O restaurante Ca D’oro em São Paulo, marco de uma época, por André Araújo

Por André Araújo

Mais antigo que o Restaurante Massimo, de que já falamos, o restaurante Ca D´Oro foi o marco de uma era de prosperidade e elegância em São Paulo. Restaurante dentro de um hotel do mesmo nome, ambos foram abertos em 1953 pela familia Guzzoni, bergamascos que já traziam experiência de hoteis. Aurelio Guzzoni e seu filho Fabrizio tinham trabalhado no mítico hotel Savoy de Londres e no Lausanne Palace na Suiça, tiveram seu próprio hotel em Bergamo, o Grand Hotel Moderno e se mudaram para o Brasil no início dos anos 50.

O Grand Hotel Ca D´Oro foi, por muitos anos, o mais chic de São Paulo, hospedou os Reis da Espanha, os Reis da Suécia, Nelson Mandela e foi, por quinze dias, sede da Presidência da República quando o Presidente João Figueiredo esteve em convalescença de uma cirurgia. Foi o primeiro hotel com piscina em São Paulo.

O Restaurante era um clássico da cozinha do norte da Itália, mas era eclético, tinha pratos internacionais de grandes hoteis.

O famoso carrinho de antepastos, um célebre “bolito misto” servido um dia por semana, de sua cozinha comandada por Emilio Locatelli e Alberto Micheletti, que vieram da Itália com Guzzoni, saíram pratos que depois se espalharam por outros restaurantes. Da mesma forma, da cozinha e do salão sairam cozinheiros, maitres e garçons que depois foram os pilares de novos restaurantes, como o mítico maitre Atico, o maitre Piero e muitos outros que deram um upgrade na área da restauração paulistana, formando uma verdadeira escola de profissionais numa cidade onde ainda predominavam cantinas e que não tinha ainda o hábito de comer fora em grande estilo.

Tive um tipo Procurador veterano com fama de complicado e criador de caso. Em um domingo no Ca D´Oro deu-lhe vontade de comer camarão à baiana, prato que não tinha nada a ver com o Ca D´Oro, depois de longa discussão com o maitre Piero em italiano, e eu tentando dissuadi-lo dessa audácia, foi lhe servido um perfeito camarão à baiana, Piero foi desafiado e ganhou a parada, com um sorriso sardônico mostrou a que veio e o tio teve que elogiar o prato, até a pimenta estava certa.

O Hotel e o Restaurante foram demolidos para dar um lugar a um complexo de escritórios, apartamentos e hotéis e lá será inaugurado um novo hotel e restaurante Ca D´Oro, o projeto está a cargo da Brooksfield, novo nome da também mítica Brascan, a Brazilian Traction, Light and Power Co.Ltd., de Toronto, que chegou ao Brasil em 1890 para trazer eletricidade ao Rio e a São Paulo e cujo maior acionista Percival Farquhar também fez o primeiro hotel do Guarujá, o De La Plage.

O Ca D´Oro representou um padrão de elegância europeia tradicional na cozinha e no ambiente. Seu lindo e enorme bar de padrão londrino com piano de cauda era um dos “points” mais finos da cidade. O grande empresario, símbolo de São Paulo, Antonio Ermirio de Moraes, almoçava no Ca D´Oro vindo a pé de seu escritório na Praça Ramos de Azevedo, aos domingos era possivel ver grande número de clientes de terno e gravata (fala dos anos 70 e 80) tal a vestustez do cenário.

O Ca D´Oro foi e espero que voltará a ser uma referência de São Paulo, um tipo de símbolo que marca uma cidade.

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23 comentários

    • O Pandoro em Cidade Jardim em

      O Pandoro em Cidade Jardim em frente ao Bolinha( com reputação de ser a melhor feijoada de SP )

        O Pandoro micou. E o Bolinha não tenho mais informação.

      • O Pandoro era mais bar que

        O Pandoro era mais bar que restaurante, ponto de uma vasta fauna onde havia de tudo,  grande variedade de whiskies,

        otimos pasteis para companhar a bebida, alguns brokers e lobistas faziam ponto lá, ficavam horas. Fechou e lá começou o restaurante Girarrosto que durou uns cinco anos e tambem fechou não sei porque, era bom e bem frequentado, hoje o local está vazio, um ponto tradicional de São Paulo.

  1. No último post que André

    No último post que André Araújo falou sobre o Ca D’Oro ele afirmou que o pessoal da FIES levava o sindicalista Lula pra jantar lá.

    Antes que vcs me critiquem, essa foi de fato uma afirmação do André Araújo.

  2. Além do Atico e do Piero,

    lembro-me do maitre Ivo, pequeno, magrinho, uma classe ímpar. Era frequente, vermos o Antônio Ermírio entrar, sozinho, dirigir-se a uma mesa mais ao fundo, com seus ternos amarfanhados. Good old times!

  3. Outros

         Na cozinha toscana, um mais barato que o Ca d’Oro, era o “Carlino” – época que ficava na Vieira de Carvalho – cujo “Ossobuco de vitela com polenta ” empatava com o do Hotel, já em cozinha cantineira, a Balilla no gazometro e a pouco conhecida “1020” no Cambuci, eram muito boas ( quando em seus locais originais ).

