Choque de civilizações? Não entre Roma e o Oriente distante, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Choque de civilizações? Não entre Roma e o Oriente distante

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Nós, ocidentais, nos sentimos muito ligados à herança política do Império Romano. Isto se deve em parte às obras de Nicolau Maquiavel, pois foi ele o primeiro pensador renascentista a delinear a política como uma disciplina autônoma, desligada da religião, fazendo referências constantes aos exemplos significativos e edificantes da História de Roma. 

“A história era para Maquiavel a grande mestra, a fonte mais segura de ensinamentos, pois o que ocorrera no passado tendia inevitavelmente, a seu ver, a repetir-se no presente e no futuro. Todas as coisas do mundo, em todos os tempos, dizia, encontram seu paralelo nos tempos antigos. O que resulta do fato de serem elas dirigidas pelos homens, que têm e sempre tiveram as mesmas paixões, de tal modo que nece3ssariamente os efeitos são sempre os mesmos. Tinha Maquiavel, como de resto seus contemporâneos, uma concepção ingênua e dogmática da história, a qual o levava a julgar esta última um repositório de exemplos universalmente válidos, ignorando o caráter particular da experiência histórica. Villari adverte que Maquiavel não abordou a história de Roma com espírito crítico, mas aceitou-a indiscriminadamente, sem fazer mesmo qualquer distinção entre fatos e a tradição lendária, sobretudo em torno à origem de Roma.

Estribado em semelhante supervalorização da experiência política da Roma clássica, e na convicção de sua permanente atualidade em vista da imutabilidade da natureza humana – era natural que Maquiavel concluísse pela inutilidade de se imaginar governos ideais que, nunca tendo existido, não tinham possibilidade de vir a existir. Ao político caberia antes aprofundar o conhecimento histórico da arte de governo, tal como a praticaram os grandes legisladores da Antiguidade, a fim de evitar a própria ruína e garantir a sobrevivência do Estado.” (Introdução ao pensamento político de Maquiavel, Lauro Escorel, FGV Editora, Rio de Janeiro, 2014, p.181/182)

À tradição renascentista de supervalorização da história política romana somou-se o eurocentrismo que, para valorizar o papel central da Europa durante o período colonial, descartou a experiência oriental romana para dar uma ênfase desmedida à presença romana em Portugal, Espanha, França, Alemanha e Inglaterra.

“Na era vitoriana, a história do Império Romano foi reescrita como uma realização europeia que ignorou a contribuição das civilizações orientais. O sucesso e a prosperidade de Roma passaram a ser uma história impulsionada pelo caráter que celebrava a engenhosidade européia. Essa história focava nas transações de uma elite aristocrática que incluía generais, políticos e imperadores. Não se deu mais importância aos mercadores de várias raças que regateavam em bazares longínquos. Roma e sua cultura se tornaram a justificativa para a hegemonia européia e as doutrinas ensinadas nas instituições educacionais promoveram e abrigaram estas visões sociais através das gerações subseqüentes.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLoughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 233/234)

O ápice da deformação histórica iniciada por Maquiavel e aprofundada pelos autores europeus dos séculos XVIII e XIX, porém, somente ocorreria quando da invenção da ideologia do “choque de civilizações” por Samuel P. Huntington. Segundo esse obscurantista autor norte-americano desde a Antiguidade clássica o ocidente está em conflito com as civilizações orientais. As linhas que demarcaram este conflito ainda podem ser vistas na atualidade.

Todavia, uma nova hipótese para a História de Roma foi formulada por Raoul MacLaughlin. Na obra Roma e o Oriente Distante, fazendo referências a documentos e inscrições romanos, gregos, hindus, palmirenses, chineses, etc… o pesquisador irlandês reconstruiu a rede de relações comerciais que possibilitaram ao Império Romano se tornar mais rico do que nunca durante o século I depois de Cristo.

O apogeu da Roma orientalizada se deu após o fim da guerra civil entre Otaviano e Marco Antonio.

