Os homens cuja casa é seu sapato


TERRA MAGAZINE
Terça, 22 de fevereiro de 2011, 08h17″Minha casa é meu sapato”DivulgaçãoDocumentário  O Samba que Mora em Mim  retrata os moradores do Morro da MangueiraDocumentário O Samba que Mora em Mim retrata os moradores do Morro da Mangueira

Rui Daher
De São Paulo

 

Destaque do excelente documentário “O Samba que Mora em Mim” (Geórgia Guerra-Peixe, 2010), em cartaz em São Paulo, o morador do Morro da Mangueira, Cosme, quando perguntado, afirma morar em seus sapatos.

Sem residência fixa, resposta desconfortável se oferecida a autoridades, Cosme desliza com sua “casa” no sobe e desce do morro, sorrindo e acenando para a comunidade que o reconhece e responde.

Não parece ser diferente a situação de grande parte dos cortadores de cana-de-açúcar do estado de São Paulo.

Vindos do Vale do Jequitinhonha (norte de Minas Gerais) ou de várias regiões do Nordeste, esses trabalhadores são contratados por tempo determinado, retornam aos seus locais de origem logo após a safra, e voltam aos canaviais paulistas na nova colheita.

É a esse vaivém incessante que a professora Maria Aparecida de Moraes Silva, das UNESP e UFSCar, em artigo para a “Folha de São Paulo”, de 20/02/2011, dá o nome de “migração permanentemente temporária”. Algo assim como morar em sapatos. Alpercatas, talvez.

O que faz um brasileiro sair de pequenas cidades nordestinas para procurar trabalho em Guariba, Pradópolis, Ribeirão Preto, e outras ricas cidades da Mogiana paulista?

A explicação histórica não é novidade e pode ser encontrada na persistência de um modelo de desenvolvimento que nunca priorizou a distribuição de renda ou dignificou o trabalho agrário familiar, causa para um século de migração selvagem no sentido norte-sul.

A explicação do cotidiano é mais simples: apesar do trabalho duro, um salário mensal de mil reais, inatingível em seus rincões de partida.

As repercussões da chegada de milhares de migrantes, todos os anos, para o corte da cana são incômodas para as cidades importadoras de mão de obra. Postos de saúde repletos, falta de infraestrutura para suportar aumentos de até 50% no número de habitantes, ausência de vagas em creches municipais, ocupação de moradias precárias em áreas urbanas.

A região do Brasil já considerada uma Califórnia por sua riqueza, nessas ocasiões, sofre como se a sua matriz norte-americana estivesse lidando com uma invasão mexicana. Ou como sofrem hoje as elites urbanas descontentes com o afluxo da “nova classe média” aos aeroportos.

Mas tudo o que é ruim pode piorar, certo? Ainda que isso dependa do lado em que estamos do balcão.

Muito em breve, moradores do Piauí, do Maranhão, e de outros estados nordestinos, ou do norte de Minas Gerais, terão muita dificuldade para conseguir seus mil reais por mês cortando cana. Para o bem do ambiente, prevê-se para 2014 a extinção das queimadas da palha da cana.

Com isso – processo que já vem ocorrendo – aumentará a mecanização em detrimento do número de vagas de trabalho. Segundo produtores da região, na proporção de quase 100 empregos para cada máquina.

De outro lado, a Califórnia brasileira estará refeita e em paz.

Em 25 de junho de 2009, foi assinado o “Compromisso Nacional para aperfeiçoar as condições de trabalho na cana-de-açúcar”. Sete ministros presentes. Entre eles, a ex-ministra da Casa Civil e atual presidente da República, Dilma Rousseff. Também lá, os presidentes da FERAESP (Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo), da CONTAG (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), e da UNICA (União da Agroindústria Canavieira).

Entre as várias cláusulas do Compromisso, uma pequena pérola sobressai: “adotar, orientar e difundir a prática da ginástica laboral nas atividades manuais de plantio e corte da cana-de-açúcar”.

Paro por aqui. E faço dos meus sapatos a minha casa.

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