O Café Society

No “Globo” da semana passada, ma edição de 50 anos atrás, a lista dos livros mais vendidos apresenta, em segundo lugar, “O Café Society”, do mineiro José Mauro Gonçalves.

A sociedade da época foi dividida em seis grupos por um cronista social interessante, que tinha como particularidade detestar a vida mudana, e cobrir a crônica com olhos de sociólogo – José Mauro Gonçalves, um mineiro de Barbacena, que trabalhou durante ano e meio como cronista, aposentou-se da função por enfado e por pressão, e lançou um livro na época, “O Café Society”, que chegou a vender 5 mil exemplares.

O primeiro grupo era dos “horse-ligne”, os pequenos círculos dos estabilizados, altas figuras dos meios sociais, políticos e econômicos, que perduram duas ou três gerações.

O segundo era o “café-society”, os colunáveis de hoje, composto de alguns filhos dos “horse-ligne”, ou candidatos a genros e noras, chegados a uma euforia permanente.

O terceiro grupo era dos “salon société”, linha paralela do “café-society”, grupo mais austero, com pretensões artísticas e filosóficas, físicas e metafísicas, com anseios e devaneios, menos ostensivos, descrevia o cronista.

O quarto grupo era dos “big shots”, o pessoal da livre iniciativa e larga visão, aceitos em todos os demais grupos, mais voltados para a ação, para a realização, com pouco tempo para os folguedos.

O quinto grupo era o da intelectualidade, escritores, pintores, escultores, jornalistas, alguns advogados, médicos, profissionais liberais, intimamente desejosos de servirem aos “horge-lignes” e integrarem o “café-society”.

O sexto e perigoso grupo era dos “interlopes”, cabotinos, aventureiros, arrivistas, chantagistas.

Os “horse-ligne” em geral se reuniam em pequenos grupos de 6 até no máximo 16 pessoas, em jantares hieráticos, com lugares marcados, garçons de casaca comandados por um “maitre d’hotel”. Seguiam a velha etiqueta britânica ou francesa, com grande preocupação sobre quem ficava à esquerda ou à direita de quem. Os jantares sempre eram servidos com bebidas importadas, com preponderância para a champagne, pelo cognac, armagnac, vinhos franceses, caviar e fois grãs. Os temas das conversas eram as altas finanças, economia, situação internacional. O cronista colocava nesse time E.G. Fontes (banqueiro), Raimundo Castro Maya, João Borges Filho e Eugênio Gudin. Incluía Raul Fernandes, tratado como “famoso internacionalista que se enriqueceu sobretudo com causas nacionais”, o embaixador Maurício Nabuco, o empresário têxtil Guilherme da Silveira (que havia sido presidente do Banco do Brasil), os três Guinle – Guilherme, Carlos e Otávio. Entre as mulheres, Celina Guinle de Paula Machado, viúva de Lineu de Paula Machado, que se tornou popular na presidência do Jockey Club.

Mantinham-se no comando do país, independentemente dos ventos políticos. Eram incluídos na lista, mas compondo também as do “big shot”, Jules Verelst, da Belgo Mineira, o jurista San Tiago Dantas, candidato a “horse ligne”, Gilberto Amado, Assis Chateaubriand e Paulo Bittencourt, do “Correio da Manhã”

Já o “café-society” carioca começou a ser moldado nos tempos do Cassino da Urca. Até sua criação, a sociedade carioca se restringia ao Cassino Copacabana, sem shows, em um ambiente austero. Joaquim Rolla, um mineiro de São Domingos do Prata, construiu o Cassino da Urca, e inaugurou a era dos grande shows. Com suas roletas, bacarás e campistas, fornecia a trilogia imbatível de dinheiro, bebida e mulheres, dizia o cronista. Depois que o jogo foi fechado, essa fauna se mudou para as boites que comandaram o Rio até os anos 60.

Sem a formalidade dos “horse-lignes”, o “café-society” gostava de cocktails, de jantares em mesinhas pequenas e separadas, para conversas rápidas e descontínuas. Seguiam todas as modas. Na cozinha, o “strogonoff”, trazido pelo histórico Barão Von Stukart. Bebiam bastante, preferindo o uísque à champagne. A moda da época era a dança e também sessões privadas de cinema.

