Crônicas da middle class

Do Portal Luis Nassif

Do Blog de Zé Via de Regra

Em missa de sétimo-dia da sexta-santa islâmica, zz quinta-coluna intensifica o quarto-poder bloguista com fumos de terceiro-estado… 

… no cultivo de ideologia segunda-mão a sonhar login ao indefinível primeiro-mundo a linkar a gloriosa classe-média ora em fila de espera do pãozinho de quinze gramas na chapa, contando seus centavos e frações ordinárias no mercado sem futuro do pretérito idhsh – índice de degradação humana segundo o humanitatis.

ZZ&ZZ passaram por estágio rehab forçado. Desintoxicação de info, descomputadorização compulsória. A hot machine 1985 da zezolândia, old Compac Black Label cem vezes devassado, infectado e garibado não resistiu, emitindo um último estertor de agonia numa madrugada quente e enluarada de 12 de fevereiro de 2011, levando consigo gigabaites de divagações, solilóquios, projetos inacabados, trabalhos enviados, conversações vadias, considerações vazias, ricas observações de interlocutores(as) eivadas de generosidade, afeto, sabedoria e… por que non? palavras ásperas, ressentidas, raivas despejadas e loucuras recolhidas. Tudo pra melhor saber, conviver, perdoar e ser perdoado. O velho Compac finalmente abriu o bico. Seu coração chipado não soube mais lidar com a simplicidade complexa de tantos corações expressando palavras, sinais, imagens e canções. À semelhança de Hal-9000, foi progressivamente se infantilizando, se alzheimerizando, recusando tarefas simples, esquecendo-se do que fazia, adormecendo no meio do trabalho, de uma virada de página. Feito o homem de lata de Dorothy, acabou ganhando seu coração de carne e sangue mediante transfusão sensorial, e foi também o instante preciso em que começou a morrer. Resistiu o quanto pode. Ensinou a zz&zz o beabá da linguagem eletrônica, o acesso a mundos possíveis e o vislumbre do impossível. Missão cumprida, guerreiro cepeúnico, leva consigo nossos amores, nossos ódios, nossos quereres momentâneos, nossas esperanças eternas. Deixa aqui somente a saudade, herança cálida de uma máquina que se humanizou ao sabor dos ventos e da poesia humana, tão etérea, fugaz, absurda, imprescindível. Um rei morto que será (foi) substituido, jamais reposto. O que você, máquina infernal e teimosa, tantas vezes injuriada, leva com você pro além é vida vivida e transcrita. Descansa em paz, e que o ferro velho lhe seja leve. Amem.

Voilá, título de arromba. Lina Wertmuller perde, quá! Eis o (com)passo preponderante em abordagens corsário-temáticas: em carestia de densidade lítero-filosófica-metalíptica (cddlfm) meta-se-lho título estupefaciente. Tudo se perde, nada se transforma; mas na catalogatividade biblioeconométrica… quanta diferença!!!

Porque, au contraire, bastaria logo um logo-epônimo como, hum, vejamos, zouzou, oui.. A Bíblia(!), ou… Al Khooram, Mahabarata, O Processo, Odisséia, Paidéia, Decamerão, Don Quixote, Hamlet, Édipo-Rex, Sagarana, Das Kapital, Iaiá Garcia, ou ou ou, non? Quando pinta título pré-literário de per se, galera fica esperta como quando se vê acuada por Marimbondos de Fogo; de três uma: à parte marimbondos, de fogo estará o autor ou o leitor (ou ambos entre si, quaquá!).

Entonces, ao continente propositivo pós-intróito prolegoecumênico. O presente manuscritus manudigitalis se situa no âmbito de expor a exegese de reflexão sobre crista da onda new wave: a zeitgeist middle-class em sociedades globointerrelacionadas sob a dogmassindética enunciação historia-finis a profetizar picada-finis. Posteriormente, em ensaio distinto se explorará a mecânica e as metodologias; por ora basta insinuar en passant autorias e receptadorias da picada (c.f., Da Teoria Pi-K Como Evento Cíclico Quantificável nas Tratativas Interclasses e Formas Estratégicas de Autossubstrair-se da Reta Mediante Estratégias Formais, Tomo IV, pags. 2759 a 2817, das autorazzzz).

