Cartografias e topografias da mente

 

A cinematografia desse início de século parece expressar nas suas narrativas fílmicas uma agenda tecnológica contemporânea onde não apenas generaliza o modelo computacional como fosse o próprio modelo cognitivo de funcionamento da mente, mas também pretende criar modelos simulados de funcionamento cerebral a partir de verdadeiras cartografias e topografias da mente. O esforço multidisciplinar envolvendo as neurociências, ciências cognitivas, Cibernética, Inteligência Artificial e Teoria da Informação para não só desvendar o funcionamento da mente como também procurar um modelo de simulação que permita não só compreender a dinâmica dos processos mentais e da consciência, mas, principalmente, manipulá-la e controlá-la. Filmes que parecem expressar essa agenda tecnocientífica ao empreenderem uma verdadeira geografia alegórica dos processos mentais. Tal agenda culmina hoje no reforço de um novo tipo de sujeito das novas redes tecnológicas digitais: o sujeito fractal e a sua compulsão em representar cartograficamente seus pensamentos, hábitos, relacionamentos e projetos pessoais por meio de verdadeiras “geografias interiores”.

O filme pode ser considerado um verdadeiro documento primário por expressar através de imagens e movimento o imaginário e sensibilidades de uma determinada época. O historiador Marc Ferro, um dos principais nomes da chamada “Escola dos Annales”, acredita que a relação cinema-história tem um importante papel no campo historiográfico: “o imaginário é tanto história quanto História, mas o cinema, especialmente o cinema de ficção, abre um excelente caminho em direção aos campos da história psicossocial nunca atingidos pela análise dos documentos” (FERRO, 1992, p.12). Não importa se o filme refere-se a um passado remoto ou imediato, pois sempre vai além do seu conteúdo:

Toda imagem é histórica, na medida em que ela é produto de seu tempo e carrega consigo, mesmo que de forma indireta, sub-reptícia e muitas vezes inconsciente para quem a produziu, as ideologias, as mentalidades, os costumes, os rituais e os universos simbólicos do período em que foi produzido (NOVÓA & NOVA, 1998, p. 10).

Portanto, há uma conexão entre cinema e sociedade, ou seja, o filme pode ser considerado um repositório do imaginário social de uma determinada época. Sabemos que este imaginário contemporâneo é fortemente marcado por um desenvolvimento tecnológico bem particular que Victor Ferkiss caracterizou como “gnosticismo tecnológico” (FERKISS, 1980) e Erik Davis conceituou de forma mais sintética como “tecnognosticismo (DAVIS, 2004).

Cartografias e topografias
mentais em dois diagramas 

e gráficos do artigo da
“Nature Neuroscience”.
Na foto: mapeamento mental da
Lacuna Inc. no filme “Brilho
Eterno de Uma Mente
Sem Lembranças”

Acompanhando a cinematografia desse início de século que em trabalho recente denominamos como “filmes gnósticos”[i], percebe-se que produtores, diretores e roteiristas parecem estar antenados e, quase que simultaneamente, antecipam ou replicam a agenda tecnognóstica contemporânea. Essa agenda não apenas generaliza o modelo computacional como fosse o próprio modelo cognitivo de funcionamento da mente (input, output, processamento, memória etc.) como pretende também criar modelos simulados de funcionamento cerebral a partir de verdadeiras psicocartografias e psicotopografias.

Portanto, o que há em comum entre os filmes “Vanilla Sky” (2001), “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” (2004), “Sonhando Acordado” (The Good Night, 2007), “Ciência dos Sonhos” (La Science Dês Revês, 2006), “Alice no País das Maravilhas” (2010) de Tim Burton, “A Origem” (Inception, 2010) e a série televisiva “O Prisioneiro” (The Prisoner, 2009)?

Todos esses filmes parecem empreender um mapeamento, uma cartografia e uma topografia do mundo mental. Uma verdadeira geografia alegórica dos processos mentais (sonhos, devaneios, pensamentos, emoções etc.). Por exemplo, em “Vanilla Sky” vemos próximo ao final do filme, a revelação de que o protagonista David Aymes vive em um “sonho lúcido” criado a partir de um mapeamento das referências afetivas e emocionais feitas dentro do repertório imagético dele: filmes preferidos, músicas, bandas de rock e fragmentos diversos da cultura pop. O “sonho lúcido” do protagonista seria como um trajeto sentimental através do mapeamento das suas memórias.

