Nelson Ferreira e apelo aos professores do Recife *

Conto o que vi no último domingo, sem tirar nem pôr na medida do possível.

No chamado Marco Zero do Recife, fazia-se mais um encontro de amantes do frevo. Ali, tocava uma orquestra afinada, passistas faziam um passo de acrobata, gente de muitas idades e lugares. Havia gente até do exterior, poderia completar um recifense mais exaltado. Tudo muito bom, tanto a ideia do encontro quanto a execução. Mas eis que de repente, no azul do céu do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evocação nº 1, de Nelson Ferreira. Para mim, coisa melhor não há, e me deixei ficar em desarmada prelibação do que viria. Um calor de felicidade correu no peito em atenção à lembrança que guardamos da letra, da canção, do coral de Batutas de São José, do tempo imorredouro da melodia.  Então a voz da cantora soltou:

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum
Dos carnavais saudosos

Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois-fum
Dos carnavais saudosos

Na alta madrugada
O coro entoava

Do bloco a marcha-regresso
E era o sucesso dos tempos ideais
Do velho Raul Moraes
Adeus, adeus, minha gente
Que já cantamos bastante
Recife adormecia
Ficava a sonhar
Ao som da triste melodia”

No entanto, essa reprodução da letra do Evocação nº 1 acima não diz bem o que ouvi, porque  outra canção se fez presente, já no começo. A cantora cometeu um “Fê-linto”. De imediato, esclareço que tal variação na prosódia local não é um coisa boba, sem importância.  Nós estamos falando de um hino da cidade. Trata-se de uma das maiores obras do maestro Nelson Ferreira. Mas não antecipemos o melhor que aconteceu a partir daí.

Terminado o número, fui ao apresentador do encontro e lhe fiz ver que aquela “pronúncia” não era conforme a original. Então ele me respondeu com o ar mais puro e  inocente  da tarde no Marco Zero:

– Todos cantam assim.

Ah, bom. Se todos sacrificam igual, tudo certo. Mas isso não é verdade. Eu lhe respondi:

– Olhe, a gravação original da Evocação nº 1  não é assim.

O rapaz ficou atônito. Que enrascada, que coisa mais chata é esse cara vir dizer que estão cantando mal Nelson Ferreira. Mas ele – creiam, é verdade – foi salvo por uma senhora, que a tudo ouvia e, mesmo sem ser chamada, achou por bem intervir. Ela me mostrou o celular onde estava a letra da Evocação no trecho “Felinto, Pedro Salgado….”. E me disse:

– Está vendo? É assim que se escreve: Fê-lin-tô.

Toma, além de me ver como um homem sem memória, ela me fazia um indivíduo que não sabia nem ler. Eu lhe respondi:

– É assim que a senhora lê? Fê-lin-tô?

– Sim –  E me fitou de cima a baixo, indignada, como a me responder “se o senhor não sabe ler, problema seu”, mas veio mais suave, digamos, porque me disse, autoritária: – Eu sou professora de português.

Eu lhe respondi:

– Então a senhora sabe que as palavras não se leem como se escrevem.

– É? Saiba que português não é inglês. É diferente: aqui a gente lê como se escreve.

Vocês veem que era um diálogo quase impossível. Uma verdadeira peleja do bem, que  é o novo costume, contra o mal, que pesquisa a história de uma cidade. E o mal sempre perde no fim, diante do blockbuster. Mas para o leitor, retomo a palavra que não pôde ser ouvida.

