FHC na Flip

O Príncipe da sociologia, e o faça como eu digo:

Da Folha

Ao comentar “O Príncipe”, Fernando Henrique pede silêncio a Lula

PLÍNIO FRAGA
ENVIADO ESPECIAL A PARATY

Em debate com o escritor Salman Rushdie sobre o livro “O Príncipe”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou o uso do paternalismo na política e disse esperar que o presidente Lula se torne um ex-mandatário que se mantenha em silêncio.

FHC e Rushdie conversaram em inglês por meia hora, no centro de Paraty, em ato de promoção de nova edição do livro de Nicolau Maquiavel (1469-1527) lançada pelo selo Penguin Companhia. O ex-presidente, autor do prefácio da nova edição, procurou contextualizar o livro, lembrando que foi escrito à época de formação dos Estados nacionais, citando que, para Maquiavel, a política se explicava pelas ambições, forças e fraquezas humanas.

Leticia Moreira/Folhapress Fernando Henrique Cardoso (à dir.) e Salman Rushdie em debate sobre “O Príncipe” no espaço da Companhia das letras

Rushdie, autor de “A Feiticeira de Florença” (2008), livro em que mescla realidade e ficção para narrar a história de um mercenário amigo de infância de Maquiavel, afirmou que “O Príncipe” não é um “manual para tiranos”, mas uma narrativa sobre a possibilidade de ser poderoso e, ao mesmo tempo, bondoso e justo. “Recomendou, por exemplo, que o príncipe fizesse toda a matança necessária no primeiro dia, para que depois dissessem: ‘Ele já não é tão mal quanto antes’.”

Rushdie rememorou que, à época de Maquiavel, os principais ameaçadores do príncipe eram seus parentes diretos –irmãos e até filhos. FHC comentou que o objetivo de quem estava no poder era manter-se no poder. “Hoje há eleições, isto não é mais possível. Mas há quem queira ficar”, disse em tom irônico.

Rushdie definiu como “republicana” a tradição nos EUA de ex-presidentes manterem-se em silêncio. FHC, sorrindo, interrompeu-o. “Sou um ex-presidente que não fala. O Lula também acha que ex-presidente não deve falar. Estou esperando… [para ver como se comportará]…”, disse.

Bem-humorado, o ex-presidente lembrou que Maquiavel era um servidor público, defensor da República de Florença e que não podiam ser comparados. “Eu fui um príncipe; ele, não”, gracejou sobre o apelido dado por amigos de “príncipe da sociologia brasileira”.

FHC novamente negou que tenha dito uma frase que a Folha publicou como sua, após reunião com empresários. “Nunca disse ‘esqueçam o que eu escrevi’, mas isso é repetido até hoje. Fui obrigado até a escrever um livro com o título “Lembrando o que Escrevi”, reclamou. Rushdie, ameaçado de morte pelo regime iraniano em 1989 quando publicou o livro “Versos Satânicos”, emendou: “Também enfrentei problemas por causa do que escrevi”.

O ex-presidente reclamou que em política tenta-se julgar não os atos de um governante, mas suas supostas intenções. “Às vezes você quer fazer uma coisa e acabando fazendo outra. Ninguém pode saber a motivação de um ato, talvez à exceção de um padre ou psicanalista.”

O ex-presidente criticou, em outra estocada indireta em Lula, governantes que exploram a imagem de “pai dos pobres”. “Não é democrático.” 

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