Ritos da Passagem

Quando eu morrer amanhã vou querer meu quarto cheio, cercado por minhas mulheres — filhas, tias e irmãs, e a companheira dos melhores dias. Não as espero aliviadas, para não liquidar com minha auto-estima, mas as quero conformadas, com a sabedoria dos que aprenderam a conviver com o inevitável.

Posto que, como recompensa pelo martírio diário do fechamento, Deus concede aos jornalistas a suprema graça da morte súbita, não haverá tempo para as últimas palavras. Desperdiçarei meu treinamento, dos 8 aos 14 anos, enquanto me encantava com as últimas palavras dos “Homens e Mulheres Célebres” da Tesouro da Juventude, edição de 1925.

Sendo inesperada a passagem, mais uma vez serei vítima de minha eterna distração. Levarei algum tempo para me dar conta do inusitado da situação, de ver no mesmo ambiente enevoado, no súbito infinito da passagem, minhas filhas mais novas junto com seus avós, que, por uma dessas falsetas temporais, não tiveram chance de conhecer. As mais novas repetirão que “papai só faz rolo”; e minha mãe dirá pela milésima vez para eu parar de ser distraído.

Posto que, nesses instantes de passagem, Deus nos faculta o corte transversal do tempo, poderei escolher o ambiente da confraternização. Provavelmente ficarei entre o quartão, no fundo da casa da minha infância, que abrigava nossas celebrações natalinas, e a sala da casa da tia Rosita, onde, criança, me encolhia em um canto ouvindo as serestas de meu tio. Ou ainda na sala da casa de meu avô, aqui em São Paulo, onde, no Dia dos Pais, se preparava a bacalhoada que reunia filhos e netos. Não pensarei em nenhuma das muitas casas em que morei depois de adulto, talvez pela orfandade da casa em que nasci.

Haverá música da boa, porque a passagem não prescinde de bom fundo musical. Aceitarei de bom grado a “Bachiana Número 4”, de Villa Lobos, e a “Flor do Cafezal”, com Cascatinha e Inhana. Minha vida não foi suficientemente piedosa para aspirar a Garoto e Jacob me aguardando com seus bandolins. Mas haverá a voz cristalina de minha mãe cantando “Chuá Chuá”. E haverá tia Mariana, como que saída do fundo do tempo, cantando “Linda Flor” e contando histórias com aquela capacidade de compor frases que parecia da tia Olímpia, a louca de Ouro Preto.

Na celebração intemporal dos afetos, haverá a figura reverencial do meu avô Issa, me abrigando embaixo de seu braço protetor, ao lado de meu pai Oscar. Minha avó Martha ficará suspirosa em um canto, conversando com a bisavó Mariquinha.

Farei questão absoluta de ser filho e neto, respeitando a precedência das gerações. O lugar central da mesa será de meu avô e meu pai, mas não abrirei mão de manter, num canto da mesa, mas no meu entorno, o pequeno arquipélago das minhas meninas.

As meninas ficarão surpresas de verem, nos avós, valores, modos, tiques que transmitimos a elas. Vó Tê se surpreenderá ao identificar seu estilo gozador tanto na neta mais velha, a Mariana, quanto na penúltima, a Bibi.

Vão me supor distraído, mas com o rabo dos olhos verei minha filha Luizinha me acompanhando com aquele olhar dos que sabem transmitir afeto sem arrebatamento. E não haverá como deixar de ouvir os gritos exuberantes de Mariana e da Clarinha, de quem não consegue transmitir afeto sem arrebatamento.

De cada uma de minhas meninas levarei um instante intenso de recordação. De Mariana, a fantasia de baiana, no carnaval de seus dez anos. De Luizinha, o abraço apertado que meu deu aos seis anos, celebrando nosso reencontro. Da Bibi, o olhar afetuoso dos três meses de idade, que me conquistou para sempre. Da Dodó, o bico armado de quem nasceu para dar e receber beijos. Da Clarinha, o abraço apertado e a declaração que desmontou o avô. Da Ruiva, a dedicatória do primeiro livro e o sorriso do primeiro encontro.

Como último desejo do lado de cá, sentirei em meu rosto o afago da mão quente de minha mãe. Como primeiro contato com o lado de lá, ela dando ordens sobre como me comportar. Tudo isso quando eu morrer amanhã,

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