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Brasileiro não gosta de ler, essa nova geração não gosta de ler. Será?

Por Ana Souto

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Brasileiro não gosta de ler, essa nova geração não gosta de ler, blablabla. Será? O texto é grande mas na prosa sempre saborosa de Fulano Schlemihl que sabe do que fala. Para sair da discussão rasa e da reprodução de clichês.

“Todo ano, chegam à escola umas caixas de livros infantis. Livros de historinha, de poesia, de figurinha. A escolha é feita pelo Ministério e admito que me parece perfeita. Umas caixas destinam-se à meninada de bico na boca, outros ao ciclo de alfabetização e uns outros ao quarto e quinto anos. São livros lindos de morrer e já tive vontade de roubar todos.

O caso é que vai um exemplar de cada obra para cada escola. Um. Um livro, adequado a meninos de primeiro, segundo, terceiro ano. Oito salas, duzentos moleques. Um livro pra duzentos. O professor, pra variar, se vira. Lê para os alunos, faz o livro passar de mão em mão – uns dois minutos por aluno, e recebe de volta.

Sei que vivemos num mundo de recursos escassos e de prioridades orçamentárias. Só não dá pra esperar que alguém goste de ler se não tem ocasião de ler ao menos um livrinho todo, sozinho, durante o tempo que desejar, de lê-lo de volta, de escolher ler este ou aquele.

Pra melhorar a situação, esses livros não ficam na sala de aula, mas cuidadosamente guardados na sala da coordenação ou na biblioteca. Só saem de lá sob assinatura do professor, porque julga-se que ele poderá roubá-lo, o que é muito motivador para seu trabalho e lança sua autoestima lá na estratosfera. E tem que devolver logo, na mesma semana. Todos os cuidados são tomados para que a molecada não os veja demais, porque é caro, do “governo” e só tem um.

Se esses cuidados são tomados com professor, dispensável dizer que nem se concebe a ideia de emprestar o livrinho para que o pivete leia em casa, mostre a sua família, que em geral só tem a Bíblia em casa, escape do Faustão enfiando-se no papel. Não dá pra fazer isso porque eles estragam os livros e, claro, não devolvem. Sou muito ingênuo, mas me parece que todas as bibliotecas convivem com esse problema e o resolvem. Acho eu.

E como disse, sei que o país é pobre de marré e não dá pra sair distribuindo livro por aí. É escola demais, é criança demais, o orçamento tem limites legais, votados por gente que sabe tudo sobre educação.

Quanto a isso, umas observações pessoais.

1. Durante um tempo, tendo observado que os delinquentes que são conduzidos coercitivamente à carceragem da coordenação não davam a mínima para meus conselhos, reprimendas, inquéritos pra saber quem estapeou primeiro, etc, resolvi-me pelo avesso. Quem fosse preso, teria que passar quinze minutos lendo um livrinho. A ideia era surpreendê-los, quebrar sua expectativa e assim conduzi-los a não morder mais a orelha do coleguinha. Resultados: ninguém passou a ser mais disciplinado e bonzinho. Pelo menos um deles admitiu que tinha dado uma rasteira, na escada, num colega, bem na frente da tia, pra poder ir pra cadeia. Como o outro reagiu, foi também, e segundo suas contas, valeu a pena ter caído de cara no degrau. Muitos – quase todos – se recusavam a voltar pra sala. Tive que empurrar muitos pra fora, pra preencher minhas planilhas. Houve quatro ou cinco casos de falsas confissões de crime, para poder gozar a pena.

2. Parte das preciosidades fica na biblioteca. Um dia, a tia bobeou, e pela janela aberta, uma quadrilha entrou, roubou o máximo de livros que pôde, além de um grampeador e canetas.

3. Na sala dos professores, nas reuniões de coordenadores, enfim, em todo lugar, tema comum, apenas menos frequente que comentários meteorológicos, é como essa criançada não gosta de ler, não lê nada. Bom, nunca vi um único professor com um livro na mão, que não fosse de trabalho. Já vi catálogo da Avon, a Veja da semana, mas livro, não. Um dia cheguei lá com um Beckett. Insinuaram que era exibicionismo.

4. Assim mesmo, alguns conseguem ler, fora da escola, e aprendem até a escrever. Num concurso de redação, promovido pela meganha, sob o tema “paz no trânsito”, que renderia ao estilista o prêmio de uma bicicleta (uma ideia bacana, até a polícia tem ideias legais), as crianças do quarto e quinto anos foram induzidas pelas professoras a dizer coisas como: “é preciso olhar para os dois lados antes de atravessar” e “respeite a sinalização”, mas uma menina de onze anos, já abriu seu texto batendo a real: Nós, pedestres, somos invisíveis. Outra, também de onze, queixou-se que era “inadmissível” que a cidade fosse feita para os carros, porque o trabalhador ele tem que tomar condução. Mais uma – todas meninas – foi desclassificada, porque lembrou os protestos de junho e deu a seu texto este título: Como Roubar Um Ônibus. Poucas vezes vi ironia tão fina, cadência tão boa, vocabulário tão variado e preciso, mesmo no ensino médio de escola particular. Estava muito acima da comissão julgadora, da escola, dos professores. Procurei-a, dei-lhe os parabéns, perguntei o que ela lia. Ela foi meio reticente, no começo, não se deve dar muito assunto a gente como eu – tios de escola. Mas depois falou.

Não leio nada, não vou mentir. Mas vejo todos os jornais da tv e tenho dois perfis no face. Um, pras amigas, outro, pra falar de coisas mais sérias, que elas não entendem. Evitar problema, sabe como é, né, tio?”

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