A série “O Prisioneiro”aborda uma verdadeira cartografia da mente coletiva das pessoas que necessitam ser “consertadas” através de uma radical técnica neurocientífica: transportar o Eu para uma realidade paralela consensual (“A Vila”). Todos levam uma vida dupla: enquanto seus “eus” conscientes habitam o mundo real, simultaneamente seus “eus” inconscientes vivem o cotidiano bucólico da Vila. Dessa forma seus “eus” inconscientes são “consertados” na Vila através de uma agenda de valores “positivos” levada a cabo pelo líder da cidade.

Já no filme “A Origem”, temos uma topografia elaborada da geografia mental: diversos níveis dos sonhos sobrepõem-se, cada um com seu fuso horário distinto, produzindo uma arquitetura semelhante a um hipertexto ou a narrativa de um game de computador com diversos níveis como etapas.

Esses filmes parecem o refletir uma agenda tecnocientífica desse início de século: a agenda tecnognóstica, o esforço multidisciplinar envolvendo as neurociências, ciências cognitivas, Cibernética, Inteligência Artificial e Teoria da Informação para desvendar um dos últimos grandes mistérios da ciência: o funcionamento da mente humana e a natureza da consciência. A procura de uma simulação, um modelo computacional, uma interface gráfica que permita não só compreender a dinâmica dos processos mentais e da consciência, mas, principalmente, manipulá-la e controlá-la.

Tecnognosticismo

Essa agenda tecnocientífica (tecnognóstica) surge, a princípio, da motivação mística que impulsiona as tecnologias computacionais: a busca da inteligência artificial a partir da solução do mistério da natureza da consciência, da mente e da alma. É essa motivação transcendentalista que conduz a eliminação do corpo (por meio de próteses) e a virtualização da subjetividade:

As novas criações (biotecnologia, clonagem, nanotecnologia, realidade virtual ou a própria tecnologia computacional) apontam para a superação dos limites do orgânico. Victor Ferkiss vai caracterizar esta nova perspectiva com um conceito aparentemente paradoxal: “gnosticismo tecnológico”. O gnosticismo histórico caracterizava-se pelo horror ao orgânico e a uma aversão ao natural. Tais elementos seriam inimigos do espírito na sua busca por iluminação. Ora, a tecnociência atual aproxima-se de tal filosofia ao propor a superação dos parâmetros básicos da condição humana: finitude, contingência, mortalidade, corporalidade, animalidade e limitação existencial. Ferkiss, assim como Martins (1980), apontam para esse surpreendente cruzamento entre as aspirações tecnológicas contemporâneas e as utopias gnósticas por transcendência. (FERREIRA, 2010, p. 25).

O final do século XX foi marcado pela primeira fase desse gnosticismo tecnológico: a possibilidade da criação de mundos virtuais. A virtualização da subjetividade se daria através da mediação de avatares ou interfaces gráficas que criariam a ilusão de experiências análogas ao mundo físico. Os capacetes de realidade virtual, data-gloves e a digitalização das sensações corporais estavam nesse projeto de “imersão” do Eu num mundo virtual. Filmes como “Show de Truman” e “Matrix” refletiram criticamente essa imaginário tecnognóstico da época: protagonistas aprisionados em mundos sem conseguir estabelecer a diferença entre o simulacro e a realidade.

No começo do século XXI temos o segundo estágio dessa agendatecnognóstica: a busca da última interface da história da tecnologia, a conexão entre o biológico e o eletrônico, entre as redes neuronais e redes computacionais. Se o projeto da arquitetura da Internet foi baseadana arquitetura neuronal do cérebro (descentralizada, fractal etc.), o destino das tecnologias digitais seria o de buscar o modelo de simulação mais perfeita da dinâmica de funcionamento da mente e da consciência, tão perfeita que o mapa coincidiria com o território e a simulação substituísse a própria base orgânica da consciência.

