden smell of burning flesh!

Here is fruit for the crows to pluck, / For the rain to gather, for the wind to suck, / For the sun to rot, for the trees to drop, / Here is a strange and bitter crop.

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Fontes consultadas: 
O Globo & Portal Vermelho
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Na primeira foto, Billie Holiday interpretava o poema metafórico sobre o linchamento de negros com um único foco de luz sobre o seu rosto. Na foto central, a capa de disco mais representativa gravado por Billie Holiday, com design gráfico realizado pela gravadora sueca Sonet, que estranhamente ‘reproduz’ a fotografia. Na sequência, uma ilustração.

Strange Fruit, cuja versão mais famosa é a interpretação dada por Billie Holiday, foi colocada na lista do Hall da Fama do Grammy em 1978. Também foi incluída na lista de canções do século da Recording Industry of America e da National Endowment for the Arts. Meeropol e sua esposa adotaram, em 1957, Robert e Michael, filhos de Julius e Ethel Rosenberg, acusados e condenados por espionagem e executados pelo governo dos Estados Unidos. Meeropol escreveu Strange Fruit para expressar seu horror com os linchamentos, possivelmente após ter visto a fotografia de Lawrence Beitler do linchamento de Thomas Shipp e Abram Smith em Marion, Indiana, ocorrido em 7 de agosto de 1930. Ele publicou o poema em 1937, no The New York Teacher, uma publicação sindical. Embora Meeropol/Allan tenha sido frequentemente convidado por outros (nomeadamente por Earl Robinson) para musicar seu poema, só após algum tempo ele musicou Strange Fruit.

A canção teve algum sucesso como música de protesto na região de Nova Iorque. Meeropol, sua esposa e a vocalista negra Laura Duncan a apresentaram no Madison Square Garden. Billie Holiday ao cantá-la em 1939, disse que a fazia ter medo de retaliações. Mais tarde afirmou que as imagens de Strange Fruit lembravam-na de seu pai, isto fez com que ela continuasse a cantar a música. A canção tornou-se parte regular de suas apresentações ao vivo.

Holiday aproximou-se de sua gravadora, a Columbia Records, para gravar a canção. Mas a Columbia, temendo a repercussão das lojas de discos no sul do país, assim como a possível reação negativa de rádios afiliadas à CBS, recusou-se a gravar a música. Mesmo o grande produtor da Columbia, John Hammond, também se recusou. Decepcionada, ela procurou seu amigo Milt Gabler (tio do comediante Billy Crystal), cuja selo, a Commodore Records, gravava músicas de jazz alternativo. Holiday cantou para ele Strange Fruit a cappella,  e a canção comoveu Gabler ao ponto de fazê-lo chorar. Em 1939, Gabler fez um arranjo especial com a Vocalion Records para gravar e distribuir a música e a Columbia permitiu a realização de uma sessão fora do contrato para poder gravá-la. Strange Fruit foi altamente considerada.

Na época, tornou-se o maior sucesso de vendas de Billie Holiday. Em sua autobiografia, Lady Sings the Blues, Holiday sugeria que ela, junto com Lewis Allan, seu acompanhante Sonny White e o arranjador Danny Mendelsohn, musicaram o poema. Quando interrogada, Holiday – cuja autobiografia fora escrita pelo ghost-writer William Dufty – disse: “Eu nunca li aquele livro”. Durante a introdução musical, Holiday ficava com seus olhos fechados, como se evocando uma oração.

Numerosos outros cantores também fizeram versões da canção. Em outubro de 1939, Samuel Grafton do The New York Postassim descreveu Strange Fruit: “Se a ira dos explorados já foi além do suportável no Sul, agora há a sua Marseillaise”. Em dezembro de 1999, a revista Time deu a Strange Fruit o título de canção do Século. Em 2002, a Biblioteca do Congresso colocou a música dentre as 50 que seriam adicionadas ao National Recording Registry.
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Consulta: 
Wikipédia

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O DOCUMENTÁRIO BILLIE HOLIDAY – STRANGE FRUIT

[video:https://www.youtube.com/watch?v=PDtBUOTzpx8 align:center

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7 comentários

  1. Conheci muito Mal Waldron,

    Conheci muito Mal Waldron, pianista de Billie Holiday.

    Fomos amigos muito proximos, nos anos que moravamos na Europa.

