Em “Relic” a perda do elo geracional cria fantasmas que aterrorizam as novas gerações, por Wilson Ferreira

Mais do que um filme de terror, “Relic” tematiza a condição dos idosos numa sociedade de obsolescência programada – a sociedade que perdeu o “elo geracional”

Em “Relic” a perda do elo geracional cria fantasmas que aterrorizam as novas gerações

por Wilson Ferreira

As paredes são testemunhas das nossas mágoas, ressentimentos, ódio e paixões. Absorvem suas energias, fazendo ambientes vibrarem chegando a criar o fenômeno das casas mal-assombradas. Espiritualistas e esotéricos creem nesse fenômeno que seria mais natural do que coisa do outro mundo. E o cinema também. A produção australiana “Relic” (2020) mostra três gerações de mulheres enfrentando manifestações de demência da avó, viúva solitária em um casarão repleto de objetos que representam as memórias de uma vida inteira. Ou será que há algo além, assombrando a todos? Mais do que um filme de terror, “Relic” tematiza a condição dos idosos numa sociedade de obsolescência programada – a sociedade que perdeu o “elo geracional”: numa cultura na qual a novidade e a juventude são mais importantes do que a sabedoria e o conhecimento, o passado e as memórias se tornam aterrorizantes. Filme sugerido pelo nosso colaborador Felipe Resende.

Espiritualistas e esotéricos acreditam que os ambientes em que vivemos nos transmitem energias. Isso porque as paredes têm memória – afinal, testemunha tudo o que acontece ao longo do tempo nos cômodos e espaços.

Mágoas, ressentimentos, dor, ódio; mas também alegria, entusiasmo, amor, paixão seriam absorvidos pelo ambiente:  cimento, tijolos, madeira e outras matérias-primas que absorveriam as vibrações naquele ambiente, formando ondas eletromagnéticas.

Realidade ou não, o fato é que essa ideia dá sentido ao arquétipo dos fantasmas e casas mal-assombradas como materializações ou condensações dessas vibrações que repercutem nos vivos. O que levanta a questão: quem está assombrado? A casa ou os vivos?

No cinema, filmes como Repulsa ao Sexo (1965) de Polansky, O Iluminado (1980) de Kubrick e Mãe! (2017 – clique aqui) de Aronofsky são exemplos desse arquétipo no cinema – lugares sempre ambiguamente assombrados entre simbolismos ou projeções do psiquismo e fantasmas reais.

Filmes como o recentemente analisado aqui no CinegnoseI See You (2019 – clique aqui) praticamente transformam os cômodos da casa em uma topografia do psiquismo: por exemplo, sótão e porões como o locus das pulsões do inconsciente.

Mas a produção australiana Relic (2020) aborda esse tema na radicalidade – a casa como uma camuflagem para a verdadeira casa por trás dela, a casa como uma poderosa metáfora da condição humana.

Como o título do filme nos informa, a casa é uma coleção de relíquias, um museu empoeirado e fechado há muito tempo. A câmera se detém longamente em objetos: o vitral na porta da frente, os cachos grossos da vela de cera, as manchas de mofo preto na parede, as frutas podres em uma tigela. Há longas imagens estáticas de corredores vazios e sombrios, portas levemente abertas.

Tudo entremeado por conversas de três gerações de mulheres. Temos a sensação de que algo está chegando: ou do lado de fora das portas ou algo que existe por trás das paredes… sombras se movem… algo está errado: a casa ou as pessoas dentro delas estão assombradas? Assombradas por memórias e traumas que por anos foram denegados e aparentemente esquecidos. Mas todas as energias estão ali e precisam de um acerto de contas.

Energias que vêm do passado, algo desprezado numa sociedade de obsolescência programada em que a juventude e a novidade são mais importantes do que a memória.

O Filme

A estória gira em torno de Edna (Robyn Nevin), uma mulher idosa com longos cabelos brancos longos e desgrenhados, que parece se deteriorar física e mentalmente.

A diretora Natalie James se delicia com clichês de terror, tornando-os ambíguos como tudo que sugere na narrativa. Na cena inicial vemos Edna em cenas assustadoras do gênero: nua, vista por trás, banhada pela escuridão, seu corpo exposto à vulnerabilidade… acompanhado por um som que nos faz lembrar o terror de Alien, um estalo sobrenatural da garganta como estivesse incorporando alguma manifestação sobrenatural.

Os sinais dão a entender que Edna está se deteriorando na demência e Mal de Alzheimer, viúva e morando sozinha em uma velha casa na região central de Victória, Austrália. Sua filha Kay (Emily Mortimer) é uma workaholic que recebe uma ligação sobre o desaparecimento de sua mãe Edna. Junto com sua filha Sam (Bella Heathcote) vão para aquela pequena região para pedir ajuda da polícia.

Chegando na casa, encontram o lugar vazio e empoeirado, com anotações espalhadas por todas as partes com avisos desde o inócuo e prático (“tome pílulas”) a mensagens assustadoras e misteriosas (“Não siga isso”).

Do nada, Edna reaparece sã e salva. Não lembra de nada: “Acho que saí”, é tudo o que diz. Ela não tem explicação para onde foi. E não só isso: Edna fica progressivamente mais irritada com todo barulho que a filha Kay está causando.

Após o exame do médico e a avaliação de uma possível demência, Kay concorda em ficar com a mãe alguns dias, embora seja óbvio que a mãe precisará de cuidados em tempo integral.

O filme progride em “slow burn”, com as coisas esquentando lentamente através das conversas e interações entre as três gerações de mulheres. Mas aos poucos vamos entendendo que as relações estão marcadas por um passado de marcas e feridas. Kay foi uma filha um tanto negligente. Ela não falava com a mãe há muito tempo e parece nunca ter sido um relacionamento próximo.

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