Os “café-societys” mais proeminentes eram Álvaro Catão, Carlos Eduardo “Didu” de Sousa Campos, Vicente Galliez, Horácio Klabin, Otacílio Gualberto de Oliveira, João Saavedra. Jorge Guinle, Teodoro Eduardo Duvivier e Fernando Delamare. Misturavam-se de grandes industriais e incorporadores imobiliários, médicos, fazendeiros, banqueiros.

Havia uma leva enorme de aspirante a “café-society” Esse grupo festivo, descompromissado, passou a influenciar os hábitos de toda a sociedade. O cronista via na juventude aspirante “a ânsia do gozo ou do brilho publicitário”. Já havia o fenômeno de mães de filhas bonitas, caitituando para que virassem capas de revista, ou que fossem apresentadas ao “café-society”.

O “salon société” era formado pelos herdeiros das tradições dos cafés literários da França. Gostavam de se reunir quando a cidade recebia algum intelectual europeu ou americano, ou para comemorar aniversários, lançamentos de livros. As festinhas eram, em geral um soupé froid, um pouco de champagne, uísque, docinhos da Colombo, salgadinhos de cozinheiras particulares.

A figura maior do grupo era Osvaldo Teixeira, seguido de um tal “Viana dos perus” e “dona Georgina das flores”. Cultivavam as esculturas de Rodin, do brasileiro mestre Bernardelli, os poemas franceses de Aluisio de Castro, os discursos acadêmicos de Rodrigo Otávio Filho, e os artigos anônimos de João Neves da Fontoura. Ignoravam solenemente os modernistas.

O auge dos saraus eram os recitativos, cantos, execuções ao piano, muito raramente ao violão. Eram mencionadas a Senhorita Rosita Fonseca e Senhoras Olga Fráguer Coelho como “expoentes canoros”, cantando canções folclóricas com edntonação operística. Mas ainda brilhavam o diplomata Vasco Mariz, Gabriela Benzanoni Lage, e Maria de Sá Erp . E intelectuais mais conhecidos, como Celso Kelly, Pedro Calmon.

O colunista se permitia citar alguns valores reais nesse gruo, como Jorge Dória, Manuel Ferreira Guimarães, Austregésilo de AThayde, Geraldo Mascarenhas entre outros.

Vinham, depois, os “big shots” ou “tycoons”, conhecidos por seu poder econômico, pela liquidez de suas finanças e, alguns, também pelo charme. Em suas reuniões comparecem representantes de todos os grupos. Suas reuniões eram eslendorosas e o sabor estava na mistura de pessoas de todos os grupos.

Dois dos mais ilustres “big shots” eram o paulista José Carlos de Macedo Soares (que indicou Walther para a Diretoria de Crédito do Banco do Brasil) e Horácio Lafer, que tinha fundas divergências teóricas com Eugênio Gudin. Ainda mencionava o mineiro Tristão da Cunha, monetarista convicto daqueles que “lutam contra a inflação e pelo desaparecimento do dinheiro e almejam o retorno de uma sociedade de escambo”. Havia também o banqueiro José Maria Whitaker.

Entre os de prestígio eminentemente político, constavam Apolônio Sales, Israel Pinheiro, Francisco Negrão de Lima, senador Juracy Magalhães, senador Lourival Fontes, Ministro José Maria Alckmin.

Havia “big shots” de outros estados, como Othon Bezerra de Mello Filho, que, com seus irmãos Artur e Luis, dominava setores como hotelaria, tecidos, usinas de açúcar.

Nos setores de terraplanagem e rodoviarismo, imperavam os Cincinato Braga e Mário Tamborindeguy.

Na época, o empresário com melhores relações com os Estados Unidos era Valentim Bouças, ligado ao grupo Holleryth, que recebia polpudos royalties do serviço público. Bouças também tinha ligações com a Panair do Brasil, editoras, empresas de loteamento.

