Uma paixão poçoscaldense

Logo que vim para São Paulo, sempre que voltava para Poços íamos tocar no Castelões, restaurante tradicional da cidade. Foi lá que nos deslumbrávamos com Cristina, casada com Robertão, líder político local, adversário político do nosso grupo.

Robertão tinha sido adversário político e amigo do meu avô Issa. Com 24 anos ajudei a montar um jornalzinho em Poços que era crítico da administração de seu irmão Ronaldo. Viramos adversários ferrenhos por algum tempo, principalmente depois que seu grupo adquiriu o jornal dos meus sócios e calou a nossa voz (e salvou a minha vida, porque tive stress com 24 anos por conta dessa aventura).

Mas Cristina estava acima daquilo. Embora nunca nenhum da turma tenha lhe dirigido a palavra, quando passava por nós com Robertão, para jogarem carteado nos fundos do Castelões, iluminava o salão. Atrás, seguia o marido apaixonadíssimo, e nossa admiração por uma relação tão bonita.

Sabíamos da história de Robertão, não a de Cristina. E só do lado dele já dava uma belíssima história de amor.

Robertão casou-se com a filha de um médico local, cuja mãe (que conheci pouco antes de morrer) tinha sido uma das musas de Drummond. Na viagem de núpcias tomaram um navio com destino à Europa. No meio da viagem, a mulher conheceu pessoas que não devia e separou-se antes de completar a viagem, resolvendo seguir outra profissão.

Roberto conseguiu anular o casamento no Supremo.

Agora, dona Elza, velha e querida personagem de Poços daqueles tempos, me conta a outra parte da história. Cristina era de família de Poços e casou-se com um jornalista e crítico musical de São Paulo, figura adorável. Casaram-se em julho. Em novembro Cristina resolveu passar o aniversário sozinha em Poços. Já estava apaixonada por Robertão.

De nada valeram as longas ligações telefônicas do marido desesperado.

Viveram felizes para sempre, até o final dos anos 80, quando um vazamento de gás no apartamento que haviam acabado de comprar matou Cristina.

No carnaval de 90, depois de beber alguns, vi Robertão e não resisti, fui conversar com ele. Ele se lembrou da amizade com meu avô, e eu me lembrei que vovô não tinha por hábito ser inimigo de seus adversários políticos. Passamos o resto da noite como se fôssemos amigos de infância, ele me contando sua bela história de amor.

Nem sei por onde anda o Robertão e suas lembranças. Preciso planejar melhor minhas idas para Poços para poder reencontrar os personagens das histórias de meu avô, meu pai e minhas.

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