“Com a derrota de Cleópatra e a captura de Alexandria, o Egito finalmente se tornou uma província romana. Otaviano se fixou como primero imperador de Roma e adotou o  nome ‘Augusto’.  Desde o início de seu reinado, Augusto tinha planos importantes para o Egito. Usando o exército romano como mão de obra maciça, o novo regime rapidamente reparou os canais de irrigação e a infraestrutura de transportes, restaurando assim a essencial economia agrícola que os ptolomaicos tinham deixado em mau estado. Ao se basear na administração ptolomaica, os romanos puderam criar um substancial sistema burocrático no Egito, que lidava com a logística da produção de grãos e seu subseqüente transporte. Os resultados foram notáveis e Josefo sugere que, por volta de meados do século I d.C., a província supria a cidade de Roma com cerca de 1/3 de sua necessidade anual de grãos.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 48)

O Egito permitiu aos romanos comerciar ao longo do Mar Vermelho atingindo, depois, a Índia.

“Sob domínio romano, os portos de Myos Hornos e Berenice se tornaram os mais importantes do Mar Vermelho no comércio oriental. As viagens de Coptos a essas cidades  eram feitas de camelo, levando mercadorias e suprimentos ao longo das agitadas rotas do deserto. Myos Hornos estava a cerca de 180 Km de Coptos e a viagem durava entre seis e sete dias. O porto de Berenice estava mais ao sul, na ponta do território romano e a travessia do deserto era mais longa, sendo necessários cerca de 12 dias para percorrer os 370 Km até ele. Os mercadores romanos que voltavam do Oriente distante seguiam as mesmas rotas comerciais, cruzando o deserto oriental, e em Coptos, transportando as mercadorias trazidas do Oriente em barcaças , seguiam para o norte, por rio, até Alexandria e o Mediterrâneo.”  (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 52)

O controle do Egito permitiu aos romanos comerciar mais intensamente com os nabateus e com os reinos Axumita, Himiarita, Hadramaute e de Palmira. Após auferir lucros percorrer a trilha do incenso, os romanos finalmente começaram a comerciar com a Índia. 

“Quando Plínio escreveu seu detalhado relato desses novos contatos com as caravanas, a Nabateia ainda era um reino satélite do Império Romano. No entanto, quando o rei nabateu morreu, o governo romano decidiu subjugar inteiramente seu reino e, em 106 d.C., o imperador Trajano fixou a Nabateia como província romana. Esse fato estimulou maiores contatos comerciais entre Egito e Nabateia. Um ano depois da anexação, um soldado estacionado na Nabateia, informou como os mercadores chegavam todos os dias de Pelúsio, no Baixo Egito. Nesse período, nomes nabateus também começaram a aparecer em grafites nas rochas das rotas de caravanas que cruzavam o deserto oriental do Egito.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 109)

“Durante toda viagem para a Índia, os navios mercantes romanos procuravam permanecer juntos, navegando dentro de um campo de visão mútuo em pequenas frotas. Assim, podiam dar apoio uns aos outros para repelir piratas costeiros quando passavam pelos golfos. Em alto-mar, a proximidade era necessário, caso algum navio do grupo se danificasse a centenas de quilômetros da costa. Se o mastro de um navio em navegação solitária se partisse com o vento, ou se seu casco rompesse com o bater das ondas, a tripulação teria poucas chances de sobrevivência.

A navegação costeira pelo golfo de Aden devia ser uma viagem tranquila de três semanas, mas a travessia para a Índia significava mais de duas semanas em mar aberto viajando a velocidades que se aproximavam dos 6 nós.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 66)

Na Índia, chamados de Yavanas pelos tâmeis, os romanos comerciaram intensamente com os povos do território que os gregos chamavam Indo-Cítia, com os reinos Saka, Satavahana, Chera, Pandya, Chola. Os romanos também paravam nos portos tâmeis.

