O mercado brasileiro do livro

Por Alice Bicalho

Prezado Nassif, bom dia. Assisti ontem ao programa sobre mercado editorial. Achei a iniciativa muito interessante e infelizmente não fiquei atenta para poder participar antes. Sou mestre em teoria da literatura e, há alguns anos, trabalho com edição de livros. Minhas primeiras experiências foram com pesquisa, na universidade, depois, profissionalmente numa editora e de forma independente. Estou relativamente interada das questões do mercado editorial brasileiro, mas me sinto um pouco agredida toda vez que participo de palestras ou assisto programas sobre este tema.

Em primeiro lugar, me agride o modo como o mercado do livro, nas figuras de seus representantes (grandes editores, coordenadores de prêmios, “grandes” escritores) relacionam-se com a literatura como algo dado, não questionável e, pior ainda, como um produto tão simples de qualificação como uma roupa ou um carro ou mesmo um biscoito.

Ler e selecionar textos para serem editados não é tarefa simples. Se nos entregamos às pesquisas de mercado produzimos livros que serão muito consumidos, como outros produtos de massa. Se abandonamos estas pesquisas em função de uma leitura mais cuidadosa e crítica, corremos o risco dos tais “encalhes” que hoje são vistos como terrores pelos editores, mas sabemos que a história da literatura é recheada de “clássicos” (livros que continuam a fazer perguntas diferentes a homens diferentes em tempos diferentes) que outrora foram encalhes.

Cito estas duas situações como pontos de exemplo, mas a complexidade é ainda muito maior. Bem, fora esta questão que por si já seria fruto para muito trabalho intelectual, e que nunca vejo ser discutida, de forma séria, entre os profissionais da área; me angustio de ver o discurso dos profissionais do livro cheio de pompa, demonstrando que trabalhar nessa área é algo que não se ensina, que não há caminho a ser trilhado, que ninguém pensa na formação dos jovens editores como algo sério, porque esta profissão continua a ser o popomzinho de uma elite cultural que, detendo este poder, colabora para a difusão da leitura (não sem, claro, pensar nos lucros envolvidos nesta ação), do consumo do livro, e nunca da produção. Enfim, me desculpe se pareço um pouco rude, minhas questões são fruto de muita angústia profissional. atenciosamente. 

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