Minhas menininhas

Crônica – 10/02/2007

Um dia uma amiga que tinha por hábito sonhar sonhos improváveis, me procurou dizendo ter sonhado com tio Léo, que mandava o recado misterioso, aquele jogo de meias palavras do qual se valem os oráculos desde a Antiguidade: no dia 20 de setembro de 1997 aconteceria algo que mudaria minha vida.

Devem ser negócios, pensei, projetos encaminhados, a última resposta que me ficou devida. Estranhei o fato da amiga não ter convivido com o tio Léo, mas, pensei comigo mesmo, as bruxas devem ter outras formas de convivência.

Entrei aqueles dias cinzentos de setembro, com o peso do mundo desabando sobre mim. Tinha tomado, enfim, a coragem de surfar a grande onda que mais uma vez vinha para me pegar de onde estava e me atirar para o outro lado do mundo, como sempre ocorrera antes.

Bastava estabilizar a vida, ter tranqüilidade, conquistar o emprego que apaziguava para um fogo selvagem invadir a alma, provocar turbulências, até que saísse do acomodamento e passasse a explorar novas experiências. Foi o que me levou a pular fora da “Veja” para o “Jornal da Tarde”. Quatro anos depois, do “Jornal da Tarde” para a “Folha”. Quatro anos depois, da “Folha” para a “Dinheiro Vivo”, um programa de TV, pequeno, porém independente, recusando o convite da Globo, por medo absoluto da armadilha do grande emprego.

Agora, vinham as harpias novamente tecer suas teias, desta vez implodindo tudo, empresas, país, casamento, o modo como eu me via e, especialmente, as comportas que impediam o exercício pleno da paixão. Rompidas de forma avassaladora, tratava de me equilibrar naquele novo mundo, que durante tanto tempo evitara, cujos contornos sequer poderia pressentir. E agora vinham as predições de minha amiga bruxa acenando para algo que ocorreria em 20 de setembro.

Desembarquei em Ribeirão Preto no dia 19, pouco depois do meio dia. A Ruiva foi me esperar no aeroporto. Achei-a diferente, mais bonita, mais viçosa. Perguntei o que tinha acontecido de ter ficado mais bonita ainda. Desconversou. De lá rumamos para a Faculdade de Farmácia, que ela cursava, que meu pai cursou nos anos 30. Tinha conseguido com o diretor a ficha do velho, dentro do doloroso processo de recuperação da história para preparar as bases para a nova vida.

Depois da Faculdade fui para o hotel, me preparar para a palestra. Foi uma palestra animada, mas que a Ruiva, na última fila, nem reparou. Estava absorta, com um vestido laranja que realçava seus cabelos vermelhos, tornando-a mais bonita. Mas continuava desligada do mundo.

De lá saímos para um restaurante. Chegamos ao hotel às 23:30. Era pouco mais da meia noite quando perguntei mais uma vez o que estava acontecendo, o que ela tinha ido fazer no médico. E aí ela me falou da gravidez. Quatro décadas de vida passaram num relance ante meus olhos. Foi um susto, como se recebesse o mais improvável presente que poderia imaginar, a maior recompensa por aqueles anos de notícias continuadamente ruins. Não podia ser, mas sabia que era. Nem me lembro o que falei. Apenas balbuciei algo como “não garanto ser um bom marido, mas pai, você sabe que sou, que nasci para ser”.

Bibi nasceu no início de maio do ano seguinte. Miudinha, como nasci, cabeluda como nasci, a ponto de provocar choradeira nas tias e na vó Martha quando a viram pela primeira vez. Lembraram-se do drama do meu nascimento, três dias de vigília, de rezas porque o diagnóstico é que apenas a mãe ou o filho escapariam de uma gravidez complexa, dificilmente os dois. Trintas pessoas aguardando na sala da casa de Poços o anúncio do meu nascimento e a confirmação de que minha mãe sobrevivera. E a Bibi era o Xerox do primeiro neto e do primeiro sobrinho.

Os dias foram passando no apartamento da Emílio de Menezes. Bibi demorou um pouco para começar a falar, mais ainda para começar a se soltar. Me conquistou aos três meses de idade, mas com seus olhos de cobertor me olhando. Passei a compará-la aos pequenos frascos de perfume, que apenas os olfatos mais apurados conseguem pressentir, mais do que entender. Ela se expressava pelos olhos. Mas era travadinha, tinha dificuldades em se soltar, provocando crises na mãe, que julgava que a filha não gostava dela.

Até o momento em que nasceu Dodó, em setembro de 1999, dois anos depois da anunciação de Bibi. No Samaritano, perto de casa, a reação da Bibi foi inesquecível. Estávamos eu e suas duas irmãs mais velhas, minhas grandinhas, aguardando o parto. Dodó nasceu foi para o quarto com a mãe. No dia seguinte, quando Bibi chegou ao hospital para conhecer a irmã, operou-se o milagre. Dizia “nenê, nenê”, não parava de dizer, enquanto a mãe chorava pelos olhos, para não assustá-la.

Pouco tempo depois viajamos para a Argentina. Na volta, quando a Ruiva entrou em casa, um toquinho apareceu no corredor e veio correndo, cabelinhos esvoaçantes, se atirar no colo da mãe. Bibi começara a exercitar a exteriorização do afeto, saindo daquele mundinho dolorido dos que sentem muito e não sabem como se expressar.

De lá para cá as almas gêmeas desabrocharam. Aonde iam, estava Bibi com seus olhos de cobertor olhando para a Dodó. Minhas menininhas são capazes de passar dias em casa, sem brigar, proseando, trocando impressões, conversas. Quando chega, a sobrinha Cacá se integra à dupla como se convivessem todos os dias da semana. São cúmplices nos seus segredinhos, na maneira de reagir às provocações do papai, aos dengos e broncas da mãe. São almas gêmeas, algo tão intenso que, por vezes, acabo dando razão às bruxas, quando falam em reencontros de alma.

Uma tarde vim para casa, as menininhas estavam na escola, decidi cochilar no seu quarto. Sonhei com anjos vestidos de azul. Quando chego à noite em casa, muitas vezes machucado pelas muitas lutas do mundo, é como se enveredasse por um universo à parte. Baixa em mim uma paz, um apaziguamento que às vezes acho que é fruto da idade, mas sempre julgo ser fruto do ambiente de casa e das menininhas.

São as menininhas do meu coração, o pote de ouro no final do arco-iris, quando decidi esquecer os temores e surfar pelos mares da paixão.

Dois anos depois daquele 20 de setembro, meu médico Miguel Srougi me informava que a varicocela, da qual havia me recusado a tratar nos anos 80, quando nasceram as mais velhas, e que, segundo um médico que consultei antes da separação, tinha matado a possibilidade de voltar a ser pai, desaparecera completamente. “Coisas da cabeça”, diagnosticou ele. Lembrei da minha amiga bruxa e pensei comigo mesmo: “Não sei não”.

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