“Navios romanos rumo aos portos no noroeste da Índia podiam continuar para o sul a fim de alcançar os distantes territórios tâmeis. Plínio deu indícios de que uma viagem ao longo da costa ocidental da Índia podia levar até 40 dias e noites, mas os navios que visitavam Barygaza e Kalliena provavelmente levavam mais tempo percorrendo a faixa de costa de 2 mil Km do Indo até as terras tâmeis. Muitos navios romanos também navegavam diretamente do golfo de Aden para o sul da Índia, evitando os perigos da navegação e os conflitos regionais que afligiam a zona costeira do norte.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 73)

A seda chinesa começou a chegar a Roma através das ligações comerciais entre romanos e palmirenhos e entre estes e os pártios e chineses. Não só isto, produtos chineses começaram a ser retrabalhados em oficinas romanas e reexportados com lucro para os mercados da Ásia Central.

“Muitos dos artigos que chegavam do território romano na verdade eram mercadorias orientais que haviam sido reprocessados em oficinas romanas. Mercadores do império reexportavam esses produtos ao Oriente através da Mesopotâmia. Um exemplo é a seda chinesa que era transformada em oficinas romanas em um tecido mais fino, semelhante à gaze, antes de ser reenviada para os mercados da Mesopotâmia. O Weilue reuniu relatórios chineses posteriores sobre Roma e oferece uma lista mais longa de produtos romanos na Ásia Central. Estão relacionados 63 produtos, inclusive artigos da Índia e da Arábia que os mercadores romanos reexportavam por intermédio de rotas terrestres.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 142)

O conflito entre Roma e Pártia (que ficava entre o Império Romano e o Império Chinês, bloqueando contatos diretos entre romanos e chineses) não chegou a atrapalhar o comércio oriental romano.

“Um membro importante da família imperial, chamado Germânico, usava agentes palmirenhos em suas negociações orientais com os reis vassalos da Pártia. Em 18 d.C., Germânico recebeu o comando militar das províncias orientais do Império Romano e a tarefa de reorganizar esses territórios fronteiriços. Ele concedeu reconhecimento imperial aos monarcas da Armênia e reduziu os pequenos reinos da Capadócia e Commagene à condição de províncias romanas. Também estabeleceu contato com uma série de reinos vassalos da Pártia. Um de seus agentes nessas tratativas diplomáticas foi um palmirenho chamado Alexandros, provavelmente um mercador com contatos preexistentes e de alto nível nesses reinos. Uma inscrição de Palmira celebra uma importante missão diplomática conduzida por Alexandros.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 165)

Segundo o autor de Roma e o Oriente Distante, documentos chineses comprovam que um embaixador chinês foi enviado ao Império Romano por volta de 70 d.C., mas a missão fracassou. Gan Ying, o enviado de Ban Chao, nunca chegou a formalizar relações diplomáticos com os Da Qin (como os romanos são chamados no Weilue) tendo desistido da viagem quando chegou ao Reino de Mesena, no golfo Pérsico. Um contato formal entre o Império Romano e o Império Chinês parece ter ocorrido durante o governo do imperador Marco Aurélio Antonino (161 d.C. a 180 d.C.), mas ele ocorreu no momento em que o comércio oriental já estava declinando por causa da Peste Antonina.

“À medida que a Peste Antonina varria o Mundo Antigo, as relações políticas de Roma com o Oriente distante eram prejudicadas. Os acadêmicos se referem à característica humana para atribuir às comunidades estrangeiras a responsabilidade pela origem de doenças novas e virulentas. Portanto, é interessante que as fontes tâmeis mencionem ataques sistemáticos aos barcos romanos durante essa época, com o rei Chera, Netunceralatan, capturando cargas e tomando súditos romanos como reféns.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 182)

Apesar de lucrativo, o comércio oriental parece ter sido fonte de preocupação entre os romanos, especialmente entre os moralistas.