Primeiro, ouça, escute a gravação original aqui https://www.youtube.com/watch?v=r4pR3H5QV0k

Filinto, não é? Depois, ouça os Fê-lintos em

https://www.youtube.com/watch?v=wMN-x-DFMyw

E até com o Bloco da Saudade, que vai na mesma onda:  https://www.youtube.com/watch?v=BUuF3W3MyHg

 

Antes de continuar, lembro que a mudança no som das vogais não é exclusiva da Evocação no.1. Há um caso mais atropelador. Cantam agora, no Bloco da Vitória, do mesmo Nelson Ferreira:  “quando o povo dê-cide”. Ora, o verso de Nelson vinha do refrão eleitoral “quando o povo diz Cid”. Ouçam, na imortal gravação aqui: https://www.youtube.com/watch?v=XNe8NyIuvkM

 

O original de O Bloco da Vitória, sucesso do carnaval de 1959,  fazia um trocadilho entre “o povo diz Cid”, da campanha de Cid Sampaio, que venceu as eleições para o governo de Pernambuco em 1958, e o verbo decidir. Daí que “diz Cid” virou “decide” na letra e som.  Mas jamais esta contrafação abaixo  . Virou norma: o original cantado dicide, cuja origem é “diz Cid”,  se transformou em “dê-cide” https://www.youtube.com/watch?v=ZeroK43LGt4

 

Mas por que isso se dá? Seria uma evolução natural da língua, que alcançou uma nova prosódia pernambucana? Penso que não, porque agora mesmo, enquanto escrevo, o povo do Recife, nos subúrbios de toda a cidade, não fala no modelo do “a palavra se lê como se escreve”. O que acontece, entre os cantores dos frevos de bloco, de classe média, é a reprodução de um modelo de fala que julgam culta, educada. É constrangedor ouvir, ver blocos de carnaval do  Recife submissos à prosódia dos apresentadores da televisão. Cantam Nelson Ferreira traduzido para um modelo de locução que vem do Rio de Janeiro. Mas nada mais antipernambucano, nada mais violentador da história da cidade.

E nesta altura entram os professores, que educam as novas gerações, como a senhora que me ensinou a ler em seu celular. Muitos professores, pelo visto, ainda não foram informados de que não se deve falar como se escreve. Para ser mais claro: a leitura das palavras não é a cópia do que está escrito. Nessa última frase, se a lemos em voz alta, diremos:  “alei tura dais palavras naum é a cópia du qui istá iscrito”, conforme dizemos, na fala do Recife .

Mais de um estudioso da língua já observou que “muitos profissionais que atuam na área de ensino da língua materna conseguem chegar à universidade (e por vezes sair dela) sem ter consciência das especificidades da fala em contraposição à escrita. Há quem acredite que se fala tal como se escreve e vice-versa”. Muitos professores ainda não sabem, pelo visto, que a norma padrão da língua portuguesa é a sistematização da variedade usada pelas elites socioeconômicas. O problema é que a elite brasileira é burra. Como assim, como é que é?! Sinto a cotovelada de um mestre irritado. A elite é burra?

É que a elite não sabe, e quando é informada, despreza, que a fala popular é a própria língua da história. Ela, a população, é que fala a língua culta, porque fala a língua histórica, que guarda um fio de continuidade entre a identidade de um lugar e a civilização.

Se os professores foram domesticados a falar como se escreve, ou melhor, como pensam que falam como escrevem, que renasçam urgente para a fala da nossa gente. Que saiam das salas de aula e gravem a fala popular nas feiras, nos mercados públicos. Tentem provocar a gente do povo para que fale as palavras, inclusive as menos educadas.. Aí aprenderão, os mestres,  que Beberibe sempre foi Bibiribe, jamais Bê-bê-ribe.

No Dicionário Amoroso do Recife observei que a elite, representada nos doutores tradicionais, nos poderosos da comunicação nas tevês e rádios, ao pretender mandar no português, acha sempre que a fala de uma cidade ou não se deve falar ou se corrige. Pela massificação das telenovelas e dos telejornais, pelos locutores, não se trata nem de corrigir, o objetivo se transforma em divulgar uma nova fala, pela repetição como um hit parade da pronúncia. E em lugar de sotaque, a nova língua passa a ser uma ortoépia. Uma nova ortofonia, que vem a ser o “ramo da linguística que se concentra estritamente na correção dos traços fonológicos (acento, articulação dos fonemas, ligação entre eles, etc.)”.

Mais de uma vez pude notar que os apresentadores de telejornais possuem uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falam outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo.

Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas da reportagem, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe.

