Luizinha de Rodinha

Reencontrei-me pela primeira vez com a Luizinha, a minha Luizinha de Rodinha, quando ela tinha quase oito anos. O trabalho já me afastara de casa. Quando a Mariana nasceu, trabalhava de dia no “Jornal da Tarde”. Chegava à noite em casa, minha mulher ia lecionar, e eu ficava preparando artigos para o jornal, desenvolvendo meus programas de computador, e cuidando da Mariana. Trocava a fralda, dava de mamar, colocava no berço e ficava segurando seu pé até ela dormir. O golpe do pé foi uma invenção dela para assegurar que eu ficaria ao seu lado até que dormisse.

Quando Luizinha nasceu, a vida era outra. Já estava em um ritmo louco de trabalho, palestras, idéias sem fim para me libertar da prisão das grandes redações. Foi necessário minha mulher me chamar a atenção para a simpatia contagiante da caçulinha, quando ela tinha dois ou três anos.

Pequena ainda, Luizinha se refugiou nos braços de uma empregada mineira, supersticiosa, pesada. À noite, ia dormir no seu quarto. Levei algum tempo para perceber o mal que lhe causava. E muitos anos para perceber que Luizinha buscava na empregada apenas um refúgio para minha ausência.

No dia em que despedi a empregada, Luizinha passou duas horas, de madrugada, como que tomada, fazendo discursos em que repetia todo o rancor que a moça despejava nos seus ouvidos. Terminou exausta, no meu colo, dormiu, acordou e não tocou mais no assunto.

Algum tempo depois começou a me rodear no escritório, enquanto eu trabalhava no computador. Vinha, conversava, piriripiriri, como uma maritaquinha mais bonitinha do mundo. Eu ouvia, respondia uma ou outra coisa, mas continuava imerso nos meus números, no meu mundo. Até que um dia ela se aproximou mais e me deu um abraço apertado por trás, cuja lembrança me acompanhará até o final dos meus dias.

Ali achei que tinha reencontrado minha filha. Ainda não. Luizinha passaria a sofrer da maldição do filho exemplar. Por ser o mais responsável, o que menos exige, é o que menos recebe. Juntos, passamos dias terríveis, de fim de casamento, de início de nova vida. E Luizinha sempre ao meu lado e ao lado da mãe, silenciosa, companheira, nada exigindo, só intervindo quando necessário e, depois, se recolhendo.

Foi assim no campeonato de futebol de salão na Escola Pacaembú, onde fazia o básico. Ela era a capitã do time, a que empurrava as colegas, consolava as que erravam. Zizi Possi, mãe de Luiza Possi, brava jogadora do time, se encantava com a garra da Luizinha. Tempos depois, a colocamos no Colégio Galileu. Um dia Luizinha me contou, exultante, que não precisaria mais ser a capitã, o faz-tudo do time, porque havia mais jogadoras boas.

Um dia fui levá-la para comprar uma calça. Era pequena, tinha oito anos e a revolta que precedeu a saída da empregada. Na volta, fez um desaforo qualquer. Disse-lhe para devolver a calça. Tirou e devolveu em pleno elevador. Fui testando-a. Disse que deveria devolver os presentes que ganhou. Ela tinha um estante com todos os presentinhos guardados em ordem, e sabia quando e quem a havia presenteado. Chegou ao quarto e foi tirando os presentes, um a um, e me devolvendo. Fui amarelando. Disse que não precisava, mas ela não quis papo. Tentei abrir a guarda para a paz, e ela nada. Deitei na sua cama, desanimado. Até que pedi água. Aí, ela veio e me deu um abraço apertado, suspiro dobrado, de amor sem fim.

Com suas afeições, sempre teve os mesmos cuidados dos seus bichinhos. Guardava em um álbum mais de trezentas cartinhas trocadas com amigas, algumas das quais tinham ido embora. Como a filha do zelador do apartamento da Pamplona, que se mudou para Belo Horizonte, mas que telefonava todo domingo para ela, de um orelhão.

Nunca me esquecerei do dia em que ela, com pouco mais de dez anos, descobriu que não era verdade a história de que a Mariana era do papai e ela era da mamãe, aliás não sei quem inventou essa besteira.

Eu ia desvendando-a através de conversas com a irmã mais velha, o furacão Mariana. Um dia perguntei à Mariana como Luizinha estava trabalhando a separação. Maricota explicou que ela tinha um caderninho, em que anotava tudo. Se sentia que alguma coisa a machucava, escrevia no caderninho. Depois, se colocava no lugar do outro. E escrevia o que julgava que o outro iria alegar. Se o argumento fosse correto, ela se acalmava, mas nada falava. Se não aceitasse, aí se dava o direito de exprimir sua ira.

No período soturno que precedeu o fim do meu primeiro casamento, menina ainda, pouco mais de doze anos, foi a companheira inseparável, a guerreirinha enxugando as lágrimas e ajudando a administrar a crise, as explosões da irmã, a primeira a fazer a ponte com a nova esposa, a nova família, a cair de cabeça na empresa, quando percebia os problemas que surgiam.

Nunca exigia nada, nunca solicitava. Para amigos, sempre dizia que Luizinha era a minha companheirinha, a mais próxima das filhas. Lembro-me da primeira viagem que fiz com ela, menininha de tudo, para uma palestra em Toledo, no interior do Paraná. Ela ficava no fundo do cinema, fazendo gestos de aprovação — e tirando minha concentração.

Hoje a vejo, linda, linda. A avó materna, dona Elide, dizia que Luizinha era um “biscuí”. Meu pai dizia que Luizinha ria com os olhos.

Esta semana tivemos um DR de pai e filha. Foi dura comigo, com minhas distrações, com mal-entendidos que poderiam ter sido resolvidos simplesmente em uma conversa franca de pai e filha.

Bateu duro, a “primeira caçulinha” – a Dodô é a segunda. Sai meio sem fôlego do jantar. No dia seguinte pedi uma segunda rodada. Nela, fiz tudo o que um pai tem direito. Abracei-a muitas vezes, apertei a bochecha, beijei sua testa. E nem exigi que me chamasse de pai em voz alta, para espantar a maledicência.

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