E o Flip foi um flop.

Convidar os velhinhos pirados Crumb e Shelton para dar palestra em feira de livros ou encontro de escritores é o que se pode chamar de uma bela idéia de jerico.

Até agora o que li de acontecimento interessante nesse Flip flopado foi o cano do João Ubaldo, cuja ausência preencheu uma lacuna, e a vaia para o FHC.

07/08/2010 – 21h26

Desinteressados e sem assunto, Crumb e Shelton afugentam o público na Flip

MAURICIO STYCER
Crítico do UOL
Em Paraty (RJ)

Leandro Moraes / UOL

Robert Crumb pula da cadeira ao saber que sua mesa na Flip estava encerrada (07/08/2010)

Robert Crumb pula da cadeira ao saber que sua mesa na Flip estava encerrada (07/08/2010)

Paraty, de fato, parou para ouvir Robert Crumb e Gilbert Shelton. Mas, depois de 40 minutos, uma parte da plateia começou a deixar a Tenda dos Autores da Flip. A conversa estava chatíssima. Totalmente desinteressados, sem assunto e sem vontade de agradar, os dois mitos mundiais dos quadrinhos produziram a maior decepção desta oitava edição da festa literária.

O mediador, o jornalista Sérgio Dávila, até tentou motivá-los, mas Crumb insistiu no papel de mal-humorado e Shelton, como seus personagens mais famosos, os Freak Brothers, parecia estar em outra dimensão. Ria muito, não entendia quase nenhuma pergunta e dizia coisas sem sentido.

Crumb, de certa forma, previu o que poderia acontecer. Indagado sobre os motivos que o levaram, num primeiro momento, a não querer aceitar o convite da Flip para ir a Paraty, disse: “Vocês vão ficar entediados comigo”. Acabou aceitando a proposta por insistência de sua mulher, a também cartunista Aline Kominsky, e da mulher de Shelton, sua agente, Lora Fountain.

Crumb repetiu ipsis literis respostas que deu na entrevista para jornalistas realizada na véspera. Voltou a falar de sua vergonha de ser americano, chamou os Estados Unidos de um estado “fascista”, disse que Obama é bem intencionado, mas incapaz de mudar qualquer coisa e enalteceu a sua fobia social.

Questionado sobre a origem de sua amizade com Shelton, disse: “Não me lembro daquela época. Tomava muitas drogas, LSD”. Seu colega acrescentou que se conheceram em Nova York, em 1969.

Shelton falou brevemente de sua amizade com Janis Joplin (foram colegas de faculdade), mas também não desenvolveu o assunto.

Dávila tentou provocar Crumb sobre sexo, uma das marcas de seu trabalho. “Estou velho. Já fui mais obcecado com sexo. Olho pra trabalhos antigos e penso: que louco fez aquilo? Chega a ser embaraçoso.”

O mediador tentou novamente, perguntando sobre as mulheres brasileiras. Crumb disse: “Me falaram que o Brasil era a terra prometida para quem, como eu, gosta de grandes bundas. E é mesmo. Tem muita coisa para olhar. Posso imaginar no verão”.

O artista ainda explicou as razões que o levaram a adaptar o Genesis para os quadrinhos. “Sempre fui fascinado pelas histórias do Genesis. Primeiro pensei em fazer piadas, ser engraçado. Fiz alguns rascunhos e não fiquei satisfeito. Então comecei a ilustrar. Depois de 25 paginas pensei: é muito trabalho. Mas ai não dava mais pra parar. Foram quatro anos de trabalho.”

  • Letícia Moreira / Folhapress

    Os quadrinistas Robert Crumb (e) e Gilbert Shelton (d) durante mesa na Flip (07/08/2010)

Convidado a falar sobre os “Freak Brothers”, Shelton conseguiu apenas dizer que foi influenciado pelos “Três Patetas”. Crumb acrescentou: “Tem ‘Três Patetas’ no Brasil? Legal. Agora respeito mais o Brasil. Na França eles são desconhecidos”.

Se já estava sem graça e constrangedor o encontro, a situação piorou quando a mulher de Crumb foi convidada a subir ao palco. A conversa se tornou ininteligível. Crumb e Aline começaram a fazer piadas um sobre o outro sem graça alguma — uma espécie de “Os Normais” piorado. Foi quando parte do público começou a deixar o local.

Quando Dávila informou a Crumb e Shelton que o encontro estava encerrado, o autor de “Fritz the Cat” pulou da cadeira e perguntou: “Acabou? Acabou?”. E foi embora.

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