Carta à filha que se casa

Maricotinha,

como você já ouviu mil vezes, um dia tia Clélia procurou a vó Tê contando-lhe de um sonho. Dr. Bié, tio de sua avó, que ajudara a tratar de um reumatismo infeccioso na infância, lhe dissera que estava a caminho uma criança para nós, Ica e eu. O detalhe é que Dr Bié morrera em 1970, em um acidente de trânsito. Era 1979 e o recado viera por sonho.

Tia Clélia pedia autorização para nos procurar. Vó Tê não aceitou. Quando dormiu, das sombras esplendorosas das Gerais veio a ajuda. Em sonhos lhe apareceu vó Mariquinha, a figura reverencial da família, mãe de minha vó Martha, que literalmente lhe passou um sabão. Criticou seu preconceito, informou-lhe com todas as letras que pais são os que criam. Dona Teresa acordou mudada.

A primeira tentativa não deu certo. A segunda, sim, e me proporcionou a maior emoção da minha vida. Saímos de São Paulo de noite. De manhã, você foi retirada do hospital. A primeira vez que a vi foi já na casa da Lene, onde dormimos.

Por mais que passem os tempos e se recriem as lembranças, não haverá emoção maior do que a senti naquele momento, vendo-a recém-nascida de testa franzida, invocada, me olhando brava. Na minha frente estava uma relação para o resto da vida, a menininha que estaria sob minha inteira responsabilidade, depois de uma vida adulta em que sempre assumira responsabilidade de terceiros.

Os anos seguintes foram alguns dos mais felizes da minha vida. Fomos morar em um apartamento da Rua Abílio Soares que virou espécie de gueto mineiro. Moravam lá meus pais, logo depois foram morar meus sogros, no bloco ao lado morava o Zé Grandão.

Era 1979, com 29 anos fui para o Jornal da Tarde e comecei a trabalhar pesadamente. Ia de manhã, ficava até o final do dia. Voltava para casa ouvindo no carro a música de Vinicius, cantada por Chico Buarque,

“É comum a gente sonhar, eu sei / Quando vem o entardecer / Pois eu também dei de sonhar / Um sonho lindo de morrer. / Vejo um berço e nele eu me debruçar / Com o pranto a me correr. / E assim chorando acalentar / O filho que eu quero ter. / Dorme meu pequenininho, / Dorme que a noite já vem. / Teu pai está muito sozinho / De tanto amor que ele tem”.

e me enternecia até às lágrimas pensando em você.

Quando a encontrava dormindo, parava na beira do berço, segurava suas mãozinhas e era tomada de emoção profunda. A mesma emoção, aliás, que sentia a Fátima, sua tia, quando a encontrava. E que passou a sentir dona Teresa. E todos passamos a pressentir que havia uma espécie de reencontro que a razão não explicava, mas que a emoção sugeria.

Sua relação com sua avó foi um dos episódios mais marcantes daqueles tempos. Dona Teresa já alquebrada pela doença, ficava sentada em seu sofá, fazendo tricô. Você descia até seu andar e ficava falando que nem uma maritaca no seu ouvido. E vó Tê se encantava com sua prosa, com suas tiradas, com a maneira exuberante com que demonstrava sua alegria, gritando.

Foram alguns anos de rotina maravilhosa, até para mim que não gosto de rotinas. Chegava em casa, sua mãe saía para lecionar. Ficava com você, jantava, depois trocava sua fralda e a colocava para dormir. Você só conseguia dormir se eu segurasse seu pé. Era a maneira de assegurar que eu estaria por perto até dormir. Quando sua mãe chegava, você, pequena, me dedava quando colocava a fralda ao contrário.

Ah, Maricotinha, quantas emoções me deu. Com sua vinda, rompeu-se a pesada couraça que me impus quando comecei a enfrentar a vida. Você era minha responsabilidade, meu afeto, mais que isso, minha paixão. Depois veio o nosso encanto, a Luizinha, duas irmãzinhas, uma complementando a outra, muito antes que chegassem nossas menininhas.

Acompanhei cada passo do seu crescimento, captando cada nuance, cada sacada. Uma das dores mais insuportáveis que senti, quase tão grande quando a dor da perda de mamãe, foi na viagem de um mês para os Estados Unidos, quando você estava prestes a completar um ano. Saia dos seminários e conferências, chegava ao hotel, pegava sua foto na carteira e a distância era insuportável. Nem adiantava telefonar, porque você não falava ainda. Quase desisti da viagem na primeira semana.

Lembro-me da volta, você esperando no aeroporto no colo da vó Élide. Chegamos na véspera do Natal, você nos recebeu emburrada. Já tinha um ano, comnpletado enquanto viajamos. O Natal foi em casa, com as duas famílias reunidas. Depois da meia noite a levamos para nossa cama e ficamos conversando, conversando, até que você se desarmasse e começasse a dar os gritinhos, sua marca registrada de alegria.

Os anos foram passando, você saindo de bebê a criança. E a coisa mais linda do mundo era sua convivência com a vó Tê. Ela passou a dizer para todo mundo que tinha sido um reencontro com sua alma gêmea. Era uma alegria tão genuína que nenhum dos netos sentia ciúmes.

Pouco antes de morrer, vó Tê sabia que estava condenada. O hipercolesterol tinha tomado todas suas artérias. Subia à noite ao nosso apartamento, e vinha me contar angustiada o diagnóstico do Dr. Sérgio Oliveira, de que não haveria possibilidade de uma terceira cirurgia.

Em 1982, tinha sido um custo convencê-la a aceitar a segunda cirurgia, que lhe deu alguns anos a mais de vida. Mas agora ela fazia questão de viver mais. Não queria morrer só por uma razão: queria ver a neta Mariana se casando. E você tinha apenas nove anos. No fundo, acho que ela pressentia que você encontraria a tranqüilidade apenas no casamento.

Ah, Maricotinha, quantas vezes me angustiava aquele inferno que você tinha por dentro, aquela angústia que você não sabia como descrever. Esperava você acalmar das suas explosões, e depois a pegava no colo, a filhinha do meu coração.

Depois você cresceu, tornou-se uma moça linda, linda. Me criava embaraços quando saíamos para jantar, porque corria o boato de que circunspecto jornalista econômico estava saindo com uma modelo. Ainda bem que você fazia questão de me chamar “pai” em voz alta, várias vezes, para calar os maledicentes.

Caminhamos esses anos todos, a maior parte do tempo juntos, algumas vezes separados. Hoje à tarde, quando entrar na Igreja para se casar com o seu já marido, meu genro Mário, a música “Oscar e Teresa” a estará acompanhando na entrada; a música “Marianinha” na saída.

As tias já repararam na delicadeza do seu gesto, minha rebelde do século 19. Sabem que o casamento, o vestido de noiva, o cerimonial íntimo, só para família, será em homenagem à vó Tê e em respeito a elas.

Vó Tê certamente se apaziguará vendo a neta do coração cumprindo com o que ela sonhou. E sendo acompanhada por três daminhas muito especiais, minha netinha Cacá e suas irmãzinhas Bibi e Dodó.

Felicidades e paz, menininha do meu coração.

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