(Quem taí resmungando “para de enrolar”, hein? Psiuti!).
(Intervalo pra mãe d’égua beber um gole d’água – gentil oferta das Engarrafadoras H2CO2, a preferida por sua uretra).

Prosseguindo, andiamo.

A imortal arenga de Savonarola perante o Santo Ofício presidido pelo sapientíssimo prior primaz, homem santo e castrador diletante de endemoniados e adoradoras do Belzebu, o frei inquisitor Don Ximenes Anacleto García Juan Pablo Gonzalez y Piñal, el Senectudis III, esboçava os primeiros contradictus sobre a pureza original da “middle class way of life” a partir do indigitatum de desvios morais em Toscana, Trento e Trieste potencializados por infiltrados da dissidente Ordem dos Templários Lúmpen (ou Sem Templos, ou Os Contemplativos) acoitados por baronetes e cardeais comunários do Vale de Loire associados sob a denominação genérica de Les Godards e atuando sob proteção subrreptícia do príncipe Lorenzo de Médici. O douto Savonarola erguia o veludo azul exatamente no nascedouro da agitação corruptora promovida pelo novo espécime político multicelular de chip intercambiável pós-renascentista que iria infectar em seu próprio habitat, e de forma letal, o organismo middle class: o quinta-coluna, ou QC.

In autres paroles e promovendo salto de 3 séculos: gerado como classe média, vivendo como classe média, expressando-se classe média em seus componentes arquetípicos, tais como família, círculo social, moradia, bairro, relações profissionais, comportamentais, emocionais, educacionais, intelectuais, esse ser híbrido, artista da mimese, ideossociopático camaleão, manifesta aversão superestrutural às formas consolidadas da organização classemedeista, no interior da qual obra conscientemente para lhe dissolver os alicerces constitutivos a fim de melhor demolir suas fachadas.

QC’s se revestem de um sentido de missão, e, guiadas pela antevisão iluminadora de Savonarola, zz&zz entregam as características básicas pelas quais detectar essa insidiosa ameaça à livre expansão classe média que promove ordem e valores morais ao mundo civilizado em jornée cujo destino final será wellfare state ou bestialis status ou o que vier antes. Em síntese: olho nos salafrários.

Indício 1 – do comportamento assimilativo-privativista
Auto(s), moto(s), escola(s), plano de saude, aparatos de lazer particulares/privados – kit básico essencial ao disfarce QC, que finge dependência a tais excrescências indicadores do ideário elitista classemedeista enquanto tal (rico, não. Rico quando adoece compra logo um hospital em sistema porteira-fechada e jamais submete seus consanguineos às escolas que planta em bairros mezzo a mezzo pra tomar a suada poupancinha de crédulos middle class people), enquanto dissemina na calada da noite teses heréticas sobre a essencialidade do transporte coletivo, educação, saude e lazer públicos.

Indício 2 – dos hábitos de moradia
Apês em edifícios denominados Maison La Rochelle, Le Amboise, Costa Brava ou Beverly Hills, dotados de high voltage fence, câmeras de vigilância, paramilitares com intercomunicador e GPS, blindados antimotim e variados apetrechos de segurança residencial-urbana. Item básico da camuflagem QC, a despeito do sacrifício pessoal em viver confinado entre vizinhos hostis, fofoqueiros e enxeridos, de ter visitas e familiares fichados, escaneados, revistados, de ter que descer à portaria pra receber a pizza e de se submeter a síndicos com síndrome de Newton Cruz (estes sim, honestos classe média de boa cepa). O QC se sujeita a toda insanidade urbano-paranoide para melhor detectar/denunciar os males da guetização e isolamento em células de sobrevivência e agressividade latente contra humanos vivendo a 15 cms. de distância, além do cuidado neurastêncio de não circular em trajes menores nas áreas comuns.