Filmes como “Vanilla Sky” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” tematizaram criticamente essa possibilidade ao mostrarem que por trás dessa aspiração tecnognóstica escondem-se projetos manipuladores comerciais. De outro lado, filmes como “A Origem” e “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton fazem a apologia dessa agenda.

Onde está a “alma”?

Se no século XVII o filósofo Descartes formulava essa pergunta (epígrafe que abre “Almas à Venda”, filme que tematiza criticamente essa agenda tecnognóstica), hoje a busca pela resposta a essa pergunta, onde a palavra “alma” é substituída pela por “consciência”, é levada às últimas consequências ao se procurar elaborar uma verdadeira psicocartografia ou um psicotopografia.

Mapas, cartografias e topografias de terras imaginárias não são novidades na história da cultura. Mapas como “The Pilgrim’s Progress” (veja figura acima) ou “Map of theVarious Paths of Life” (veja figura abaixo) do século XIX são alegorias de eventos simbólicos, metafísicos como as provações da fé de um peregrino ou os caminhos da vida do nascimento até a morte. Esses estranhos mapas antigos procuravam servir de guias pessoais para racionalizar e ajudar a entender fenômenos psicológicos e religiosos. Podem ser considerados os precursores de um projeto tecnocientífico iniciado pelo racionalismo de Descartes e que, na atualidade, desabrocha com as tecnologias computacionais.

O livro “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll pode ser considerado um exemplo desse espírito do tempo do século XIX onde a elaboração de cartografias de países imaginários pretendia fazer uma alegoria sobre o real. Assim como na alegoria da caverna de Platão (o mundo como um 

simulacro das formas perfeitas do mundo das Ideias), Carroll vai criar a alegoria de Wonderland para buscar as origens metafísicas do simulacro da realidade. A vida real de Alice na Inglaterra nada mais seria do que uma cópia distorcida ou empobrecida de Wonderland. Nessa terra imaginária os paradoxos, ironias, non sense e absurdos seriam mais explícitos do que no mundo real onde essa natureza última é escondida ou distorcida pelo racionalismo.

Já em “Alice in Wonderland” de Tim Burton, encontramos um novo tipo de alegoria, a tecnognóstica: Alice cruza o território de uma Wonderland que já não é mais a alegoria de Carroll. O trajeto feito por Alice é através de um mapa mental do autoconhecimento, a busca da verdadeira Alice e não mais uma reflexão metafísica da realidade. Seu interesse é instrumental: autoconhecimento e motivação para assumir os negócios do pai e ser uma corajosa empreendedora.

Wonderland de Tim Burton é o reflexo dessa agenda tecnognóstica: criar cartografias, modelos ou interfaces que visualizem os processos mentais como uma geografia da mente. Cada região (a ante-sala de entrada para Wonderland, o castelo da rainha vermelha, as montanhas que a envolve, o castelo da rainha branca localizado numa planície, o gigantesco tabuleiro de xadrez à beira do mar onde é realizada a batalha final etc.) é uma alegoria de processos mentais, psíquicos e cognitivos.

Por exemplo, o monstro Jaberwocky tem sua cabeça decepada no alto de um palácio em ruínas à beira do mar. É como se Alice deletasse seus medos, restrições e fantasmas que a impedem de ser a verdadeira Alice. É o anseio de todas as tecnologias do espírito (auto-ajuda, técnicas motivacionais): eliminar as limitações que impedem o desenvolvimento das potencialidades do Eu. Se Freud queria compreender processos psíquicos por meio de símbolos, com as alegorias criadas por mapas mentais é mais fácil: cortam-se as cabeças!

Wonderland não é mais um reino subterrâneo como imaginado por Carroll. Agora são memórias. Memórias que necessitam ser mapeadas, cartografadas, para que consigamos localizar as regiões onde habitam as memórias “ruins” (áreas trevosas, pântanos, palácios em ruínas – obras inacabadas que viraram entulhos – meandros encravados em montanhas de difícil acesso etc.), não para compreendê-las, mas para apagá-las, como no filme “Brilho Eterno…” onde a partir de uma interface gráfica computadorizada do cérebro, permitia rastrear as memórias ruins que deveriam ser deletadas para tornar os clientes mais leves, assertivos, sem culpas ou indecisões que atrapalhem o cumprimento das metas do Eu.

