É preciso cortar comportamentos machistas em rodas de homens, diz criadora do #primeiroassedio

Por Isabela Mena

Do Draft

Entre a semana passada e esta, mais um feito de Juliana de Faria, 30, ganhou projeção nacional. Indignada com o assédio sexual sofrido nas redes sociais por uma criança de 12 anos (a menina Valentina, participante do Programa Master Chef Júnior), a ativista criou, no Twitter, a campanha #primeiroassedio, convidando todos a compartilharem esse tipo de acontecimento. (Aqui no Draft falamos sobre isso ontem.) Isso foi na noite do dia 21. Em quatro dias, a hashtag tinha 82 mil citações, entre tweets e retweets. 

Hoje, menos de 10 dias depois, Juliana já deu diversas entrevistas sobre o assunto e foi citada em um sem número de reportagens. Referência feminista desde que criou o Think Olga, em 2013, um think tank (em vias de virar ONG) do feminino, e a Chega de Fiu Fiu, campanha contra o assédio sexual no Brasil que ficou internacionalmente conhecida, ela é uma das responsáveis por colocar o feminismo na pauta do dia. Em dezembro passado, por causa do sucesso da Chega de Fiu Fiu, Juliana foi eleita uma das sete “mulher mundialmente inspiradoras” pela revista Cosmopolitan americana em parceria com a Clinton Foundation. 

No começo deste ano, junto com as sócias Maíra Liguori, 35, e Nana Lima, 30, Jules (como os amigos a chamam) lançou a Think Eva, uma consultoria de business intelligence sobre o universo feminino que trabalha com marcas que querem inovar sua comunicação com o público feminino. Esta semana a consultoria participa da 3 Percent Conference, em Nova York, discutindo gênero na publicidade com expoentes do tema. Jules fica por aqui, e quem viaja é Luíse Bello, 26, manager de conteúdo e comunidades da Olga e da Eva. 

Em novembro, e depois novamente em dezembro, quem vai para os Estados Unidos é a própria Juliana. Ela fará duas viagens a Washington, uma como convidada do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), outra do Departamento de Estado americano. Não são as primeiras viagens internacionais dela pela Think Olga. Este ano ela já esteve em Nova York para 57ª CSW (Commission on the Status of Women), um evento da ONU, na Coalizão Internacional Contra o Assédio Sexual em Vias Públicas, no SxSW (South by South West), em Austin, discutindo o tema “Why does the Internet hate women?” e na Turquia, selecionada pela ONG Global Attitude para integrar a delegação brasileira G20 Youth Summit.

Apesar da agenda cheia, conseguimos um tempo para conversar com ela sobre a campanha #primeiroassedio, sobre o poder da internet, sobre o que é o feminismo nos tempos de hoje e sobre os planos futuros. Leia a seguir:

O que vocês tinham em mente ao lançarem a campanha #primeiroassedio?

Quando aconteceu o caso da Valentina, na hora lembrei que quando fiz o meu TEDx, contei sobre o meu primeiro assédio e alguns comentaristas de portal duvidaram da história, não acreditaram em sua na veracidade. Então comecei a postar sobre o caso da Valentina comentando algo como “Quando eu contei sobre meu primeiro assédio algumas pessoas não acreditaram. Está aí pra vocês verem como a sexualização de meninas é verídica e normatizada, não à toa os caras não tiveram nenhuma vergonha ou medo de escrever aqueles tweets“. A partir disso, comecei a apontar outros casos de assédio infantis e adolescente e as pessoas começaram a postar os casos que elas tinham vivido quando eram crianças. Passei a tarde inteira dando retweet enlouquecidamente. Chegou um momento em que eu já não tinha mais mão e propus que centralizássemos todos os tweets com a hashtag #primeiroassedio para que eu pudesse então ter contato com todos os casos e tirar dados, guardar as histórias. Foi aí, no final dessa tarde, no dia seguinte ao Master Chef, que rolou a hashtag que bombou porque todo mundo quis participar.

Quais foram os resultados?

