A casa do meu avô

Leio no “Globo” de hoje uma relação de críticos falando do seu clássico desconhecido. A historiadora Isabel Lustosa indicou “A História da Caricatura no Brasil”, de Herman Lima.

É um de meus livros prediletos. Em parte por sua qualidade. Ganhei de presente em 1970, quando foi lançado, e ajudou em um trabalho sobre caricatura para um trabalho de primeiro ano na Escola de Comunicações e Artes da USP, que eu cursava. Mas a lembrança maior era o fato de me ter sido presenteada por meu avô Issa, meu tipo inesquecível.

Vô Issa era de segunda geração de brasileiros do seu ramo familiar, descendente dos sírio-libaneses que foram para a região de Poços de Caldas no final do século 19. Saiu de São Sebastião da Grama na Revolução de 32, e veio dar em Poços onde, inicialmente, trabalhou com um comerciante de secos e molhados. Depois, montou seu próprio armazém, a Casa Rocha, e poderia ter se tornado um grande comerciante local, não fosse uma febre tifóide que o prostrou por alguns meses.

Vendeu a Casa Rocha e montou o Bar Serigy, que os inimigos políticos chamavam de “O Caldeirão do Diabo”. Em pouco tempo tornou-se um udenista de quatro costados, grande amigo de Juarez Távora, que desde os anos 30 já freqüentava a estância.

Mais tarde, aproximou-se de Carlos Lacerda. Tornaram-se amigos e correligionários. Pelas mãos do vô Issa, o futuro jornalista Luiz Fernando Mercadante entrou para a política, ainda interno do Colégio Marista de Poços. Depois, muito novo, casou-se com minha tia Zélia, mais nova ainda. O casamento foi um evento político que contou como padrinhos do noivo Lacerda e dona Letícia, e da noiva o casal Bilac Pinto.

Em uma das visitas à casa do vovô, Lacerda foi presenteado pela vó Martha com o Salmo 90, escrito com sua letrinha e plastificado, para protegê-lo dos inimigos. Quando sofreu o atentado da Rua Toneleros, o primeiro impulso de Lacerda foi ligar para vovó, e atribuir ao Salmo 90 o fato de ter sobrevivido ao atentado.

O país era pequeno na época, pequeníssimo. Do lado de dentro do balcão do bar, vô Issa tinha a senhoridade de um senador da República, recebendo seus freguêses, políticos locais ou personalidades nacionais que freqüentavam Poços, como Juarez Távora.

Me senti o mais importante dos meninos quando escrevi umas quadrinhas saudando a vitória de Jânio sobre Juracy na convenção da UDN de 1958 ou 1959. Tinha 8 ou 9 anos. Vô Issa distribuiu o poema para seus correligionários e, depois, me apresentou para Juarez como um “pequeno udenista”.

Depois meu avô precisou mudar-se para São Paulo, indo trabalhar como sócio de meu tio João em um escritório de contabilidade na Vila Maria. Entrou em uma nova realidade, em um novo mundo. Sempre que ia a São Paulo e saía com ele pelas ruas da Vila Maria, dava gosto ver os vendedores de lojas, donos de bares, transeuntes cumprimentarem o “seu” Issa. Com exceção de meu pai e de seu círculo de amigos, nunca conheci pessoa mais charmosa e agradável que o vô Issa.

Depois fui crescendo, mudando de pensamento político. Mas, nas crises constantes que tinha com meu pai, meu arrimo era meu avô. E eram dele os presentes inesquecíveis que ganhei, o jogo de canetas Shaffers quando me formei no ginásio, o gravador quando, em um dos desafogos financeiros da família, meu pai comprou um aparelho de som Phillips para minha irmã Regina (que, pequenina já era seu braço direito na farmácia) e recusou-se a me presentear com o gravador.

Quando entrei na adolescência, nossas idéias políticas já não batiam. Eu não era mais o “Lacerdinha”, como me chamavam os colegas. Uma vez em que ele foi para Poços, eu, com 17 anos, meti-me numa discussão política aguerrida com ele. Quando senti que poderia haver impasse, contive meu ímpeto guerreiro e recuei. Ele percebeu, e me olhou com os olhos carinhosos de avô.

Quando passei no vestibular, fui para São Paulo e fiquei o primeiro ano em sua casa, dormindo na sala. Ele me esperava toda noite chegar do trabalho ou da faculdade, para conversarmos sobre Poços e sobre política. Nos fins de semana, depois do almoço, subia para seu quarto, deitava na cama com ele. Vovô buscava então seus arquivos e contava histórias daqueles tempos que pareciam tão distantes. Em apenas uma década e pouco o país tinha se transformado de maneira incrível. Não era mais a pequena república em que os dirigentes da UDN se locomoviam até Poços para visitar o seu Issa, quando ele adoecia.

Uma noite vô Issa veio me perguntar se não estava precisando de nada para a faculdade. Eu ainda não havia começado a trabalhar e a mesada era pequena. Disse-lhe que não. Ficou especulando, especulando, até que mencionei a coleção do Herman Lima. No dia seguinte ele foi comigo de ônibus até a rua Direita (ou seria 24 de Maio?), na Livraria Brasiliense. Lá comprou a coleção em 3 ou 4 vezes.

Não fosse apenas pela qualidade, não tenho razão em considerá-la meu livro inesquecível?

Para incluir na lista Crônica Semanal

PS – O nome da crônica é em homenagem ao livro autobiográfico da maior paixão política de vô Issa, Carlos Lacerda.

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