“As mulheres romanas respeitáveis, pertencentes às famílias abastadas, deviam ocultar-se sob camadas de roupas tradicionais feitas de linho ou algodão. Contudo, a moda dos tecidos de seda se espalhou entre as classes mais respeitáveis. Logo, porções consideráveis da população os estavam usando, pois eram confortáveis e elegantes. O uso de sedas semitransparentes deu às mulheres respeitáveis a oportunidade de exibir suas silhuetas, embora ainda vestissem trajes de corte tradicionais. A roupa de seda foi logo identificada com a sedução feminina. As romanas ricas também criaram o desejo por acessórios de estilo, como sombrinhas de seda coloridas. A seda retrabalhada absorvia tinturas naturais, criando cores vibrantes que reagiam à luz solar e produziam tons profundos e luminosos de anil, escarlate e ocre.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 198)

“Não demorou para que as togas e túnicas de linho branco trouxessem faixas doloridas e debruns de seda delicada. Essa moda era encarada com desconfiança pelos romanos tradicionais e em 16 d.C. o Senado romano aprovou uma lei restringindo o uso da seda entre a nobreza masculina. Essa medida foi parcialmente uma tentativa de reduzir o exibicionismo na política senatorial, mas também tinha apelo entre aqueles que criticavam o caráter ‘feminístico’ dos novos tecidos.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 199)

O século I d.C., considerado a Idade de Ouro de Roma, não foi produzido pelo brilhantismo político dos imperadores romanos (como presumiu Nicolau Maquiavel), nem tampouco resultou da anexação da Gália e da Espanha (como sugeriram os autores eurocentistras dos séculos XVIII e XIX). O que enriqueceu Roma foi a audácia, a perseverança e a astúcia dos mercadores romanos que exportavam produtos do Império (vinho, coral, etc…) e importavam produtos orientais (mirra, pimenta, seda, etc…), abastecendo os mercados de Roma e garantindo uma crescente renda tributária decorrente do intenso fluxo comercial.

“Antonino foi o último imperador romano dessa era a receber o reconhecimento dos reinos hindus. O reinado de Marco Aurélio foi uma época traumática para o império, com a incidência da Peste Antonina e o início de prolongadas guerras contra tribos germânicas hostis que ameaçavam as fronteiras setentrionais. Na época seguinte, Roma perdeu muito de seu prestígio internacional e como guerras civis se repetiam dentro de territórios romanos os imperadores davam menos atenção a questões políticas distantes. A política do governo passou a ser mais uma questão de sobrevivência pessoal em um ambiente mais violento e incerto, enquanto os assuntos do Oriente distante simplesmente caíram no esquecimento.” (Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo, 2012, p. 177)

Analisando farta documentação histórica, Raoul MacLaughlin conseguiu desfazer o mito do “conflito de civilizações” inventado por Samuel P. Huntington. A grandeza de Roma não deve ser medida pelas guerras travadas no Oriente, mas sim pelas relações comerciais pacíficas e lucrativas que foram travadas entre os romanos e os povos orientais. Interrompido pelo desastre da Peste Antonina, a retomada do comércio oriental impulsionou as navegações portuguesas que resultaram na colonização do Brasil. Nós brasileiros somos, portanto, os frutos tardios da tradição Yavana ou Da Qin de privilegiar o comércio ao conflito com o Oriente distante.   

 

PS: A foto que ilustra este texto se encontra na página 146 do livro Roma e o Oriente Distante, Raoul MacLaughlin, Rosari, São Paulo.

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3 Comentários

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Maria Luisa

- 2017-09-20 08:14:39

O Fabio muito bom seu artigo.

O Fabio muito bom seu artigo. Que bom que compartilha conosco. Rapidamente, lembrei durante a leitura do texto de que Roma viveu grande explendor e também grande queda e que até os dias de hoje vive-se o doce sonho de voltar um dia a ser a grande Roma que dominou parte do mundo em um passado longinquo. Eh algo a refletir para aqueles que pensam que serão sempre dominadores... 

Saudações.

Fábio de Oliveira Ribeiro

- 2017-09-19 20:20:24

Bem lembrado. Eu já publiquei

Bem lembrado. Eu já publiquei aqui mesmo no GGN a resenha do livro que você mencionou.

Paulo F.

- 2017-09-19 19:23:43

O “conflito de civilizações”

O “conflito de civilizações” engendrado  por Samuel P. Huntington tem na obra de Edward Said, em especial "Orientalism" de 1978 um contraponto fundamental. Ou seja o Oriente é o que Ocidente enxerga , distorcido , no espelho!

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