Crônica de Domingo: Banda dos Fuzileiros Navais

O maior sucesso musical de 1958 não foi Cauby Peixoto nem Angela Maria. Foi a Banda dos Fuzileiros Navais do Rio.

Quando aquela banda despontava na avenida, com aqueles uniformes vermelhos, o quepe com bordados de âncora e fuzis, com os couros dos bumbos, taróis, caixas de guerra e surdos, com a estridência dos pratos, com o coro das cornetas tocando em três tons, com os pífaros e, principalmente, com a gaita de foles, sai de baixo, irmão: era desfile mais bonito que o das escolas de samba da época.

Ali, era tudo solenidade e tradição, do quepe em formato escocês ao distintivo em forma de âncora com dois fuzis cruzados. E a gaita de foles, uma retribuição à bandeira nacional, presente do Corpo de Fuzileiros Navais à Nau Capitânia por ocasião da incorporação do Cruzador Tamandaré à Esquadra Brasileira. Lá em Poços, a gente achava que tinha sido presente da rainha da Inglaterra.

O ano de 58 foi particularmente relevante pelo sesquicentenário do Corpo de Fuzileiros Navais, fato que mereceu a homenagem dos Acadêmicos do Salgueiro, com o samba-enredo “Exaltação aos Fuzileiros Navais”, de Djalma Sabiá, Carivaldo da Mota e Graciano Campos.

Quando a diretoria da Caldense acatou a proposta de seu diretor de futebol, Oscar Nassif, e do Sebastião Pinheiro Chagas de trazer a banda para o desfile de abertura dos Jogos Abertos de Poços de Caldas, muita gente sorriu de ceticismo. A banda era grande demais para Poços.

Mas Sebastião tinha influência no PSD mineiro. Era da família Pinheiro Chagas, sobrinho de Carlos Pinheiro Chagas, ex-prefeito de Poços, e detonador da revolução de 1930, com seu discurso de saudação a João Pessoa. O discurso foi tão bonito que transformou a bisca do João Pessoa em mártir nacional. Foi nessa condição que Pinheiro Chagas obteve do diretor da Carteira Comercial do Banco do Brasil, Tancredo Neves, a promessa de apoio financeiro para garantir a vinda dos Fuzileiros.

Pessoal, Poços enfrentou muitas emoções. Era cidade acostumada com celebridades, diferenciada de seus vizinhos. Tanto que o locutor da rodoviária de Itajubá costumava anunciar a partida do ônibus para Poços assim: “Atenção senhores passageiros com destino a Santa Rita do Sapucaí, Pouso Alegre, Santa Rita de Cardas e Poços de Caldas, com todo respeito”.

Mas quando a Banda dos Fuzileiros Navais apontou, lá no alto da rua Minas Gerais, descendo em direção à praça Pedro Sanches, tocando o “Cisne Branco”, Poços tremeu inteira e perdeu a vergonha. Era mulher chorando para cá, homem feito disfarçando pra lá, a molecada ouvindo em silêncio com o cabelo espetadinho de emoção.

Foi daquela visita que saiu o padrão da Banda do Colégio Marista de Poços de Caldas, que, sob o comando do irmão Gabriel, primeiro, do irmão Barbaré, depois, ganhou renome regional. Copiamos dos Fuzileiros a blusa vermelha, o quepe, o brasão, as polainas brancas. Aprendemos suas evoluções, a maneira como davam meia-volta, com o pé esquerdo na frente, o direito do lado preparando o volteio do corpo, a maneira como quebravam à esquerda e à direita. Aprendemos seus toques, sua marcha batida.

Na hora, fiquei tão emocionado que demorei a me dar conta de que meu pai e o Pinheiro Chagas pareciam suar frio. Achei que fosse emoção. Era sim, mas de outra natureza, segundo me contou o Sebastião alguns anos atrás. O Tancredo tinha o hábito típico do político mineiro de concordar com tudo e não fazer nada. Na hora do pagamento, se escafedeu. E a Caldense, que tinha dinheiro para trazer os Fuzileiros, não tinha para os mandar de volta. E quem ia contar essa desgraceira para aqueles guerreiros escarlates, que botavam inimigo para correr só com o ritmo dos taróis e o som da gaita de foles?

Houve uma fagulha, uma centelha de genialidade, quando entraram no carro e dispararam para São José do Rio Pardo, progressista cidade perto de Poços. Lá, convenceram o prefeito de que sua gestão estaria consagrada se os Fuzileiros desfilassem na cidade. Não sei o que disseram aos Fuzileiros.

Só sei que eles toparam. Desfilaram em São José, e, de tão agradecidos pela oferta, nossos vizinhos aceitaram fazer uma vaquinha e financiar a volta dos Fuzileiros para perto do mar, de onde nunca deveriam ter saído.

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