Fantasma o espírito-que-anda

Apesar do cinema, da televisão, apesar dos computadores e viedogames que surgiram nos últimos anos, tenho cá para mim que a maior influência cultural que a juventude do século 20 teve foram os quadrinhos. Nem me refiro aos infantis, que fizeram a glória de Disney e de Maurício de Souza, mas aos épicos, que vieram para substituir os livros de aventura dos séculos anteriores.

Dos gibis da minha infância, poucos tiveram a força e a fantasia de Fantasma, “o-espírito-que-anda”. Descendente de um náufrago branco, que quatro séculos antes veio dar em uma praia de Bengala, na África, depois que piratas mataram seu pai e afundaram o navio em que viajavam, o Fantasma dos anos 50 era o 21º da linhagem. Além do nosso personagem, vez por outra os quadrinhos falavam do 9º Fantasma, o mais forte de todos -uma lenda que se sobrepunha à outra–, do pai do Fantasma, que foi morto por um bandido e posteriormente vingado pelo filho.

Todos os Fantasmas, quando assumiam a titularidade, faziam um juramento sobre a caveira do assassino do primeiro deles, prometendo batalhar para destruir “todas as formas de pirataria, ambição e crueldade”.

Os símbolos e características do personagem eram fantásticos. Ele tinha dois anéis, um da caveira (com que marcava o queixo dos adversários com seus murros) e outro da paz, que deixava uma tatuagem que funcionava como um passaporte, respeitado em toda selva. Vivia na Caverna da Caveira, em plena Floresta Negra, cercado por uma corte de pigmeus, e era tratado como o homem que nunca morria. Conheceu Diana Palmer, filha do professor Davidson, antropólogo famoso, tornou-se seu namorado e vez por outra ia visitá-la na cidade, vestindo apenas uma capa, óculos escuros e um chapéu. Tudo para cobrir o uniforme mítico, roxo no original, mas que se transformou em vermelho na versão brasileira por problemas gráficos, e uma máscara que nunca tirava. Diziam as lendas que todo mundo que visse Fantasma sem a máscara morreria.

À paisana, nosso herói se transformava em Kit Walker, mas só se sentia bem quando voltava para a selva, onde era aguardado, já na estação de trem, por seu cavalo branco, Herói, pelo lobo Capeto e pelo chefe dos pigmeus, Guran.

Creio que nenhum dos personagens em quadrinhos, e poucos dos romances, reproduziu tão bem o mito do homem selvagem. Havia Tarzan, é verdade, algumas rainhas e princesas da selva, mas o Fantasma era imbatível. Tinha história, genealogia, tesouros fantásticos em uma caverna, o ritual de soberano da selva, era branco em um continente negro -o que suscitava críticas dos politicamente corretos–, mas só se sentia à vontade rodeado de seus pigmeus. Quando visitava a cidade, todos os símbolos da “civilização” ficavam inexpressivos, sem história, perto do homem que vivia em uma caverna sem nenhum formalismo, mas que tinha, entre seus tesouros, a taça de vinho de Alexandre Magno e a coroa de Cleópatra.

Embora o quadrinho ainda não tivesse sido erigido à condição de arte, a molecada comentava ávida os diversos desenhistas que emprestaram sua caneta para compor o personagem. O criador do personagem foi Lee Falk, também “pai” do mágico Mandrake.

Dos desenhistas, o primeiro deles foi Ray Moore, um dos mais importantes da história em quadrinhos. Depois, veio Wilson McCoy, o que eu mais gostava, e, nos anos 60, Sy Barry, um clássico, e irmão de Dan Barry, um dos grandes desenhistas de Flah Gordon.

Um dos assistentes de Sy Barry tinha relação estreita com o Brasil. Era André LeBlanc, nascido no Haiti em 1921 e falecido nos Estados Unidos em 1998. São deles os desenhos inesquecíveis da edição das histórias infantis de Monteiro Lobato que herdei de meus pais.

Figura interessante esse LeBlanc. Além de ter ajudado Sy Barry em Fantasma, nos anos 40 foi assistente de Will Eisner, na série The Spirit, e também desenhou Flash Gordon.

Mais tarde mudou-se para o Brasil e ajudou a desenvolver a indústria de quadrinhos por aqui. É dele “O Guarani”, de José de Alencar, que inaugurou a série “Clássicos Ilustrados”, da Edição Maravilhosa. Depois, quadrinizou quase todos os romances de José Lins do Rego e muitos outros da editora Ebal.

Naqueles tempos de moleque, só uma coisa me intrigava no Fantasma. Sendo ele tão forte, tão rápido que os sucessivos desenhistas sequer conseguiram captar seu murro, limitando-se a descrevê-lo com uma linha oval e depois mostrar o rival desmaiado com a marca da caveira no queixo, que história é essa de que o 9º Fantasma era mais forte? Sempre tive para mim que o 9º era típico exagero de histórias em quadrinhos.

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