Essa é uma imposição que vem da matriz da Globo, lá no Rio. Ou seja, assim me informou uma pesquisa:

“Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo… Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional: “sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade”.

Foi nesta época, que Beuttenmüller começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de “definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil seria a do Rio de Janeiro”.

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambúcu, se pronuncia agora como Pêr-nambúcô.  E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Então se compreende como os versos de Nelson Ferreira se falam pela nova maneira. Filinto virou Fê-linto, Dicide virou Dê-cide  Até Felinho, o gênio universal das variações do frevo Vassourinhas,  já existe quem o chame de Fê-linho, em lugar do nosso mais conhecido músico Fé-linho, o grande do frevo Formigão.

O meu apelo é que os professores gravem a própria fala no cotidiano, para comparar, se pensam que falam como se escreve. E descobrirão, se transcreverem o que tão cultamente pronunciam, que o “l” final é transformado em “u”, assim como o “o” final em múndu e imúndu, por exemplo. Quero dizer, mundo, imundo. Nôiti por Noite.  Que se guiem pela volta ao poeta Manuel Bandeira, na Evocação do Recife

“A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada”.

 

Que tempos, Manuel Bandeira. A sua Evocação do Recife não é mais “é-vocação”, nem é do “ré-cífi”. Virou ê-vô-cação dô  rê-cífê”.  Em vez da sintaxe lusíada, hoje macaqueamos  a fala da televisão. E passamos a cantar Fê-linto, Dê-cídê, Fê-linho, dô Rê-cífê .

 

 *No Vi o Mundo http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/urariano-mota-8.html

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15 comentários

  1. Deve haver um padrão…

    Os fonoaudiólogos criaram um padrão (parecido com o falar das classes cultas carioca) certamente porque tinham necessidade deste. Foi até aprovado como padrão nacional por lei ou decreto no governo do Jânio Quadros. O padrão Globo da Gloria Beutenmuller, inspirado neste padrão dos fonoaudiólogos, também é necessário para melhorar a compreensão da audiência de em todo o Brasil sem retirar o sotaque. É um padrão a ser utilizado no rádio ou televisão em transmissões nacionais, localmente é outra história.
    Se o legítimo recifês está mudando por influência da TV, ninguém consegue mudar isto. Assim como não se pode forçar o povão a falar Bibiribe, tampouco se consegue evitar a absorção de vários vocábulos de outros idiomas, especialmente do inglês. Até que se pode, mas não se deve alterar a grafia dos versos de Catulo da Paixão Cearense ou Juó Bananieri.
    A influência de outros idiomas e outras regiões também é parte da anarquia e história de cada falar local.

     

    • Rê-cife, Ô-linda

      Antonio, respondendo rápido e rasteiro: o povo fala bibiribe.O povo fala filinto. O pobo fala ó-linda. Quem fala. Bê-bê-ribe, Fê-lintô, ôlinda são os apresentadores locais, que macaqueiam mal a fonética “universal” do Rio, que por sua vez são imitados pelos cantores classe média.

       

      • Urariano,

        Tenho vergonha de dizer que aprendi a ler com minha mãe e a cartilha e um louro na parede, no puleiro da gaiola aberta já falando A-B-C, Mariiiiaaaa, Café porque quase que ele aprende primeiro que eu. Às vezes (minto: quase sempre) não leio comentários, ou só uns poucos 2 ou 3, por isso cometo a deselegância de postar comentário sem ter visto o dos outros e até sem ter visto algum comentário que eu tinha esquecido que já havia postado. Dá um desconto. Meus gatos não sabem mexer em gravação, muito menos em computador, por sinal há vários mitos em torno de gatos: asma, que não se apega ás pessoas só ao lugar, etc Mas,por via das dúvidas, posso estar enganado, talvez um deles saiba mexer em gravação, melhorar nalgum estúdio e fazer upload pro blog ou youtube com link.  😉 Eu e minhas ex companheiras nunca demos satisfação a ninguém no mundo, nem usamos pretextos de ser pelos pais ou parentes ou de que não fica bem sair da linha “normal”, das convenções sociais, nunca usamos argola no dedo, nem papel, e preferimos não ter filhos (meu instinto paternal achoq ue se transferiu  pros bichos com os quais a família sempre conviveu, guiné, cachorro sempre vira-lata que têm mais vida, gartos, carcará, papagaio (louro), peixinho, galinhas, galo que avanava e feria a gente, patos (peguei e me sarei, em criança, de uma doença de tanto tomar banho no tanque dos patos.