Outro “big shot”, genro de Valentim, era Oiama Pereira Teixeira., de Barbacena, filho do banqueiro José Pereira Teixeira, muito ligado ao grupo da Loteria Federal.

O presidente da Confederação Nacional da Indústria era o baiano Augusto Viana, o de Minas era Lídio Lunardi, do Rio era Zulfo de Freitas Mallmann.

Os Klabin já se destacavam por sua produção de celulose no Paraná. São Paulo, Rio e Minas.

Havia também editores, como Leão Gondin de Oliveira, diretor de O Cruzeiro, e os Blochs, Adolfo, Boris, Arnaldo e Oscar., da Manchete.

O presidente da Panair era Argemiro Hungria, ligado à Murray e Simonsen, que detinha representações de automóveis, máquinas em geral, papéis suecos e finlandeses.

A.J. Peixoto de Castro era o líder do seu grupo, cuja origem estava na concessão da Loteria Federal. De lá investiram na Refinaria de Manguinhos, conseguiram quase o monopólio do fornecimento para o Distrito Federal. Do grupo faziam parte duas figuras influentes, Pedro Raggio e Batista Pereira.

Havia também Antonio Sánchez de Larragoitti Júnior, da Sul América.

Os Monteiro Aranha – sociedade dos Monteiro de Carvalho e do Olavo Egydio de Souza Aranbha -tinham ligação com capitais franceses, investimento em vidro, automóveis (Volkswagen).

Um dos grupos mais poderosos eram os Soares Sampaio, donos da Refinaria Capuava, a maior do país, além de fábricas de cimento, de pneus. O líder era Alberto. Mais os irmãos João, Álvaro e Bento. Ligados aos Soares Sampaio havui Nelson Batista e Aluisio Salles, também com ligações com o grupo Moreira Salles.

Os três nomes femininos de maior destaque desse grupo eram Niomar Muniz Sodré, Rosalina Coelho Lisboa de Larragoitti e Adalgisa Néri. Havia representantes de multinacionais, como Sigmund Weiss, da Mannesman. Três outros big shots eram Samuel Wainer, Baby Bocaiúca Cunha e João Etcheverry.

O cronista culminava sua relação com o grupo Moreira Salles. Mencionava seu Salles, que fundou o banco. Depois, Valter que ampliou as atividades para os setores industriais, agrícolas, dono de uma liquidez monetária imensa, “grandearte da qual em dólares em bancos norte-americanos”.

Eram pessoas ligadas ao grupo Eduardo Ramos (casado com uma filha de Antonio Prado Junior), diretor da Vidraria Santa Marina, Pedro de Perna, Aluisio Sales e Nelson Batista, além de San Tiago Dantas e outros “big shots” famosos.

Entravam, finalmente, os big shots da hotelaria, entre os quais os Guinle, Joaquim Rola, do Quintandinha, e Alberto Bianchi, dono de cassinos, inclusive em Poços, que associou-se ao Cassino Atlântico. Rola era considerado por Assis Chateaubriand um dos dez homens mais importantes do país.

Do grupo dos intelectuais faziam parte Manuel Bandeira, Ciro dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, João Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Orígenes Lessa, os pintores Portinari, SantaRosa, Di Cavalcanti, os pintores, José Pancetti, Oscar Niemayer, Lúcio Costa. Entravam ainda os caricaturistas e humoristas Millor, Borjalo, Carlos Estevão

Os grandes anfitriões da cidade eram o casal Charles Bob Winans e Naná Dinah Winans, e sua casa no Largo do Boticário. Bob era de Boston, “horse-ligne” de lá, filho de diplomata e banqueiro, Capitaneou seu grupo na Bélgica. No Rio, foi o intermediário do empréstimo que permitiu ao prefeito Antonio Prado Jr, arrasar com o morro do Castelo.

Sua casa era ponto obrigatório para visitantes estrangeiros. A Grã Duquesa Maria, da Rússia, Lord Chancellor, da Inglaterra, o Secretário de Estado norte-americano Dean Acheson.

Hoje em dia, José Mauro vive em um apartamento do Flamengo, tendon a vizinhança vários sobreviventes desses tempos, ectoplasmas esquecidos de um tempo que já morreu.

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