Indício 3 – das tendências de consumo
TV LCD com polegagem superior a 20. Aberrante exposição QC, que no fundo odeia a desproporcionalidade exibicionista orientada pelo credo wasp segundo a equação Maior=Melhor=Posso Mais que Tu. Dentro da modern architectural concept (mac) dos geniais manipuladores de espaço habitável, um middle class não necessita mais do que 12 m² de sala, 8 m² de dormitório, 4 m² de banheiro e 3 m² de cozinha (área de serviço? Negatiff! Classe média utiliza cinq a sec ou o diabo a quatro), o que mais que lhe basta pra entrar em casa e fechar a porta sem despencar pela varanda, sentar-se no vaso sanitário de lado apoiando o jornal na pia ou abrir a geladeira depois de fechar a portinhola do microondas. Então, o QC exibe sua supertela de 59″ como evidência concreta do delírio consumista que leva à hipotrofia visual-auditiva, enquanto assiste ao BBC News, al Jazeera, Michael Moore, Deutche Weller com a Tela a 10″ do nariz.

Indício 4 – dos hábitos alimentares
Escolha de pizza. Sinal infalível de recaída anti-classemedeista. O vizinho pediu pizza Margheritta? Disque 190. É QC enrustido. Um límpido classe média jamais pede sabores exógenos como margheritta, alho poró, salmão aux fines herbes ou shitake com açafrão. É impulso refinée poseur de um QC que vacila apesar de treinos intensivos pra sempre recitar ao telefone: “Manda uma muzzarella (ou calabresa ou 4 queijos ou atum ou portuguesa ou à moda) e não esquece o meu Dolly da promoção!”. QC’s de alto nível costumam fraquejar nesta parte.

Indício 5 – dos hábitos alimentares
Mais um, sim. Afinal, o peixe morre pela boca e o otário pelo estômago, non? É Hellmans!!! Muitos trutas morreram na praia mordiscando iscas indigestas. Eis uma: restaurante japa. Um lídimo representante da ajuizada classe média nem botaria o precioso traseiro em matafome japa (francês, nem pelo telescópio hubble), recusa manipular pauzinhos e mata um antes que o convençam a tirar os sapatos pra comer (e depois, existem rodízios e costelarias por aí, certo?). Quando é obrigado a entrar num, por intimação social (todo classe média tem um QC infiltrado na família ou no círculo de amigos do peito), manda descer logo o combo da promoção, uma caipira da pesada e uma gelada pra lubrificar a ladeira, tudo na base do custo-benefício sem se deter em decifrar nabos e arranjos florais comestíveis. QC’s têm outra expertise. Sabem profundamente o que significa degustar um haru-no-toko, um ko-me-no-chia, yo-koono-aki-kai, maneja hashis com destreza samurai, conhece a função de cada cumbuquinha, tigelinha, molhinho, salsinha, sopinha, japinha (essa o classe média com certificado de garantia também sabe, e como!). E ampolas, jamé! Entornam logo um azuma kirim básico fervente gogó adentro pra turbinar a lithosfera cerebral estimulando-os a eruditas récitas de haikais sutis como rouxinois osculando flores das cerejeiras ao pé do Fujiyama impávido. Neste caso, algum vizinho de mesa sempre cata o celular e manda chamar Joe McCarthy. QC na área, podiscrê.