  2. Excelente post!

    Caro Uraniano,

    post muito bacana e oportuno para discutirmos a “pasteurização” da língua promovida pelos meios de comunicação. Sou do estado do Rio de Janeiro, moro numa cidade que dista 30 Km da cidade do Rio, e por causa disso minha fala é o carioquês: MESMO na nossa língua vira MEXMO, caStigo vira CAXtigo e por aí vai. Também não vejo os repórteres falando assim… de modo que me pergunto: de que região do Rio foi tomado esta pronúncia oficial? Não sei de onde não…

    Até ano passado morei no sul do Estado do Rio, fronteira com o estado de Minas (Minasss como diria os mineiros). Minha filha quando começou a falar ficou num dilema danado: caSSStigo ou caXtigo? Por fim ela adotou o sotaque local, falado na escola! Sempre achei bacana essa variação de sotaques de uma língua, e realmente é lamentável que isto esteja sendo alvo de uniformização. Daqui a pouco vamos entrar no enredo de 1984, de modo a se suprimir todas as “gorduras” da língua portuguesa com o intuito de supersimplificá-la. Um abraço, e mais uma vez agradeço pelo excelente post.

    Adriano, carioca de nascimento, meio pernambucano e a outra metade sabe lá Deus de onde veio!

  3. Urariano, deves conhecer (e aqui pro pessoal)

    (Não vou repetir o q postei semans atrás, aquele treho de cÔNICA DE Antonio Maria em que ele fala que os arnavais antigos tinham mais vida, era o carnaval de rebeldia,nada a ver com os carnavais de hoje em dia que turistas e novas geraçoes desconhecem – conhei ainda um pouco na minha infância em Água Fria e o corso no Recife, tenho músicas q ninguém conhece numa pesquisa que comecei mas não terminei eu, oúnico, com ccamera – detesto smartphone que não tenho – e sou poco conectado).Continuando, naquele beco de São José, as costureiras e alguns vizinhos cantando repertório próprio lindíssimo, que não cantam na rua elas me disserram , pq o pessoal não conhece e não parariam pra apreciar, nem acompanhá-las – hoje a multidão nem daria ouvidos – Gravação mal feita em minigravador cassete . Salve Nelson Ferreira, Capiba, Mestre Vivo (Último Dia, frevo de rua) !!! Ótima lembrança a tua! Daquele cara que foi aa tuanoite de autografos e trocou algumas poucas mensagens contigo, Humberto.

    • Divulgue a sua pesquisa

      Rapaz, fale com um filho seu e poste na internet essas canções do beco de São José. Não importa se estão mal gravadas. Mas se estiverem ruins demais e além da conta, regrave-as.  Esse tesouro é um serviço de utilidade pública. Se você não divulgar, quem irá fazer isso por nós?  

      Agora, de passagem, eu não posso dizer que os carnavais de “antigamenet” eram melhores. Essa é uma opinião que se repete por gerações. Sempre a dos mais velhos era melhor….  Eu posso dizer que o carnaval anterior a nosso nascimento era de uma violência brutal, com mortes e facads, quando os clubes e blocos rivais se encontravam. Você sabe, os blocos e frevo vieram de trabalhadores braçais. Os corsos já eram um carnaval família, acima da classe média,porque o carro era proibitivo para todos nós em Água Fria, por exemplo.

      Recomendo o Paço do Frevo, onde há documentação muito boa do frevo e do carnaval a partir do século dezenove.