Até a meia noite do domingo, a gente teve 82 mil tweets e retweets. A gente fez uma tag cloud, que está em um post que escrevi para a Olga: de um grupo de 3.111 tweets dentro desses 82 mil, a idade média do primeiro assédio é 9,7 anos. As palavras mais frequentes nessa tag cloud foram casa, escola, bunda, pai, tio… E a gente sabe que isso é verdade mas precisa enxergar. Entre as idades de nove e 10 anos aconteceu o primeiro assédio com a maioria dessas mulheres. A gente vai tirar mais dados, estamos em parceria com uma equipe que analisa dados e está colhendo informações.

De tudo isso, o que mais te surpreendeu?

A força e a coragem das mulheres falarem sobre isso, muitas pela primeira vez. Não é simples, está tudo muito imerso na culpabilização da vítima, muitos dos agressores essas mulheres conhecem… Isso foi muito impressionante e também emocionante. Eu mesma só falei sobre meu primeiro assédio, e a Chega de Fiu Fiu nasceu, porque uma amiga minha comentou no Facebook sobre o assédio que sofreu e foi a primeira vez que vi alguém falando publicamente sobre isso. 

Quanto mais a gente jogar para baixo do tapete menos força tem a questão. Claro que eu entendo também quem não consegue falar, muitas mulheres disseram, “queria muito participar mas não consigo”, e isso por mil coisas, medo, trauma, muita dor, conhecer o abusador, que às vezes é da própria família.

Quais são seus maiores aprendizados com essa campanha?

Talvez reforçar a ideia de que a internet é muito importante para as minorias, principalmente para as mulheres porque é onde estamos colocando nossa voz. Conectar as mulheres é poderoso, muda o jogo. E é poderoso também você poder extrair dados das histórias. 

Qual é o próximo passo? O que vocês pretendem fazer com tudo isso que angariaram?

Vamos divulgar esses números e cada vez mais fortalecer a Chega de Fiu Fiu, que é o guarda-chuva de todos esses tópicos de violência contra a mulher. Já temos algumas ideias de projetos, queremos fazer um tour da Chega de Fiu Fiu pelo Brasil, talvez com uma semana de conscientização com workshops educacionais para crianças e jovens, e queremos capacitar pessoas nas comunidades para que elas sejam agentes da campanha estando sempre ali para trocar informações e ser pontos de referência e conforto para meninas e meninos. Também queremos fazer publicações, tanto um livro oficial sobre os dados e nosso conhecimento sobre o primeiro assédio como livros infanto-juvenis sobre a violência contra a mulher que expliquem, por exemplo, o que é consentimento. Uma pesquisa canadense mostra que apenas uma em cada três meninas entendem o que é consentimento. É algo tão básico que elas não sabem por que falta educação de gênero. Queremos muito fazer essas publicações infanto-juvenis. Só falta o patrocínio mas estamos em busca.

A atriz Letícia Sabatella postou no Facebook como e quando foi assediada pela primeira vez. Você já falou como foi difícil falar sobre seu primeiro assédio para um público de 450 pessoas, no TED, com câmeras eternizando o momento. Qual é o impacto na pessoa de externar esse tipo de coisa, tornando público um evento íntimo e muitas vezes traumático?

É igual a um joguinho de dominó, você derruba a primeira peça que tem força para ir derrubando todas. Falo por experiência pessoal. Eu não falava sobre os assédios que sofri porque tinha medo e vergonha, achava que de alguma forma a culpa era minha e também que as pessoas poderiam falar que sou metida. Mas porque uma pessoa teve coragem de falar publicamente, tive coragem também. É isso o que acontece, quando você vê outras mulheres achando coragem e força para falar, você fala da sua história também. 

E ela nunca mais fala sobre isso, guarda o ocorrido dentro de si. Mas quando você joga para o mundo, você quebra com a culpabilização, com o medo, com a vergonha e ajuda outras pessoas a falarem também. E quanto mais gente fala, mais mitos a gente quebra sobre assédio. Mitos como “mulher gosta”, “isso não é praticado contra criança”, “não é tão violento”, “é romântico”. Quando a gente conta as histórias, a gente vê de verdade o que está acontecendo nas ruas, e isso é muito importante para a transformação, é parar de tratar a violência como algo desconhecido ou mítico. 