O Mapa de “O Prisioneiro”

 

Na série televisiva “O Prisioneiro” (The Prisoner, 2009), remake do canalnorte-americano AMC da série britânica Cult dos anos 1960, temos a emblemática criação de um mapa interativo da “Vila”. Resultado de uma tecnologia de controle social (“Social Engeneering”) levado a cabo pela empresa Summakor, “A Vila” é mais um desses lugares imaginários, uma cartografia da vida mental feita para “consertar pessoas quebradas”. A partir da indução por drogas pesadas, a Vila é a construção de uma “alucinação consensual” (definição que o escritor William Gibson deu para o ciberespaço) para onde são enviados os egos de pessoas disfuncionais à ordem social (paranoicas, violentas, deprimidas etc.). Lá vivem numa vila em tons pastéis dentro de uma rotina idílica, simples e inocente.

Um dos produtos dessa série é um mapa interativo no site da emissora AMC onde podemos fazer uma visita às diversas instituições e bairros da Vila – zonas proibidas e virtuosas (clique aqui para ver o mapa). Uma cartografia irônica da mente dos personagens da série, mas que, no fundo, é o reflexo dessa agenda tecnocientífica contemporânea.

“Existem mapas sobre qualquer lugar: cromossomos, galáxias, o cérebro, a célula, os espaços entre os átomos, das fendas na dupla hélice, das bordas do tempo. Se os mapas são convites para viagens, esses novos mapas inspiram jornadas completamente diferentes, de uma forma associativa. Ao mesmo tempo, permanecem conectados com a nossa geografia tradicional, tornando-se guias orientadores de processos. Eles fornecem para nós trilhas mais interiores, filosóficas e imaginativas”. (HALL, Stephen. “I, Mercator”, IN: HARMON, Catherine. You Are Here: Personal Geographies and Other Maps of the Imagination. New York: Princeton Architectural Press, 2004, p. 17.)

Como alegorias, os mapas possuem essa potencialidade neoplatônica ou gnóstica de empreender uma viagem filosófica ou imaginária, ao tomarmos a realidade de maneira invertida, como fez Lewis Carroll nas terras de Wonderland. Mas o projeto tecnognóstico é muito mais prático e instrumental: fazer o mapa coincidir com o território, ser um guia de processos, um painel de controles como ícones em um desktop. Ao clicá-los poderemos controlar processos mentais, psíquicos e cognitivos. No final, um projeto tecnocientífico de controle, management, engenharia social e psíquica.

         Esses filmes de início do século XXI expressariam essa agenda tecnognóstica cujo desenvolvimento começou décadas antes, desde os anos 1970, quando o movimento revisionista contra a psicanálise freudiana liderada por psicoterapeutas e filósofos começaram a questionar o freudismo de tolher a auto-expressividade individual, além de oferecer ferramentas para o controle social via Publicidade e Propaganda. É interessante traçarmos estes primórdios que serão a base dessa elaboração das cartografias e topografias mentais que, ironicamente, acabaram se tornando as principais ferramentas de engenharia de opinião pública como o neuromarketing e o reforço de um novo tipo de sujeito das novas redes tecnológicas digitais: o sujeito fractal. 

Topografia da Mente: retirando as camadas

Nos anos 1970 o psicoterapeuta norte-americano Werner Erhard criou os primeiros modelos psicológicos transformacionais para indivíduos, grupos e organizações, o “Curso de Treinamento Erhard”, baseado em técnicas de autoconhecimento cujo princípio era a retirada de camadas do Eu que impediam o desenvolvimento das potencialidades comunicacionais e profissionais. “Se você retirar todas as camadas você acaba descobrindo um núcleo, uma coisa naturalmente auto-expressiva . Isso seria o verdadeiro Eu” (BRY, 1976, p. 112).

Mais tarde essa mesma técnica é aplicada nas pesquisas de marketing da Universidade de Stanford nos anos 80 sobre Valores e Estilos de Vida (VALS) com métodos de perguntas sucessivas onde camadas de defesas, pensamento e crenças são retiradas para se chegar o núcleo do verdadeiro desejo do consumidor a ser agregado ao produto (BEATTY, HOMER & KAHLE, 1988).

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