Em “A Harmonia Werckmeister” o eclipse da Razão que antecede tempos sombrios, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Um circo, cuja principal atração é uma enorme carcaça de baleia empalhada, chega a um remoto vilarejo no interior da Hungria, gélido e envolto numa permanente neblina. E junto com o circo, medo e presságios de crise e escassez de carvão para aquecer as casas. E o oportunismo político espreita as incertezas e o obscurantismo local. Por que? Para um velho musicólogo porque desde que o compositor barroco Andreas Werckmeister ofereceu ao mundo a afinação temperada (base do sistema tonal), o mundo quebrou a harmonia com as músicas das esferas celestes trazendo o desencanto e a desesperança. Esse é o filme “A Harmonia Werckmeister” (Werckmeister Harmoniák, 2000) do diretor húngaro Béla Tarr. Uma fábula política sombria filmada em longos planos-sequência descrevendo como o mal pode se esgueirar numa comunidade aparentemente pacífica. E a Razão ser eclipsada pelo desencantamento do mundo.  

Certa vez o pesquisador alemão Horkheimer (expoente da chamada “Escola de Frankfurt”) afirmou que “a história dos esforços humanos em subjugar a natureza, é também a história da subjugação do homem pelo próprio homem”. Dominar a natureza através da Razão significou liquidar da própria natureza os mitos e deuses que habitavam nela, alimentados pela crença humana. Sem os deuses e mitos a natureza tornou-se um objeto vazio e explorável. Enquanto o homem, como integrante da natureza, também um ser esvaziado de qualquer sentido ético e moral – leia HORKHEIMER, Max, Eclipse da Razão, Editora Unesp, 2015.

Portanto, para a Escola de Frankfurt, o nazi-fascismo e o Holocausto seriam o desfecho trágico de séculos e séculos da história de uma dialética infernal: a do esclarecimento – a aventura da Razão que tencionava jogar luz nas trevas da ignorância. Mas toda luz também produz sombras.

A Harmonia Werckmeister (Werckmeister Harmoniák, 2000), do mestre húngaro Bela Tarr, é uma fábula desse eclipse da razão em tempos sombrios de medo e incertezas. Filmado numa aldeia no interior da Hungria , isolada do mundo e cercada por uma neblina fria permanente, a estória de mais de duas horas de A Harmonia Werckmeister foi narrada em apenas 39 planos-sequência extremamente longos, com uma câmera contemplativa que acompanha os personagens como fosse em tempo real.

Em preto e branco e com longos planos que deslizam por entre as ruas, praças e interiores daquele vilarejo, parece até que outro mestre, o diretor russo Tarkovski (Solaris e Stalker), reencarnou em Bela Tarr. Só que dessa vez, não mais em um sci-fi, mas agora em uma fábula sobre como o Mal acabou lentamente possuindo aquele lugar gélido e remoto. Uma alegoria política não só sobre vida da Hungria do pós-guerra sob a ocupação soviética.  

 

Mas também de como o mal pode se esgueirar em qualquer comunidade aparentemente pacífica. Porque o mal já está em cada um de nós, bastando apenas um gatilho que o faça despertar: no filme, a chegada de um estranho circo que tem como a principal atração uma enorme baleia embalsamada.

O Filme

O primeiro plano-sequência de 11 minutos já contém toda a premissa do filme. Tudo se trata de uma didática explicação sobre o que é um eclipse. Mas também poderia ser uma alegoria sobre o eclipse da própria razão, tal como descrita por Horkheimer, que vamos acompanhar por todo o filme.

É o auge do inverno, quase na hora de um pub fechar. Um eclipse do Sol está para acontecer nos próximos dias e János (Lars Rudolph), o entregador de jornais locais, toma para si a missão de explicar para o grupo de bêbados sonolentos o que vai acontecer nos céus. Ele afasta as mesas e posiciona um bêbado no centro do pub e pede para agitar as mão como fosse os raios do Sol.

Em seguida, um outro fará o papel da Terra, girando em torno do Sol e um outro bêbado sonolento recebe a missão de ser a Lua girando em torno da Terra. Um cena ao mesmo tempo bizarra e poética com círculos cambaleantes, enquanto János explica como a Lua se interpõe entre o Sol e a Terra: “O céu escurece e tudo fica escuro… os cães uivam, os coelhos se escondem, os veados correm assustados… E nesse entardecer terrível até os pássaros confusos voltam para os galhos e dormem. E então, completo silêncio. Será que o céu cairá sobre nós?”. 

 

O proprietário do pub anuncia o fechamento e põe todos para fora. János parte para o seu trabalho noturno: se dirige ao escritório para pegar os pacotes de jornais para as entregas. E será na sua primeira parada, no hotel do vilarejo, que ele começa a ouvir rumores alarmantes e presságios: um circo está chegando tendo como principais atrações uma enorme carcaça de baleia empalhada e um “príncipe” – alertas de que a paz terminará, visitantes de outras cidades aparecerão, faltará alimento e carvão para aquecer as casas naquele inverno rigoroso e possivelmente famílias desaparecerão…

János é idealista, estudioso de astronomia com um mapa celeste fixado na parede da sua casa. Pacientemente cuida do seu velho tio György Eszter (Peter Fitz), um compositor e  musicólogo que acredita que o mundo deu errado desde que o músico Andreas Werckmeister (1645-1706) popularizou um sistema de harmonias que acabou entrando em confronto com a música das esferas celestes. Para Eszter, desde então ele não consegue mais encontrar a afinação exata do seu piano.

 

O Eclipse da Razão

Será o “desencantamento do mundo” descrito por Max Weber, cujas consequências desfecharam o “eclipse da razão” alertado por Horkheimer?

Enquanto para János a enorme baleia exposta na praça central é uma maravilha que nos prova do que Deus é capaz, para os moradores é uma perturbação que aumenta a tensão política local: a ex-esposa do velho tio de János, Tünde (Hanna Schyngulla), que agora vive com o chefe da polícia local, planeja algum tipo de revolta ou golpe político. E exige que Eszter, com a sua ascendência intelectual e credibilidade, converse com os líderes da cidade a participarem do movimento. Caso se recuse a colaborar, tomará a casa e o expulsará, junto com o seu sobrinho.

Tal como o estilo do diretor Tarkovski, Béla Tarr narra tudo de uma forma contemplativa e poética onde em cada enquadramento há divagações filosóficas nos pensamentos dos personagens, muitas vezes em longos monólogos.

Filmado em preto e branco, o plano-sequência da chegada noturna do caminhão do circo é assombroso: a sombra enorme do caminhão passando lentamente projeta uma sombra enorme sobre a fachada das casas. Somada à sequência inicial do eclipse no pub, são as passagens sínteses do que acontecerá naquele vilarejo – o crescimento da violência, do arbítrio e da intolerância.

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