Bira Carvalho agora é luz, por Dante Gastaldoni

Ao longo dos anos Bira Carvalho se fez um fotógrafo poderoso, diferenciado, que mergulhou em profundidade no único tema que mereceu a atenção de suas objetivas: a favela da Maré.

Divulgação

Bira Carvalho agora é luz

por Dante Gastaldoni

Ubirajara Zeferino de Carvalho, o nosso bravo Bira Carvalho, teve uma parada cardíaca na madrugada de hoje e morreu em casa, na Nova Holanda, lugar que adotou como seu desde os cinco anos de idade, quando aportou no Complexo de Favelas da Maré, naquele já distante 1975.

Com sua cadeira de rodas, consequência de um tiro que recebeu na coluna vertebral aos 22 anos, Bira circulava livremente pelas 16 comunidades que compõem o Complexo da Maré e era respeitado pelas três facções que controlavam o território, o que garantia uma espécie de salvo-conduto aos integrantes da Escola de Fotógrafos Populares e da Agência Imagens do Povo, projetos criados em 2004 por João Roberto Ripper e abraçados pelo Observatório de Favelas. Era ele que nos guiava, como um anjo da guarda, garantindo o acesso aos lugares que mereciam ser fotografados e preservando a contravenção de cliques comprometedores, os quais sequer interessavam às nossas pautas, majoritariamente atreladas à beleza dos fazeres, estes protagonizadas pelos moradores, e à falta de políticas públicas, quase sempre acompanhadas pela violência policial do Estado.

Ao longo dos anos Bira Carvalho se fez um fotógrafo poderoso, diferenciado, que mergulhou em profundidade no único tema que mereceu a atenção de suas objetivas: a favela da Maré. Os moradores da comunidade, o projeto Luta pela Paz, a Vila Olímpica da Maré, os muros grafitados, as festas religiosas, a questão da água e os direitos humanos permeavam sua incansável documentação, exibida em exposições pelo mundo afora, tais como “Olhar Cúmplice” (Centro Cultural da Caixa), “Esporte na Favela” (Centro Cultural Banco do Brasil), “Belonging” (Canning House, Londres) e “Ginga da vida” (Alliance Française, Paris). Bira também publicou suas fotografias nos livros “Porque uns e não outros?” (2006), “Imagens do Povo” (2012) e “Nós” (2014), além de ministrar oficinas de pinhole na Casa Daros, que se traduziram na exposição “Casinha Daros” (2008). Entre 2016 e 2021 atuou como coordenador do Imagens do Povo, ao lado de Francisco Valdean.

Guardo comigo algumas lembranças marcantes da convivência com o Bira, entre as quais uma ida ao aeroporto Tom Jobim, em 2007, para acompanharmos seu embarque naquela que seria a primeira das suas muitas viagens de avião. Lá estávamos, Ripper e eu, para desejar boa sorte àquele guerreiro destemido, que nunca tinha saído do Rio de Janeiro, e estava embarcando em um Jumbo da British Airways para ministrar uma oficina de fotografia na periferia de Londres. No ano seguinte, Bira Carvalho e diversos fotógrafos formados pelo Observatório, subiram ao palco do Copacabana Palace, ladeados por Sebastião Salgado e Evandro Teixeira, para receberem, em nome da Escola de Fotógrafos Populares, o Prêmio Faz Diferença do jornal O Globo (foto). Aliás, foi para a casa dele, na Sargento Silva Nunes, que eu me mudei por três noites, enquanto a gente produzia as fotos para a matéria “A favela se diverte”, publicada na Revista Globo, que acabou rendendo o referido prêmio.

Hoje Bira Carvalho está embarcando no derradeiro voo, em direção às estrelas na velocidade da luz, e mais uma vez me sinto próximo, com uma enorme sensação de vazio no peito, mas embalado pela certeza que ele continua entre nós, como memória, inspiração e encantamento.

Dante Gastaldoni – Professor de Fotografia na Escola de Comunicação da UFRJ. Foi, entre 2006 e 2015, coordenador acadêmico da Escola de Fotógrafos Populares

Fotos de Bira Carvalho

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