A experiência da Casa de Cinema

Por Jorge Furtado

Alô Nassif

Estou na corrida por aqui, entrando em produção e sem muito tempo para escrever, mas sou leitor diário do blog e, convocado, dou alguns palpites.

O cinema brasileiro e latino-americano está melhorando, eu acho, mas para uma discussão estética, pura subjetividade, o tempo e o espaço são curtos. O certo é que há muitos bons filmes, de vários gêneros. Foi-se o tempo em que todos eram parecidos, destinados a um público reduzido que via filmes brasileiros enquanto a imensa maioria ignorava completamente a sua existência. (Exceções: os filmes diretamente ligados à televisão – Trapalhões, Xuxa – ou ao rádio – chanchadas da Atlântida – e as pornochanchadas.)

A maior dificuldade hoje é convencer o público a ver os filmes nas salas. A média de espectadores por filme, excluindo-se três ou quatro lançamentos de sucesso por ano, é baixíssima. Esta dificuldade tem, acredito, muitas causas.

Estamos produzindo cerca de 80 filmes por ano. Considere que menos de 10% da população vai ao cinema (pelo menos uma vez por ano) e que os lançamentos estrangeiros são muito, poderosos, milionários, enfim, tudo o que já se sabe. O ingresso é caro, média de 5 dólares. Quando Dona Flor fez mais de 12 milhões de espectadores o ingresso custava 50 centavos de dólar, dez vezes menos.

Além da briga desigual de mercado, a dificuldade para encontrar um público também tem raiz nos filmes: se o público não se interessou por eles é bom ao menos considerar a hipótese de que eles sejam mesmo desinteressantes, em grande parte destinados ao restrito público dos festivais (um por dia, um por semana só na França) e pré-estréias. Filmes com menos de 50 mil espectadores, não importa quão barato tenham custado, não pagam nem as cópias e cartazes de seu lançamento nas salas.

Sobre o público dos filmes, vão por mim: não acreditem em números citados em entrevistas. Visite o site da Ancine, vale o que está lá, o resto é chute.
http://www.ancine.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=3010&sid=804

Exibidores se queixam, com bastante razão, que os cineastas, que têm sua produção bancada por subsídios, não se preocupam se o filme terá público ou não. Eles, exibidores, precisam de salas cheias para pagar salários e a conta da luz.

Em tempo: acho fundamental o subsídio (via isenção de impostos, com dinheiro destinado através de concursos públicos e rigorosa fiscalização de seu uso) para a produção dos filmes. Quase todas as cinematografias do mundo desapareceriam sem os subsídios (França, Inglaterra, Alemanha, Espanha…). Possíveis exceções: Estados Unidos e Índia. Leio frequentemente nos jornais opiniões exaltadas contra as isenções fiscais para a produção de cinema. Esquecem, os jornais, de dizer que eles desapareceriam imediatamente sem as suas gigantescas isenções fiscais (imposto de renda, papel, etc…) e sua reserva de mercado (os proprietários de jornais tem que ser brasileiros).

Há um mercado crescente para a produção audiovisual, longe dos circuitos das salas, internet, tevê, dvds, mas a remuneração ao produtor ainda é baixa.

Os filmes que passam na televisão acabam chegando ao grande público, o que é bom, e outros lançamentos podem ser vistos em dvd ou na internet, mas a produção de cinema, para ser exibido nas salas, como nós a conhecemos, está numa sinuca de bico.

Qual a saída? Não tenho a mínima idéia. De minha parte, voltar ao serviço e tentar, como sempre, fazer o melhor possível.

E parabéns pelo blog.

Abraço

Jorge Furtado

xx

Sobre a Casa de Cinema de Porto Alegre, visite o nosso site: http://www.casacinepoa.com.br

Aqui vai parte do texto de apresentação:

Breve histórico da Casa

A Casa de Cinema de Porto Alegre foi criada em dezembro de 1987, por um grupo de cineastas gaúchos que já trabalhavam em conjunto desde o início dos anos 80.

Em sua primeira fase, a Casa foi uma cooperativa de 11 realizadores, reunidos em 4 pequenas produtoras, que passaram a ter um espaço comum para trabalhar a distribuição dos filmes já realizados e o planejamento e realização dos próximos projetos.

A Casa

A partir de 1991, a Casa de Cinema de Porto Alegre se tornou uma produtora independente, com 6 sócios, permanecendo o espírito cooperativo e a intenção de continuar contribuindo para a difusão dos filmes produzidos pelo grupo original.

Em seus quase 20 anos de existência, a Casa produziu dezenas de filmes e vídeos, mas também programas de televisão (especiais e séries), cursos de roteiro e de introdução à realização cinematográfica, fórums de debates e programas eleitorais para TV.

A Casa

Entre nossos parceiros e clientes estão emisssoras de televisão como as brasileiras TV Globo e RBS TV, o Chanell 4 inglês e a ZDF alemã, as Fundações Rockefeller e MacArthur, as distribuidoras Columbia e Fox, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido Socialista Brasileiro (PSB).

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