Estudo de ficção, elementos de ideologia, por Daniel Gorte-Dalmoro

Estudo de ficção, elementos de ideologia [Diálogos com a dança]

por Daniel Gorte-Dalmoro

De início é um som, um som e um corpo de costas – blusa preta, capuz sobre a cabeça. Um corpo sem rosto. Um corpo sem rosto e que se mexe. Se mexe e parece não poder parar. Gestos acelerados, hesitantes muitas vezes, se vão ou não – para onde? O som não dura muito – Estudo de ficção, de Beatriz Sano, correrá boa parte em silêncio, e os sons que transpassam o espetáculo, ainda que ornem com a coreografia, em geral tem algo de descolado da intérprete. 

Descompasso. Bia se vira, os gestos ganham rosto, mas seguem ansiosos, corridos – um imperativo subjaz: mova! Objetos brotam durante o espetáculo: partos rápidos – Bia não pode parar. Há uma história por narrar – parece. Porém, a necessidade de dizer impede uma elaboração do que se quer contar – gesticula-se, simplesmente, na expectativa de que o Outro compreenda e dê um contorno que junte aquela fala numa narrativa. Ou talvez não haja realmente uma história para contar, e todo movimento se dá pelo imperativo de falar, sempre, sem parar, sem pensar, sem nada a dizer. Mova!

Há três momentos bem marcados de pausa ou de gestos mais lentos: numa contagem para coisa alguma, pouco antes de convulsionar e diante do som de carros passando. Esta, a primeira pausa, me faz lembrar de Ernst Jünger, que na década de 1930 anunciava que com o automóvel até deficientes físicos poderiam lutar na guerra: um corpo sadio capaz de se movimentar não era mais condição para ser soldado e morrer pela pátria. Democracia! Inclusão! Guerra! Diante do automóvel, Bia pára: a desnecessidade do movimento diante do bólido que nos leva – ao destino (final)? Em tempos de Acelera SP e aumento de mortes no trânsito da cidade (nosso trânsito, nossa segunda guerra civil), estamos à espera do carro bêbado que nos colherá no cruzamento de um semáforo quebrado ou no ponto de ônibus. “Stop/a vida parou/ou foi o automóvel?”. Paremos, se a ordem (e o progresso?) nos permitirem.

Que a segunda pausa seja para em seguida convulsionar não é menos significativo: há um imperativo em nossa sociedade de estar sempre em movimento – mesmo que parados diante do computador, em nossas bolhas fakebookianas. E essa necessidade de se mover me traz um segundo filósofo, o francês Paul Virilio que, na senda de Jünger, apresenta o mundo contemporâneo calcado no imperativo do não parar, do movimento permanente – movimento entendido em sentido amplo, não necessariamente no deslocamento no espaço -, tanto no plano macro – das nações e suas frotas a singrar os mares, do capital a sangrar economias e vidas -, como no micro – dos indivíduos, obrigados a trabalhar, consumir, fotografar, filmar e falar quando não há nada a mostrar ou a ser dito, apenas para terem a impressão de existir; e existir submersos em imagens e marcas que nos exigem contínuo esforço e movimento para adquiri-las na esperança ilusória de um dia sermos (algo ou alguém?).

A referência ao Fakebook nessa lógica do imperativo do movimento permanente me veio por uma feliz coincidência: uma das paredes da sala era espelhada, e do ponto onde eu estava sentado, Bia às vezes se duplicava e se triplicava naquela parede. Se no palco a dançarina tinha presença, ocupava-o com plenitude, seu duplo (ou triplo) na parede era solitário, melancólico: o espectro de sua presença refletida era uma imagem pequena, perdida numa imensidão escura – gestos soltos num vazio. Vazio como o que se sucedeu à contagem – um dois três – feita com entusiamo, duas vezes: nada.

Houve um quarto momento que poderia ser encarado como pausa: quando Bia pára para rir. Ou não pára, porque o riso soa se encaixar na mesma obrigação de movimento. Na primeira vez, ainda há a impressão de um riso natural a uma situação forçada. Na segunda, sentada na ribalta, o riso é descaradamente forçado, compulsivo, estereotipado – o único gesto descaradamente estereotipado do espetáculo. Traços grosseiros na face do riso que não cessa – a referência que me vem é Oscar Wilde e Dorian Gray (o original, não o prefake de SP). A referência é também eu e todos meus amigos no Fakebook, em nossas caras felizes ou poses “estilosas” para foto – que traços grosseiros de nossas vidas não estamos escondendo por trás de nossos sorrisos forçados, obrigados a estarmos sempre em movimento, sempre aparecendo, sempre em evidência, enquanto nossa existência se perde em poses e gestos (e gostos) vazios de significados, alheios (alienados, para usar palavrão marxista), para um Outro que nada se importa conosco, fazendo a máquina girar – e nos moer, ao cabo -, a economia funcionar, disfuncional?

Estudos de ficção talvez fosse para ser um espetáculo leve – não sei, não perguntei qual o objetivo da artista, se é que ela tinha um objetivo específico, uma moral da história. A mim, ao fim, soou uma pequena fábula de horror pós-moderno – a ser encarada na realidade tão logo eu saísse da sala de espetáculo.

25 de setembro de 2017

PS: não lembro se cheguei a escrever, ou pensei e não escrevi, mas não é a primeira vez que Virilio me surge forte ao assistir a uma dança; ao menos em um espetáculo de Eduardo Fukushima, habitual parceiro de Beatriz Sano, ainda que por outro caminho, também me veio essa idéia do imperativo do movimento na sociedade tardo-capitalista.

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