A Think Olga é considerada um dos expoentes do chamado Novo Feminismo. Quais são as principais diferenças desse movimento em relação ao feminismo tradicional, dos anos 60 e 70?

Não gosto dessa ideia de Novo Feminismo porque as lutas são as mesmas desde sempre. Não é Novo Feminismo, é feminismo. Claro que tivemos conquistas importantes no passado mas a gente está falando sobre a mesmas coisas, “mercado de trabalho”, “a mulher não ter direito ao próprio corpo”, “violência doméstica”, “aborto”. A diferença é que hoje a gente tem a plataforma internet, que nos conecta. Se fosse 15 anos atrás, sem internet, eu ia falar sobre meu primeiro assédio, minhas amigas falariam também e talvez morresse ali. A gente teve 82 mil tweets e retweets em menos de cinco dias e por causa deles a gente foi parar na mídia mainstream e jogou-se luz num tema que, como eu falei, era considerado de menor importância. Essa é a diferença na internet, ela tem o poder de conectar as pessoas, empoderá-las, lhes dar mais coragem. Sempre falo que juntas somos mais fortes porque você se sente mais corajosa quando você está ao lado de pessoas que pensam como você, têm os mesmos objetivos e sonhos.

Que outras iniciativas de empoderamento feminino você curte – e por quê?

Gosto da Casa de Lua, que tem vários eventos gratuitos, o Miss Representation, que fala de mulheres na mídia e a Capitolina, que é conteúdo feminista para adolescentes. 

Há algum tipo de comportamento feminino que pode atrapalhar as próprias mulheres?

No Lean In, livro da Sheryl Sandberg, ela fala sobre algumas coisas. A gente muitas vezes não tenta algum tipo de promoção, algum cargo porque sabe que algum dia pode querer engravidar; em uma sala de reunião a gente acaba muitas vezes não sentando nas cadeiras em torno da mesa e fica mais para trás por não ter autoestima, confiança… São comportamentos femininos que atrapalham as mulheres no ambiente de trabalho mas que são justificados justamente por um ambiente de trabalho que não faz qualquer esforço para aumentar a autoestima delas. Então, falo aqui sobre alguns comportamentos que a gente tem mas sem culpabilizar as mulheres que estão em posições de vulnerabilidade. Ou seja, temos, sim, essas atitudes mas elas não são infundadas, elas são justificadas. Se a gente só focar nessas atitudes a gente vai estar justamente culpabilizando a vítima.

E quais são as três coisas que um homem feminista, ou que deseja ter um comportamento mais bacana em relação às mulheres, deveria ter sempre em mente?

Primeira, não adianta você não assediar se ao seu lado há homens que assediam e você não fala nada.

Segunda coisa, leiam e compartilhem trabalhos de mulheres, apoiem. O que acontece muita vezes é que as mulheres escrevem textos sobre feminismo, sobre suas vivências e não são tão lidos. Mas se um homem escreve, por estar em uma posição mais mainstream por causa do protagonismo e do espaço de fala, o texto dele é muito compartilhado. A gente precisa de visibilidade para continuar produzindo nosso conteúdo, existindo. A terceira coisa é dar espaço de fala para as mulheres. Estou cansada de ir a eventos cujo tópico principal é a mulher e os homens que estão na mesa, participando, cortam a fala das mulheres, falam mais do que elas, ficam corrigindo o que elas dizem. Eles devem escutar um pouco mais e permitir que haja um protagonismo feminino, ter a consciência de que a voz femininas não são escutadas. A gente tem na Olga, inclusive, o projeto Entreviste uma mulher que é um banco de dados com contatos de profissionais das mais diversas áreas de atuação que podem ser fontes de matérias, estudos etc. Quando um homem se perceber numa situação em que as mulheres têm a oportunidade de falar, deve dar um passo para trás porque sua voz como homem já vem sendo escutada bastante. E aqui estamos falando da questão de gênero, não é algo pessoal, personificado em um determinado homem.

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