O encontro do negro com o italiano nos bairros da Barra Funda e Bela Vista, por Arthur Tirone

O Cordão da Barra Funda, em 1910, embrião da escola de samba Camisa Verde e Branco

Por Arthur Tirone, via Facebook

Enviado por Fernando J

Barra Funda e Bela Vista tem uma história muito parecida. A gênese dos dois bairros é uma: as notáveis manifestações negras aliadas ao predomínio italiano. Os cortiços, salões da raça, clubes sociais, associações futebolísticas varzeanas, galpões de ofícios e botequins foram o pano de fundo de um convívio que gerou frutos que afortunadamente ainda colhemos.

A Barra Funda se orgulha em ter gerado o Cordão da Barra Funda em 1914 com Dionísio Barbosa – que quatro décadas depois,… pelas mãos de Inocêncio Mulata, viria a ser a Camisa Verde e Branco -, o Largo da Banana, onde os negros jogavam a tiririca e faze batucada, o São Paulo Chic. A Bela Vista viu nascer de um time de futebol a Vai-Vai, em 1930, teve Pé Rachado e Chiclé, e os famosos bailes de porão, onde se dançava abaixado.

Bloco de carnaval na Barra Funda, em 1937

A rivalidade entre Barra Funda e Bela Vista é conhecida, estritamente pela disputa entre Camisa e Vai-Vai. E há, nessa história, ingredientes que fazem a fazem parecer um filme. Um evento de importância foi protagonizado pela grande dama do samba de São Paulo: Dona Sinhá, cria e orgulho da Bela Vista, de linhagem nobre do samba. Sinhá foi “roubada” pela Barra Funda por Inocêncio Mulata, com quem se casou, trocando a Vai-Vai pelo Camisa Verde – o que gerou grande burburinho.

Fico imaginando o furdunço que foi aquela novidade. Uma tragédia grega para a Bela Vista. Dona Sinhá foi a Helena de Tróia da Barra Funda. Mais tarde, seu filho Tobias – que estudou com meu tio no Marechal, Rua dos Italianos – viria a ser o grande presidente do Camisa e maior articulador do samba de São Paulo.

Tenho ótima relação com os filhos do Tobias. Especialmente, quero deixar registrada esta foto. Um samba no bar do Sinval, quarta passada, com a Simone Tobias – personalidade arretada, voz potente, baú de histórias centenárias, sangue azul do samba, a herdeira de Dona Sinhá. Na minha modesta opinião, legítima e consagrada grande dama do samba de São Paulo. Quando a encontro, volto nos tempos em que meu avô, com seu carroção de burros, parava para admirar a corriola fervendo no Largo da Banana. A Barra Funda não é brincadeira.

* Foto de Vanessa Stropp

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