      • Frevo do beco e Diz isso pra Antônio Maria

        dia desses citei pelo blog , numa cronica em que ele diz que os carnavais do tempo dele eram rebeldes, pois só de amor e por amor se fazem os gestos de rebeldia. Acho bobagem contrariar o que sente parte da gente, das gentes, de que antigamente isso ou aquilo lera melhor. Algumas coisas eram, outras não. Sobre as músicas eu não sei fazer upload pro blog nem pro youtube, e as músicas ficaram muito mal gravadas, é uma pena, só me restam na memória.Escrevo de modo coloquial, sem pruridos, como se estivesse eu e tu, ou eu e você, então não fique incomodado.

  4. .

    Urariano, você tem razão. Também soa para mim muito estranho ouvir Fêlinto na música de Nelson Ferreira, bem como pronúncias como Rêcife, embora eu considere que, em linguagem de TV ou mesmo em canções, pode-se procurar unificar a pronúncia, por muitos motivos. Há contudo coisas que não se pode mudar, que é a língua popular, Isso vale para pernambucanos e para todos de outras partes do Brasil e até do mundo. Veja que a própria língua oficial alemã foi “nacionalizada” a partir de Martinho Lutero, embora exista a infinidade de dialetos que poderiam reinvindicar a primazia.

    Mas tenho uma pergunta: Diversas vezes no texto você se refere a “do Recife”,  ao invés de “de Recife”.

    O povo “de Recife” ou povo “do Recife”?  Estou “em Recife”  ou estou “no Recife”. 

    No resto do Brasil  diz-se “em Recife”, nós dizemos “no Recife”. Como dirão os professores? Que o certo seria “em Recife”? Cresci dizendo “no Recife”, “pro (para o) Recife” e o português clássico nos garante que isto é o certo, mesmo os professores afirmando que seja “em Recife”, mas não ensinem “em Rio de Janeiro” ou “em Bahia”. Não é mesmo? 

     

    • O Recife, dO Recife, nO Recife

      De acordo, Toni. Tentei responder no Dicionário Amoroso do Recife: 

       

      “Q

      Qual o gênero da cidade?

       

      ….. Mais, poderíamos citar todos os grandes poetas de Pernambuco, que sempre se referem à cidade no masculino. Além de João Cabral, Manuel Bandeira e Carlos Pena Filho, as citações iriam de Ascenso Ferreira e Joaquim Cardozo a Mauro Mota e Alberto da Cunha Melo. Com direito de passagem, é claro, pela tradição pernambucana, que atende pelo nome de Gilberto Freyre: “O recifense diz ‘Chegar ao Recife’, ‘Vir para o Recife’, ‘Sair do Recife’, ‘Voar sobre o Recife’”. E Gilberto Freyre, com a graça de sempre, afirmava que somente a gente de fora se referia à cidade sem o artigo masculino.

               Se saímos da tradição literária da cidade, temos a graça de ouvir na música popular o compositor e cronista Antonio Maria. Ele canta e nos encanta até hoje com “sou do Recife com orgulho e com saudade”, e mais “que adianta se o Recife está longe, e a saudade é tão grande que eu até me embaraço”. Como esquecê-lo ou negá-lo?

               Falar, dizer dE Recife, Em Recife, ou Recife sem o artigo masculino antes, é o mesmo que renegar as mais belas vozes da cidade, e assim desprezar o excelente, que é o modo mais vil de ignorância. No entanto, a mídia do Sul e Sudeste algumas vezes claudica no gênero da cidade. E mais sério, acha que escrever Em Recife ou nO Recife é uma questão menor. Os seus consultores de língua portuguesa, se interrogados sobre o uso correto, respondem que tanto faz, quando de modo mais claro responderiam: para a importância periférica do lugar, tanto faz escrever dE Recife ou dO Recife. O que vale dizer: seria o mesmo que exigir correção diante de um nome tupi conforme as regras da fala dos índios”.

      Abraço.

      • Nao se trata de gênero, mas de uso ou nao do artigo

        Recife é sempre masculino, a questao é se se usa ou nao o artigo. Normalmente se usa o artigo diante de nomes de estados e nao se usa diante de nomes de cidades, mas há exceçoes nos 2 casos (Vou para o Amazonas, mas para Goiás; para o Paraná, mas para Santa Catarina). O caso de Recife é como os do Rio de Janeiro e do Porto. Sao nomes próprios que derivaram de nomes comuns, e mantiveram o artigo. Mas é questao meio dialetal e isso varia conforme o nome de cidade em causa;  em alguns lugares se usa o artigo, em outros nao. No Rio tanto se pode dizer com artigo (Vou para o Recife) como sem (Vou para Recife). Mas se usa sempre diante dos nomes Rio de Janeiro e Porto: Vou para o Rio (de Janeiro), vou para o Porto. 

        • Urariano, isso tudo é bobagem, mas não fique chateado

          Assim como o uso do artigo “o” (a) diante de nome próprio que por essas bandas não se usam (como não se usa “the Mary”, “Le François”, etc.) . Sente-se que é até pedante se falar “o Mário”, ou “pra ti”, não se usa “ti” por aqui, só excepcionalmente, mesmo assim me soa pedantismo. Bechara, se não me engano, ou Cegalla: tanto faz “do” Recife, “de” Recife, “corrigir” isso é pedantismo, me desculpe Urariano (Humberto, que foi na sua noite de autógrafo). E o som às vezes muda, às vezes ouço cantar Felinto, outras vezes Fêlinto. Mas acho isso de pronúncia e polêmica uma tolice, como tolice é eu perder tempo escrevendo esse comentário. Às vezes falo, às vezes se fala,  de Recife, outras vezes se fala do Recife. Urariano, pq você não aborda o uso do “tu” pernambucano que é muito mais rico do que o “tu” gaúcho? Com várias nuances e se misturando com “você” dependendo do minuto, segundo, do astral, etc etc? Já vi gente boa, professor de português em porto alegre dizer bobagem sobre termo que seria usado só em pequena região do RS (pixilinga, se não me falha a memória). Mas repito que acho uma besteira besta – pra citar uma expressão bem popular.

      • Completando o gênero do Recife

        O nome “recife” é sinônimo de “arrecife” nos dicionários. Se não bato no obstáculo, devo acrescentar que o batismo da cidade veio desses muros aflorados por milênios na costa pernambucana: Arrecife, ou Recife. O nome é masculino desde a origem. No entanto, sei por experiência que devemos sair da visão etimológica, porque ela se esvai nos costumes dos dias presentes.

        Insisto: a mídia do Sul e Sudeste algumas vezes claudica no gênero da cidade. E mais sério, acha que escrever Em Recife ou nO Recife é uma questão menor. Os seus consultores de língua portuguesa, se interrogados sobre o uso correto, respondem que tanto faz, quando de modo mais claro responderiam: para a importância periférica do lugar, tanto faz escrever dE Recife ou dO Recife. O que vale dizer: seria o mesmo que exigir correção diante de um nome tupi conforme as regras da fala dos índios.

        Já houve até gramáticos, como Napoleão Mendes de Almeida, que tiveram a pretensão de nos ensinar a falar o nome da nossa cidade. Ensinar tupi aos tupis? Pois assim nos ensina o senhor Napoleão:

                 “Se a cidade de Pernambuco nasceu num recife, o recife é precisamente essa parte inicial, e o Recife é o nome desse bairro de Recife, conforme se vê em planta da cidade. Não estranhe o leitor que em Recife alguém lhe diga: ‘Preciso ir ao Recife pagar uma conta’. Porque está ele, o falante, a se referir à parte antiga da cidade, ao bairro do Recife, onde se encontram as docas, importantes repartições de serviços públicos e grandes escritórios…

         

        Ao chamar hoje Recife de ‘o Recife’, não há tradição. A tradição é a que por nós foi testemunhada quando aí estivemos. Veja-se para confirmação, a fotografia que se encontra na página 51 do Guia prático, histórico e sentimental de Recife, de Gilberto Freyre, embaixo da qual está escrito: ‘… ao pé de uma ponte que liga o bairro de Santo Antônio ao do Recife’

                 E quando em Recife diz alguém: ‘dentro do Recife’, ele está a especificar mais pormenorizadamente ainda o Recife (bairro), pois com essa expressão ele passa a se referir à zona do meretrício de Recife.”  

                 Registro na citação acima duas impropriedades. Na primeira, o sabido Napoleão alterou o nome do livro de Gilberto Freyre, que é Guia prático, histórico e sentimental dO Recife. Na segunda, o zeloso gramático omitiu o texto de início da legenda da foto da página 51 do Guia: “Reprodução de foto raríssima do fim do século XIX, vendo-se um recifense a defecar napolitanamente à beira do Cabibaribe, ao pé da ponte…”.  

        Tanto na mídia do Sudeste quanto na aula de tupi para tupis de Napoleão residem um desconhecimento soberbo, à beira da soberba, do que entendem como a tradição dos periféricos. Mas acredito que o tempo, a razão e o sentimento voam para o nosso lado. De modo mais soberano, mas sem insulto, pois não estamos “para fazer barulho”, como canta o frevo Madeira que cupim não rói, de Capiba:

        “Não vem pra fazer barulho
        Vem só dizer
        E com satisfação
        Queiram ou não queiram os juízes
        O nosso Bloco é de fato campeão
        E se aqui estamos
        Cantando essa canção
        Viemos defender
        A nossa tradição…”.

        Aqui junto a nós, ao fim, o sentimento também canta, porque nos fala e diz: o Recife é fêmea, como fêmeas são todas as cidades. Mas o Recife masculino vem do seu útero. Toda a cidade do Recife é um abrigo, residência, identidade, modo de ser e origem, do útero fecundado. Por isso dizemos nO Recife, dO Recife, para O Recife, O  Recife. O que significa: o amor mais fundo pelo útero desta cidade. 

         

        • tanto faz do Recife, de Recife. Bobagens (o “correto” e )

          Assim como o uso do artigo “o” (a) diante de nome próprio que por essas bandas não se usam (como não se usa “the Mary”, “Le François”, etc.) . Sente-se que é até pedante se falar “o Mário”, ou “pra ti”, não se usa “ti” por aqui, só excepcionalmente, mesmo assim me soa pedantismo. Bechara, se não me engano, ou Cegalla: tanto faz “do” Recife, “de” Recife, “corrigir” isso é pedantismo, me desculpe Urariano (Humberto, que foi na sua noite de autógrafo). E o som às vezes muda, às vezes ouço cantar Felinto, outras vezes Fêlinto. Mas acho isso de pronúncia e polêmica uma tolice, como tolice é eu perder tempo escrevendo esse comentário. Às vezes falo, às vezes se fala,  de Recife, outras vezes se fala do Recife. Urariano, pq você não aborda o uso do “tu” pernambucano que é muito mais rico do que o “tu” gaúcho? Com várias nuances e se misturando com “você” dependendo do minuto, segundo, do astral, etc etc? Já vi gente boa, professor de português em porto alegre dizer bobagem sobre termo que seria usado só em pequena região do RS (pixilinga, se não me falha a memória). Mas repito que acho uma besteira besta – pra citar uma expressão bem popular.

  5. Pior é q nao é pronúncia de ninguém!

    Felinto se diz [Filintu] inclusive no Rio! O som de [i] se deve ao fenômeno de harmonia vocálica (a vogal pretônica se aproxima da vogal tônica). E o [u] final é por causa no fenômeno de neutralizaçao na sílaba átona final, onde, em quase todo o Brasil com exceçao de alguns lugares na Regiao Sul, só há 3 vogais orais, [a], [i] e [u], as palavras escritas com E final se lêem com [i] e as escritas com O final se lêem com [u]. Isso nem é um sotaque específico! É como se fala em quase todo o Brasil. E claro que a fala nao segue a escrita, é o contrário, a escrita é que BUSCA representar a fala, o que só é possível com bastante idealizaçao. Até porque as mesmas palavras têm VÁRIAS PRONÚNCIAS, mas devem ser escritas de um modo único. 

    Essa professora do texto precisa urgentemente de aulas de Fonologia para nao dizer besteiras. 

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