O Hitchkock dos filmes B

Nada melhor hoje, dia da entrega do Oscar, do que lembrarmos de uma das grandes figuras do cinema mundial.  Ele jamais ganhou um Oscar, mas talvez tenha sido o primeiro cineasta a colocar o público interagindo efetivamente com seus filmes, muito além da atual tecnologia 3D ou IMAX.

William Castle (1914-1977), O Hitchkock dos filmes B.

Produtor e diretor americano, conhecido como o “Hollywood Shock King,”  mestre dos truques de publicidade no cinema,  mais conhecidos como “gimmicks”.
Para cada filme dele, um truque. Em Força Diabólica, usou uma campainha debaixo das poltronas, para “acordar” o público nos momentos de maior emoção. Em 13 Fantasmas, distribuiu óculos especiais, que permitiam ao espectador ver os fantasmas. Em Trama Diabólica, havia um intervalo de 45 segundos para permitir que os espectadores mais nervosos pudessem deixar o cinema. EmA Casa dos Maus Espíritos, ele inventou o processo Emergo (no clímax, vários esqueletos de verdade atravessavam o cinema). Nascido em Nova York, começou como ator juvenil na Broadway, foi diretor de cena, indo para Hollywood a chamado de Harry Cohn. Depois de um começo modesto, criou uma certa fama (há até hoje vários fã-clubes dedicados a Castle) com sua própria produtora (a partir de 1955).  No fim da vida, curiosamente,  acabou sendo o produtor de um dos maiores clássicos do cinema, O Bebê de Rosemary, de Polanski (1969) , além de Os Amotinados do Presídio, de Kulik, além de produzir para a TV (séries Meet the McGraw e The Ghost Story em 1972), Castle costumava também fazer pequenos papéis e aparições em seus filmes, a maneira de Hitchcock. Trabalhou como ator (uma ponta) em Shampoo (de Ashby) e O Dia do Gafanhoto (de Schlesinger). No final dos anos 90, os direitos de seus filmes mais famosos foram adquiridos por fãs do gênero terror (entre eles Robert Zemeckis e Joel Silver) que passaram a refazê-los em versões pioradas (A Casa Da Colina/House on Haunted Hill, de William Malone, 1999; 13 Fantasmas/Thir13en Ghosts, de Steve Beck, 2001)

WILLIAM CASTLE, por Rubens Ewald Filho

Não se esqueçam de que o cinema surgiu como diversão de circo, era uma das atrações das feiras populares que percorriam o interior, parque de diversões. Lá, tinham as maquininhas de Nickelodeon, nas quais você podia ver os primeiros filmes de Thomas Alva Edison.
Essa origem popular explica porque o cinema vive de truques, brincadeiras, mentiras, se preferirem. Como no circo, promete-se maravilhas que nem sempre são verdadeiras. Nem tanto hoje, quando as plateias já estão mais sofisticadas, mas durante todo o século 20. E o mais engraçado é que as pessoas gostavam de ser enganadas, não se incomodavam em ver fraudes no lugar da mulher barbada, o homem mais forte do mundo e assim por diante.

Castle era um cara assim, que não tinha medo ou vergonha de aparecer e se promover , um pouco como Hitchcock – a quem imitava descaradamente. Viajava pelo interior prometendo emoções nunca vistas em seus filmes, que não passavam de produções baratas, sempre com algum truque.

Deixe-me confessar que também sempre fui fã de Mr. Castle. Seus filmes passaram todos pela televisão, mas antes disso, quando eu era criança e adolescente, passavam nos cinemas e provocavam a maior repercussão. Acho que o maior deles foi Homicidal/Trama Diabólica, em que o gimmick era um pouco antes da revelação de quem era a assassina: apareciam os ponteiros do relógio, contando um minuto para quem quisesse sair do cinema, por que iria ser muito chocante. E, na verdade, o filme tem uma das resoluções mais bizarras que já vi, meio no estilo Psicose e de que não quero revelar muito mais. Mas foi um escândalo na época, ainda mais naqueles tempos puritanos.

Outro que nunca esqueci foi A Casa dos Maus Espíritos (já tentaram refilmar este e alguns outros, mas sem a mesma graça). Acontece que num determinado momento, ao lado da tela, saía um esqueleto que passeava por cima da plateia. Era um banal esqueleto, mas completamente fora do costumeiro (acho que este foi um dos poucos truques que o exibidor brasileiro ousou importar: se não provocou medo, me fez rir muito e, naturalmente, foi inesquecível).

Nunca cheguei a ver nas salas Tingler/Força Diabólica, com Vincent Price, em que o gimmick era colocar em alguns cadeiras selecionadas na plateia, uma espécie de campainha que fazia ela tremer em determinadas horas! O Tingler era um monstro que atacava as pessoas, mas bastava gritar que ele fugia (aliás, era ridículo!).

Esses filmes poderiam estar entre os piores de todos os tempos. Talvez. Mas eu gostava muito, não era para ser levado a sério, era para ver em turma (de adolescentes) e se divertir.

Almas Mortas tem Joan Crawford no momento mais baixo de sua carreira (nem tanto, depois ela ainda faria Trog!) com uma peruca patética e matando gente a machadadas. Também é bem interessante Mr Sardonicus, que é sobre um homem de rosto deformado. Enfim, não é o filme em si, mas como foram vendidos: uma verdadeira aula de marketing. (Castle, já no fim da vida, seria também o produtor de O Bebê de Rosemary, de Polanski). A Amazon está vendendo o boxe por US$ 59.99 dólares (cerca de R$ 120) e alguns dos filmes chegaram a sair em DVD aqui, mas faz tempo. De qualquer forma, guardem o nome. Castle é a prova de que nem sempre cinema é para se levar a sério.

Segue abaixo a apresentação de Castle para o “ultra-mega-clássico do horror” The Tingler, em que o público era convidado a soltar a voz para se defender do monstro,,,

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome