O golaço de Perón, por Jota A. Botelho


Cartazes com o slogan da Campanha de Perón, 1946.
 

O golaço de Perón, por Jota A. Botelho

Jogada de mestre! Quando Perón saiu da prisão por pressões das massas trabalhadores, o simpático e risonho líder portenho, cujo sorriso e simpatia nos faz lembrar de JK, com uma jogada genial de um simples slogan de campanha Moro o Lula, perdón, BRADEN O PERÓN, galvanizou toda a nação e deu um verdadeiro nó nas forças conservadoras e reacionárias argentinas ganhando as eleições de 1946, tirando assim o país das garras iminentes da dominação e dos retrocessos. Na entrevista abaixo, Perón ironiza de forma sarcástica o embaixador norte-americano Spruille Braden pela sua interferência aberta e descarada no panorama político argentino, propondo que lhe seja erguido um monumento em homenagem à sua ajuda na vitória eleitoral daquele ano de 1946.  

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A CONSAGRAÇÃO DE PERÓN


A posse de Juan Domingo Perón, 1946.

Corria o ano de 1945. No final da Segunda Guerra Mundial o mundo contemplava uma mudança no eixo imperial: os Estados Unidos emergiu como a nova potência mundial, relegando o exausto Reino Unido a um papel mais discreto. Longe da diplomacia inglesa, Spruille Braden, embaixador norte-americano na Argentina, começou a intervir na política interna do país. A Argentina, a partir de uma posição soberana, havia iniciado um processo de substituição das importações, o desenvolvimento científico e tecnológico, a expansão do seu mercado interno, nacionalização dos serviços públicos, controle do comércio exterior e a implantação dos direitos sociais e trabalhistas. A nação começou também a pensar em si mesma, com uma indústria independente, trabalhadores com salários dignos e decentes, bônus e férias, alfabetização em massa e disseminação de ótimas escolas públicas. A classe média mais poderosa e homogênea da América Latina começou a ser estruturada.

O representante do poder imperial, Mr. Braden tomou partido da causa dos grupos econômicos que defendiam o regime agro-exportador argentino. Os partidos políticos tradicionais, os advogados das empresas estrangeiras, o livre comércio da burguesia começaram a forjar a reação contra as conquistas operárias consagradas no Ministério do Trabalho e Bem-Estar (Secretaría de Trabajo y Previsión). Em 19 de setembro de 1945, ocorreu a “Marcha da Constituição e Liberdade”, da qual Braden participou pessoalmente. A demonstração de forças deu resultado. Perón foi golpeado e retirado de seus cargos e levado para a ilha Martín García como prisioneiro.

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Em 17 de outubro, as massas invadiram a cena política tomando a Praça de Maio em protesto à liberdade de seu líder. Perón foi libertado pela mobilização popular e eleições livres foram convocadas para 24 de fevereiro de 1946. Braden, de sua posição estratégica como Subsecretário de Assuntos Latino-Americanos do Departamento de Estado, promoveu uma campanha contra o Movimento Nacional referenciado na candidatura de Perón. A Argentina ficou dividida: de um lado, a União Democrática, expressão política de um país semicolonial e, do outro, a Frente Nacional, de caráter anti-imperialista e representante das classes trabalhadoras e setores que lutaram para estabelecer as bases de um processo emancipador.

Perón sintetizou, em um discurso famoso, o dilema desse tempo: “Se por um desígnio fatal do destino triunfarem as forças regressistas de oposição, incentivadas e dirigidas por Spruille Braden, será uma realidade terrível para os trabalhadores argentinos em sua situação de angústia, miséria e opróbrio que o mencionado ex-embaixador pretende nos impor… o dilema nesta hora transcendental é: Braden ou Perón”.  E venceu as eleições de forma consagradora.
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Fonte: Parte do texto com traduçao livre e adaptada do Página 12/El Pais
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