Indício 6 – das especifidades e banalidades
Amplitude espectral e diversificação verticalizada em toda a gama de atividades relacionadas a representações culturais, artísticas e intelectuais. O QC zeloso está em permanente “conexão” a todas as formas de manifestação expressiva e impressiva, sempre a partir de uma disposição analítica-crítica com vistas à onisciência no que toca aos aparatos comunicativos disponíveis ao repertório da evolução civilizatória. Estabelece ligação instantânea entre registros cuneiformes e linkagens interconexas na blogosfera; a perpetuação simbólica da condensação ablativa na gestualidade Nô e a precipitação de inconografias paroxísticas do teatro-ato-frenesi da performance Fura dels Bals; a lírica e o concreto, o melódico e o atonal, o sinfônico e o hip hop, o auto e o poema sujo, o barro e o asfalto, o novaiorquino e o afegão, Documenta e Bloco das Piranhas, carnaval e quaresma, manto e parangolé, carne e espírito. Mantém igualmente relação de repulsa/fascínio a todas os suportes vigentes de media, submetendo-se ao bombardeio ininterrupto de informações, dados, referências e intertextos. Identifica um texto de Jabor lendo no máximo 7 palavras, e a partir da primeira sentença de uma análise de Paul Krugman saberá deduzir a conclusão que constará na síntese do último parágrafo. É ciente também do que rola em novelas diversas, colunistas (i)legíveis/(in)visíveis de jornais, revistas, blogues e emissoras de TV, de modo a melhor amplificar/propagar, sempre de forma ácida/jocosa, o entulho cultural disseminado no mercado, evidenciando permanente revolta contra a degradação e a má fé, dentro da mais autêntica expressão classemedeista de exigir conteudo, densidade e progressismo em meio eminentemente mediocrizante que produz lixo pra auferir capital.

Indício 7 – do vestuário
Sob o mais maquiavélico artifício de isolar-se na multidão, o QC não se distingue basicamente do classe média autêntico no que se refere a modos de trajar, inserido nas determinações globalizadas da moda ocidental, embora tenha havido QC’s dissidentes em décadas passadas que tentaram impor uma antimoda baseada em camisetas psicodélicas, batas indianas, calça social com sandálias franciscano; e QC’s femininas caprichando em batas curtas de fina estampa, saias longas rodadas e floridas, botinhas à Daniel Boone, jardineiras e camisetas de crepe enrugado sem sutiã; vestimentas estas que QC’s utilizavam em qualquer ocasião, de campings em Trindade a reunião de diretoria a velório do sogro. Foram, como facilmente se presume, imediatamente identificados, denunciados e enquadrados. Hoje em dia tudo se padronizou. QC’s são (in)identificáveis metidos em calças/saias de sarja ou jeans bem cortados, camisas de algodão lisas ou de listras finas tendendo às cores escuras, camisetas estilo hering e bermudas nos períodos de lazer, moletons e/ou calças de elastano nos passeios matinais, tênis de marca ou mocassins ou sandálias lisas nos pés. QC’s homens usam invariavelmente camisas de manga comprida, mesmo em verões saáricos, ocasião em que enrolam o punho duas vezes deixando três quartos do antebraço a descoberto e deixando um botão a mais aberto no tórax. QC’s mulheres têm leve compulsão ao uso de jeans, camiseta branca (ou com logos de apoio a alguma causa progressista) e tênis. Desde que não diretora-executiva ou editora-chefe ou atriz, cantora, ministra ou presidente da república, quando então se submeterá (de muito má vontade) às exigências estilísticas da função específica. Mas assim que alcança o recôndito do lar: jeans, camiseta e tênis. É o atavismo QC operando a todo vapor. Disque-denúncia nelas.

Fim de papo, gentalha middle class. Zezé cansou a beleza e o computador zero bala está com motor amaciando. Devagar e sempre pra não esquentar a memória fresca e não desgastar as pontas dos dedos médios. Se tivesse registro de velocidade cata-milho com dois dedos, zz estaria no Guiness. Ou então, algum item sobre reflexions of my life em torno do nada. Barbada! Quaquá!

Já dedurou seu QC hoje? Manos a la obra, cabrón!  

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