Filme “O Culto”: e se nossas vidas forem gigantescas anomalias temporais?, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Uma boa ideia, com um roteiro inteligente, um elenco forte são capazes de fazer filmes convincentes, mesmo com pouco dinheiro. O filme “O Culto” (The Endless, 2017) é mais um filme independente que comprova a capacidade inventiva de renovar subgêneros do horror e da ficção científica. Dessa vez a dupla de diretores Justin Benson e Aaron Moorhead (“Resolution”, 2012) faz um inteligente meta-horror em torna do tema das anomalias tempo-espaço. Dois irmãos (interpretados pelos próprios diretores), depois de terem fugido de uma suposta seita suicida em uma floresta montanhosa, decidem retornar depois de receberem um estranho vídeo. “O Culto” não se limita a fazer uma desconstrução do tema dos “paradoxos temporais” no cinema. Num insight gnóstico, estende esses paradoxos para a nossa realidade cotidiana: e se nossas próprias vidas já fossem gigantescos paradoxos tempo-espaço, que nos aprisionam nesse cosmos, obrigando-nos a repetir uma mesma narrativa indefinidamente? Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Ao longo da história do cinema o tema das anomalias do Tempo passou por diversas transformações, principalmente nesse início de século. No século XX a abordagem do Tempo sempre foi fundamentado em um referencial, por assim dizer, relativístico (Einstein) no qual a viagem no tempo era possível. Porém, sem a possibilidade do viajante alterar os eventos tanto do passado quanto do futuro. Para evitar o chamado paradoxo do avô: inconsistências no presente caso o passado fosse mudado.

Porém filmes como Em Algum Lugar no Passado (1980) e O Feitiço do Tempo (1990) rompem com esse paradigma einsteiniano através de paradoxos. No filme de 1980, o pequeno detalhe de um relógio de bolso dos protagonistas cria uma linha do tempo fechada (1972-1912) como uma espécie de “fita de Möbius” – clique aqui.

E no segundo filme, vemos Bill Murray preso em um loop temporal – todo dia é o mesmo dia, no qual nem o suicídio é capaz de tirá-lo da cilada espaço-temporal – clique aqui.

Loop ou tempo recursivo que no século XXI passa a ser bem explorado em variações como Looper (2012) ou No Limite do Amanhã (2014). 

Uma sugestão gnóstica

Em todos esses filmes há uma sugestão gnóstica nos loops temporais: como a própria condição humana de sermos prisioneiros nesse cosmos, numa espécie de “Roda do Samsara” – o ciclo vicioso da morte/reencarnação.

Mas no filme O Culto (The Endless, 2018) escrito, dirigido e interpretado pela dupla Justin Benson e Aaron Morhead, esse tema de protagonistas presos em algum tipo de anomalia tempo-espaço vai mais além da ficção-científica: e se essa linha de tempo fechada na qual os protagonistas estão presos numa estranha anomalia for nada mais do que a extensão do que já ocorre nas nossas vidas cotidianas? Todo dia repetindo os mesmos papéis, atividades, deveres e obrigações. Para no final morrer e… reviver tudo outra vez em uma nova existência. 

 

A dupla Benson e Morhead já havia se notabilizado no filme anterior, Resolution (2012), por um inteligente meta-horror – no qual a desconstrução metalinguística do subgênero “horror na cabana” (A Bruxa de Blair, A Morte do Demônio, Cabana do Inferno, etc.) se encontrava a desconstrução da própria realidade ao estilo Matrix – clique aqui. A realidade como uma estrutura recursiva como camadas sobre camadas de película de cinema, refletindo-se mutuamente até perdermos a distinção entre o refletido e o reflexo.

Dessa vez em O Culto, a dupla de diretores voltou o seu olhar meta para os paradoxos temporais do tempo recursivo no melhor estilo das gravuras de M.C. Escher. Tal como em Resolution, novamente estão lá pistas que são jogadas para confundir o espectador: há uma conspiração de alguma seita ocultista? Há um complô alien? 

Mas O Culto não se limita a fazer uma desconstrução do subgênero sci-fi “paradoxos temporais”. Como no filme anterior, a metalinguagem se estende para a nossa própria realidade cotidiana: e se nossas próprias vidas já fossem gigantescos paradoxos tempo-espaço, que nos aprisionam nesse cosmos, obrigados a repetir uma mesma narrativa indefinidamente?

O Filme

Justin e Aaron (os diretores emprestam seus primeiros nomes aos personagens – bem ao estilo dos filmes indies) é uma dupla de irmãos que cresceu em uma comunidade hippie em uma floresta montanhosa em algum lugar no Sul da Califórnia. Um lugar chamado “Cabana do Sol Nascente”.

As primeiras cenas mostram os irmãos levando uma vida anônima, em um subemprego de serviços domésticos de limpeza. De início ficamos sabendo que Justin, o irmão mais velho, resgatou o jovem Aaron dessa suposta comunidade hippie – na verdade seria uma seita suicida.

 

Aos poucos também vamos descobrindo que, na época, a fuga dos irmãos ganhou impacto midiático. E que a comunidade acabou estigmatizada pela opinião pública.

Até o dia em que Aaron recebe uma estranha entrega: um vídeo de um membro da suposta seita. Um depoimento sobre como todos estão felizes pela proximidade da “ascensão” e que esperam vê-los felizes quando voltarem.

A questão é que Aaron não guarda nenhuma lembrança negativa dos anos em que viveram naquela comunidade: apenas consegue se lembrar da boa comida e de pessoas felizes. Enquanto a vida atual que levam em subempregos é de endividamento, cartas de cobrança e comida ruim. Por isso, tenta convencer o irmão Justin para retornarem à comunidade para checarem o quanto de verdade há em tudo aquilo.

Justin acha uma péssima ideia mas, tendo em vista a vida miserável que estão levando e o amor pelo seu irmão concorda em retornarem por alguns dias para mostrá-lo a verdade.

Mas antes mesmo de chegarem ao local as coisas começam a ficar estranhas com uma aura de mistério criada por um inteligente design de som que pontua a viagem até a comunidade. 

As composições visuais estão cheia de círculos dentro de círculos: um céu nublado com um buraco perfurando as nuvens; bancos de madeira dispostos em círculos em torno de uma fogueira; personagens cujos destinos e personalidades parecem espelhar uns aos outros; momentos em que o universo parece abrir um buraco para nos mostrar o que está do outro lado. Há espelhos reais e metafóricos.

O Culto entra em um terreno psíquico dos filmes de terror que nos faz duvidar das nossas própria percepções. O filme vai acumulando momentos e imagens estranhas que muitas vezes parecem sem contexto e fragmentadas. 

 

Chegamos a suspeitar se no fundo tudo nada mais é do que a típica lavagem cerebral das seitas para envolver os recém-chegados. Mas há algo na própria estrutura espaço-tempo naquela região que remete às célebres gravuras recursivas de Escher.

Será a própria realidade uma anomalia tempo-espaço?

Os motivos visuais e narrativos em círculos (ou em repetição) evoca filmes que abordam temas como carma, evolução, livre-arbítrio e desafios, fazendo os personagens se confrontarem com variações de um mesmo desafio.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora

1 comentário

  1. Metamensagens

    Vamos ver… tomara que fuja da temática “EUA salvam o mundo”, de “Spring” (2014), em que um “americano” salva a Europa livrando-a de sua “horrorendas” cultura e “monstruosas” tradições através do, pasme, amor… com direito à defesa “americana” explícita: “Todos odeiam os EUA, somos uns imperialistas do mal.”, lá pelos 20 min…

    Conferindo…

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome