O centenário de Billie Holiday

Eleanora Fagan Gough (Filadélfia, 7 de Abril de 1915 — Nova Iorque, 17 de Julho de 1959)

“Ninguém canta como eu a palavra ‘fome’ ou a palavra ‘amor’. Sem dúvida porque eu sei o que há por trás destas palavras.” Billie Holiday

Eleanora Fagan Gough (Filadélfia, Pensilvânia, 7 de abril de 1915- Nova Iorque, 17 de julho de 1959).

Billie Holiday era filha de Sarah Julia (Sadie) Fagan e Clarence  Holiday. O pai tinha dezessete anos, e sua mãe, dezenove. Eles não chegaram a se casar.

Eleanor Fagan Gough teve o nome Billie escolhido pela mãe, Sadie, numa homenagem à atriz Billie Dove, e o sobrenome Holiday veio do pai, músico que abandonou as duas para seguir a carreira de guitarrista de jazz.  A mãe de Eleanora era uma jovem pequena e meio gordinha, com um rosto muito bonito. Quase analfabeta, ela ganhava a vida penosamente, cozinhando e limpando as casas dos brancos. Assim que chegava em casa, começava a lavar e passava roupa até uma parte da noite, como já haviam feito sua mãe e sua avó e, sem a menor dúvida, sua bisavó também.

Billie Holiday teve uma infância miserável. Sua mãe decidiu procurar trabalho em Nova  Iorque, no bairro do Harlem, deixando Billie para trás. Primeiro fica aos cuidados de Robert e Eva Miller, uma meia-irmã de Sadie, que já cria dois filhos, descrita como uma mãe abusiva, estúpida e injusta, que batia nela violentamente como punição pela menor travessura. A menina é consolada pela bisavó Rebecca, que descrevia suas lembranças da Virgínia, quando aquele de quem ela recebera o sobrenome – Fagan –, o belo irlandês, dono da plantação, deixava sua bela mulher branca e vinha encontrar-se com ela na pequena casinha no fundo do jardim.

Vai depois para a casa de Martha Miller, a sogra de Eva, uma mulher que abria seu coração e sua casa aos meninos pobres do bairro. Uma mulher que Billie realmente amou e que a chamava de avó. A Vovó Martha se queixava de que a garotinha se tornara incontrolável. Não aceitava mais a menor restrição e  frequentemente fugia da escola para correr nas ruas com os meninos. Tornam-se os reis dos roubos velozes e, certo dia ela é pega por um policial e levada ao Juizado de Menores, que a considera “menor sem guarda”. Fica numa instituição para meninas negras delinquentes, a casa do Bom Pastor, dirigida com mão de ferro por uma ordem de freiras, as “Irmãzinhas dos Pobres”.

Depois de nove meses ela ficou em liberdade condicional, em 3 de outubro de 1925. Passou a trabalhar com a mãe que  tinha aberto um restaurante chamado East Side Grill.

Aos 10 anos de idade Billie foi violentada por um vizinho, mas no lugar do homem que a abusou, a própria vítima foi quem sofreu as consequências, sendo levada mais uma vez para o reformatório. Com 11 anos de idade, Billie abandonou a escola definitivamente.  Muda-se com sua mãe, em 1927, primeiro para New Jersey e logo depois para o Brooklyn. Em Nova Iorque, ajudou a mãe com o trabalho doméstico, mas logo começou a se prostituir para conseguir uma renda adicional. E foi num dos quartinhos do bordel onde Billie trabalhava que ela, supostamente, ouviu na vitrola um disco de Louis Amstrong e Bessie Smith, apaixonando-se profundamente pelo som de ambos, que seriam as suas maiores influências musicais.

A carreira de cantora começou por acaso, em 1930, quando à procura de emprego, a jovem faminta e ameaçada de despejo,  resolveu percorrer os bares do Harlem, em Nova Iorque, e se ofereceu para dançar numa espelunca. Conseguiu, inicialmente, um bico como dançarina, mas a primeira apresentação foi um desastre. Sensibilizado, o dono do bar pediu, então, que ela tentasse cantar e, sem querer, fez nascer ali uma estrela. Billie nunca teve educação musical formal e aprendeu a cantar ouvindo Bessie Smith e Louis Armstrong. 

Em 1930, Billie aparece em vários clubes do Harlem com o cantor Laurence Jackson. Em 1933, é descoberta por John Hammond, produtor de discos da Columbia, o responsável pela gravação de seu primeiro disco. A canção Your mother’s son-in-law foi a primeira gravação da cantora, em 27 de novembro, em Nova Iorque, com Benny Goodman e sua orquestra.

Em 1935, assina com a Brunswick Records. Começa uma frutífera parceria com o pianista Teddy Wilson, gravando com ele mais de oitenta músicas em seis anos, e estrela, ao lado de Duke Ellington o filme Symphony in Black.

Em 1936, lançamento de Summertime, da ópera Porgy and Bess, de George Gershwin.

Recebe o apelido de “Lady Day” do saxofonista Lester Young, um de seus melhores amigos por toda a vida, sendo chamado por ela de “The President”. Com o tempo o apelido encurtou e pegou: Young era chamado pelos amigos de Pres. Dessa amizade saiu um dos mais felizes casamentos musicais do jazz: o som de seu sax era o acompanhamento perfeito para voz de Billie Holiday. Em quatro anos gravaram cerca de 50 canções.

Em 1937,  faz parte da orquestra de Count Basie e, em 1938, começa a a trabalhar com Artie Shaw, tornando-se a primeira mulher negra numa orquestra de branco, um feito impressionante no seu tempo. Porém, ela não era admitida nos hotéis que hospedavam seus colegas da orquestra e o liberal Shaw armava uma confusão na recepção e, se Billie não pudesse ficar com eles, saíam todos do local e da cidade.

Suas experiências com as Big Bands, entre 1936 e 1938, são amargas. Com Count Basie passa por vexames como pintar o rosto com graxa de sapato porque um empresário achou que sua pele era muito clara. Com a orquestra branca de Artie Shaw, é muito bem tratada pelos músicos mas sente o racismo nas turnês pelo Sul. Cansada de tais humilhações, volta para Nova Iorque.  

Em 1939, mais uma vez pelas mãos de Hammond, consegue um bom contrato no Café Society, popular boate de público interracial de Nova Iorque. É lá que sua fama começa a se firmar quando apresenta pela primeira vez a canção Strange Fruit. Houve um silêncio total, então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente e, de repente, todo mundo estava aplaudindo. Apesar da Columbia não permitir que ela gravasse a canção devido ao assunto, Billie passou a gravar com a Commodore, e a canção se tornou um dos seus clássicos, começando sua jornada para a imortalidade musical. Strange Fruit foi escrita numa época em que as relações raciais nos EUA eram muito precárias. Os linchamentos, apesar de terem diminuído, não eram discutidos. Por isso, cantar aquela música foi um ato de coragem. A “fruta estranha” do título e da letra é o corpo dos negros linchados e enforcados em alguma árvore, onde ficavam sangrando, balançando ao vento. Como hit mundial, Strange Fruit tornou Billie a encarnação da música engajada na época.

Em sua fase de maturidade, as constantes brigas e disputas com a mãe fez a cantora cair na realidade da miséria financeira. Foi também nesta fase que ela escreve God Bless The Child, com a ajuda do pianista Arthur Herzog, Jr. Na letra, Holiday fala que quando se tem dinheiro, os amigos rondam a sua porta, mas se o seu dinheiro acaba, todos eles se vão. Na verdade, a parte central da música faz referência aos pais que não dão suporte financeiro aos filhos, do qual Holiday foi vítima.

Billie viveu uma vida turbulenta, cheia de altos e baixos, estimulados por seus conturbados relacionamentos amorosos, que resultaram em três casamentos com homens oportunistas e violentos. No auge da fama, em 1941, Billie começou sua longa lista de frustrações amorosas marcantes em sua vida, com o casamento com Jimmy Monroe. Aliás, foram os constantes casos de Monroe com outras mulheres que fizeram com que Billie compusesse uma de suas mais belas canções, “Don´t Explain, escrita depois de ver o marido chegar em casa com a roupa manchada de batom. Pouco depois da separação com Monroe, ela se casou com um sujeito ainda pior: o trompetista Joe Guy, que além de a ter levado praticamente à falência parece ter sido responsável pela introdução de Billie no mundo do ópio e, posteriormente, da heroína. Um terceiro casamento, desta vez com Louis McKay, foi igualmente desastroso.

Em 1947 faz o filme New Orleans, ao lado de Louis Armstrong. Seu papel foi o de uma empregada doméstica. Um papel que aceitou fazer para estar ao lado de seu ídolo desde a infância, mas sobre o qual ela protestou publicamente.

Os problemas com drogas de Billie vieram à tona quando ela foi presa em maio de 1947, na Filadélfia, acusada de posse de heroína. Condenada a um ano e um dia de prisão, foi para uma clínica de reabilitação federal em Alderston, West Virginia. Por causa de sua condenação, ela não obteve a licença necessária para se apresentar em cabarés e clubes que vendessem bebida alcóolica. Quase imediatamente após ser solta, um concerto foi organizado no Carnegie Hall em março de 1948, o show Holiday on Broadway. Ela cantou mais de trinta músicas para uma multidão, apesar de não ter cantado por quase um ano. Foi homenageada como uma rainha.

Em 1950, aparece no curta-metragem Sugar Chile Robinson, Billie Holiday, Count Basie and His Sextet.

Ela começou a excursionar pela Europa, onde era mais popular que nunca, mas em 1956 ela estava presa pela segunda vez e entrou em programa de reabilitação.

Em 8 de dezembro de 1957, no The Sound of Jazz, programa de grande audiência, nos estúdios da CBS, foi convidada para cantar, ao lado do saxofonista Lester Young, a canção Fine and mellow, considerado um dos melhores registros da última década de sua vida.

Em 1958, trabalhando com a Orquestra de Ray Ellis, Billie faz sua estreia pela Columbia Records com o álbum Lady In Satin.

Em 1959,  Billie termina seu último álbum, Billie Holiday, renomeado Last Recordings, com a MGM.

Billie morreu aos 44 anos, em 17 de julho de 1959, numa cama de hospital, triste e solitária. A cirrose destruiu seu fígado e problemas cardíacos levaram-na ao hospital. Em seu leito de morte recebeu voz de prisão por posse de drogas. Seu quarto foi invadido pela polícia, que lá montou guarda até o dia 17 de julho. No momento da autópsia os médicos encontraram US$ 750 que Billie havia escondido sob sua roupa. Era todo dinheiro que lhe restava, além de 70 centavos que estavam em sua conta corrente.

Mais de 3.000 pessoas foram dizer adeus à Lady Day na cerimônia de sepultamento, realizada em St. Paul the Apostle Roman Catholic Church, em 21 de julho de 1959. Seu funeral foi bancado pelos fãs. Está enterrada no St. Raymond’s Church no Bronx, Nova Iorque.

Sua autobiografia, Lady Sings the Blues, escrita com a colaboração do jornalista William Duft, foi lançada em 1956, a partir da qual foi feito um filme, em 1972, tendo Diana Ross no papel principal.

Chet Baker fez um disco em homenagem à cantora com Baker’s Holiday (Plays Billie Holiday), em 1965.

Em 1985,  a cidade de Baltimore homenageia Billie Holiday com sua primeira estátua.

Em 1987, Billie Holiday recebeu postumamente o Grammy Lifetime Achievement Award.

Em 1988,  U2 lança a canção tributo Billie Holiday com Angel of Harlem.

Em 1992, Miki Howard faz o papel de Billie Holiday em uma cena do clube no filme Malcolm X.

Em 1994, Etta James recebe o Grammy de Best Jazz Vocal Performance pelo álbum Mystery Lady: Songs of Billie Holiday

Em 18 de setembro de 1994, a United States Postal Service a homenageou  através da confecção de um selo comemorativo.

Billie foi introduzida no Rock and Roll Hall of Fame em 1997  e em 2000.

Em 1999, tem a classificação nº 6 em 100 Greatest Women In Rock n’ Roll. No mesmo ano a Time Magazine declara Strange Fruit, a canção do século.

Em 2002, a canção Strange Fruit é homenageada pela Biblioteca do Congresso como uma das 50 músicas a ser adicionada ao National Recording Registry.

Em 2004, Billie Holiday é introduzido no Ertegun Jazz Hall of Fame.

Em 2011, é empossada no National Women’s Hall os Fame

Em 2012, foi lançado no Brasil o livro Strange fruit: Billie Holiday e a biografia de uma canção, escrito pelo jornalista David Margolick, com tradução de José Rubens Siqueira,

Billie recebe o Gold Award for Best Leading Female Vocalist, da Revista Esquire, nos anos de 1944, 1945, 1946 e 1947.

Várias de suas canções foram introduzidas no Grammy Hall of Fame: em 1976, God Bless The Child; em 1978, Strange Fruit; em 1989, Love Man; em 2000, Lady in Satin; em 2005, Embraceable You e, em 2010, Crazy He Calls Me.

Ganha o Grammy Award for Best Historical Album por Billie Holiday – Giants of Jazz, em 1980; em 1992, Billie Holiday – The Complete Recordings Decca; em 1994, The Complete Billie Holiday; em 2002, Lady Day: The Complete Billie Holiday.

Da genialidade ao vício em heroína, cocaína, maconha e álcool, passando pelas desilusões amorosas, envolvimentos sexuais com homens e mulheres, miséria e prostituição, tudo foi incrivelmente rápido e superlativo na vida de Billie Holiday.

Ainda hoje, no seu centenário, é uma das maiores cantoras de todos os tempos, de todos os estilos, a maior da era do jazz.  Eterna Lady Day.

Fontes

Site oficial

Billie Holiday na wikipédia

Discografia

Os 100 anos de Billie Holiday e a tragédia de uma diva, por Homero Nunes 

Fotos de Billie Holiday 

Billie Holidaypor Paulo Roberto Elias 

Billie Holiday, por Sylvia Fol 

Billie Holiday: a dor que se fez música, por Wilson H. Silva 

Billie Holyday: a vida no fio da navalha, por Jorge Sanglard

Billie Holiday ao vivo, por Jota A. Botelho 

Billie Holiday: um corpo a serviço do gozo, por Julie Travassos Gallina

Billie e Lester: o melhor do jazz, por Andrea Mota

Entre dor e saudade, um feliz centenário para Billie Holiday, por Carlos de Oliveira 

Trajetória de Billie Holiday é lembrada em seu centenário, por João Máximo

Vídeos

Fotos

 Com Ella Fitzgerald no nightclub ‘Bop City’ de New York (1947)

 

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7 comentários

    • Disse tudo…  é daqueles

      Disse tudo…  é daqueles (as) artistas que,  do seu sofrimento, tira a força para criar uma obra que vai nos servir de consolo muitas vezes…

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