    Cheguei a lhe propor,o que felizmente consegui, escrever um concerto erudito para violão, que entregamos ao violonista Turibio Santos,em Paris.

    Alem de grande pianista, Mal foi um extraordinario compositor.

    Seu famoso disco The Quest, onde Ron Carter toca celo, alem de minha amizade pelo Turibio, me motivaram a lhe dar ideia para criar tal concerto.

    A historia do surgimento dessa obra é muito engraçada.

    No momento que lhe apresentei a sugestão, Mal ficou surpreso.

    Com paciencia o apresentei ao Turibio Santos.

    Ficou combinado que ele iria compor a peça aos pedaços, os levando para o violonista toca-los a medida que os escrevia.

    Não pude acompanha-los no começo do trabalho,devido a uma viagem.

    Voltando, corri para casa do Turibio para saber sobre o resultado.

    Ele contou que meu amigo pianista viera varios dias seguidos,onde a cada um acrescentava apenas um acorde na partitura.

    Pedia para o violonista toca-lo e ia embora.

    Passadas poucas semanas não mais voltou.

    Pedi desculpas ao Turibio pelo tempo perdido,mas disse que ainda resolveria a questão.

    Num passe de magica encontrei Mal Waldron, com malas namão, chegando de uma viagem a Alemanha.

    Sem conversar muito me convidou a ir ao seu hotel, onde me entregaria o tal concerto.

    Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar ao seu quarto, vi que so havia uma linha, com poucos acordes escritos na partitura.

    Calmamente ele me pediu para esperar e em poucos minutos escreveu toda a obra.

    Era um genio.

    E desses genios que a historia demora para descobrir.

    Se prestarmos atenção nessas canções de Billie, veremos que ele era muito mais moderno,que os outros grandes pianistas que tambem a acompanharam.

    Deixou grandes discos tocando ao lado de Coltrane,Mingus,Max Roach,mas ainda não é visto na dimensão que merece.

    • A beleza dramática do piano de Mal Waldron

      por Guen Yokoyama – Mal Waldron

      Waldron e seu inseparável companheiro, o cigarro

      (…)

      Foi lançado no meio de 2008 pela JustinTime um cd que é, provavelmente, a última gravação de Mal. Silence – duo do saxofonista David Murray e o pianista – foi gravado em Bruxelas, última morada de Mal, em 2001. Ele, depois do colapso nervoso, mudou-se para a Europa, vivendo, inicialmente na Alemanha e depois fixou residência em Bruxelas, onde morreu em dezembro de 2002. Dois anos anos antes apresentara-se no Chivas Jazz Festival. Ficara hospedado num flat na região dos Jardins e, no dia seguinte a sua apresentação, almoçava tranquilamente com outros músicos que estavam no Brasil, no Esplanada Grill. Um deles era Don Byron que, pela “cara-de-pau” de meu amigo Takashi Fukushima, viemos a conhecer. Mal fumava toneladas de cigarros. Uma amiga, fumante também, viajou no mesmo voo em que voltava para Bruxelas. Coincidência: em Roma, uma das escalas, encontraram-se… na área dedicada aos fumantes.

      (…)
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      Mal Waldron toca “All Alone”

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=vFmpbd5ku4s align:center]
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      David Murray e Mal Waldron

      David Murray & Mal Waldron – Silence (2001)

      David Murray & Mal Waldron – Soul Eyes (do álbum Silence)

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=oadZ0t4MGf0 align:center]
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  2. Minha preferida

     

    Difícil escolher, mas entre tantas cantoras maravilhosas, Billie é a minha preferida. E Strange Fruit é uma canção poderosa, forte, de arrepiar!! 

    Parabéns pela postagem!!

    Abraços

    • O livro ‘Strange Fruit’

      Boa dica, Jair !!

      Strange Fruit é uma poética canção de protesto contra o racismo. Na voz de Billie Holiday, a canção adquiriu imensa força expressiva, afetando profundamente todos que a ouviam. Neste breve, mas rico relato, o jornalista David Margolick nos abre uma janela para um mundo: os Estados Unidos dos anos 30 e 40, um país dividido entre negros e brancos, progressistas e retrógrados, no qual Holiday ousou levar o terror do linchamento para dentro dos cafés e boates. link da Editora Cosac Naify

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