          O Ca d’ Oro fez escola, como Gian Carlo Bolla que chegou a ser “maitre” lá, bem antes de criar o “La Tambouille”, outro que fez a escola das “cantineiras” foi o ainda existente Gigetto, onde trabalharam : Piero Grandi, Giovanni Bruno e o Bolla ( começou de cumim ).

           É possivel que AA, em próxima gastronomica história, escreva sobre o  “Rodeio”, da época do Ramom, mas o “original”, antes da criminosa invenção “novo rica – classe média”, cuja fumaça e cheiro empesteava o local : A famigerada picanha fatiada na mesa.

           E AA, as cópias atuais sempre dão errado, pois final do ano, me convidaram para ir ao “Novo Paribar “, continua na Galeria Metropole, pedi um “Filé a Narvik ” ( nos 70 – 80 era o “prato” de um hotel, a e´poca na Casper Libero ), ele não veio empanado com ostras, mas recheado com um molho chinês com base em ostras – horrivel.

    • Na Vieira de Carvalho ?
         Só

      Na Vieira de Carvalho ?

         Só o ALMANARA com suas esfilhas deliciosas–e toda comida árabe.

         Hoje, está escondida num mocó atrás da praça da república.

           E tinha tbm uma churrascaria de nome– mas era filial da filial da filial.

               Não ando mais por lá. —bandidos a granel.

      • No Arouche, apareça lá que ainda vale a pena
        Se não pela cozinha, vale pela recordação de tempos passados:
        La Casserole, cuisine de boa qualidade (minha opinião!) que anda dá o ar da graça pelo Arouche.

        A propósito, foi na Casserole que, há uns 2 ou 3 anos atrás, foi selado a retonada de amizade entre os ex-presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso, sob o atento olhar da escritora Nelida Piñon. A cola para a retomada dos laços fraternais: o endosso / apoio declarado de Sarney para o ingresso de Fernando Henrique a ABL.

        • Coq au Vin

            O melhor de São Paulo : La Casserole, a Marie ainda não “perdeu a mão” ( é chatinha ), nem foi se perder nos Jardins/Itaim.

             E atire a 1a pedra, os de 40 a 70 anos, que não levaram alguma “eleita” jantar lá, e pedir para o maitrê ou o porteiro, atravessar a rua, ir na Dora Flores, pegar umas rosas ou um arranjo floral, para entregar para a moçoila na saida do restaurante, mas quando o “caixa” ou o investimento “não valia muito a pena” , o local ( Lgo. do Arouche ) e a “armação” ( Dora Flores ) eram a mesma, só mudava o restaurante, do La Casserole, para o “Gato que Ri ” ( o dificil deste local era aturar as piadas do dono, o falecido Marcos Plonka ).

      • Anos ’80

        O Carlino original é de 1881, ficava na Vieira de Carvalho, quase esquina com a Pça. da Republica, mudou de lá nos 00, atualmente, parece que com a mesma familia – o cardápio é o mesmo – encontra-se em Higienópolis.

         E “Anarca”, vai dizer que vc.nunca esteve no “Rainha Vitória ” ?

        • Meu caro, Rainha Vitoria eu

          Meu caro, Rainha Vitoria eu não conheço mas posso fazer uma lista de algumas centenas que conheci, muitos otimos fecharam como Trastevere (Al.Santos), FLAG (Nove de Julho), Silvio (Av.Angelica), Belisco (Rua Caio Prado), Marques de Marialva (R.Haddock Lobo), Manhattan (R.Bela Cintra), o fantastico bar PLANO (R.Oscar Freire), o Anexo no predio da Dacon na Av.Europa,  de cada um tenho memorias.

          No Flag houve um barraco memoravel quando uma rica herdira de uma cadeia de supermercados jogou um prato de macarrão

          na cabeça de um dos ex-maridos, o Belisco foi o ultimo jantar dançante de São Paulo com orquestra, no mesmo local teve o Abril em Portugal.

          • Noblesse oblige

             Carissimo AA,  barracos da familia desta tal “herdeira”, foram varios ( das duas ), todos são muito nervosos, até a sobrinha desta “patronesse”, uma mulher simpatica, culta, bonita ( nada a ver com o Pai ), tb. é chegada em um “barraco”, Dona Floripes era uma “santa”, já o Valentim legou a prole, toda a sua grossura.

              E caro AA, ainda bem que nestes anos, não existiam estas famigeradas “redes sociais”, os “barracos” que sempre ocorreram, permaneciam apenas entre os participantes, agora tudo virou favela, “BBB”, uma tremenda pobreza de espirito, total falta de educação.

      • O Almanara tornou-se uma

        O Almanara tornou-se uma rede, a da Rua Oscar Freire é ampla e muito bem montada, essa que vc menciona é a primeira e mais antiga. A comida é produzida centralmente e redistribuida para a rede.

      • Comida libanesa de qualidade

        Comida libanesa de qualidade é no Brasserie Victoria.  Quando pequena meu avô me levava no restaurante da D. Victória, que era ali na 25.  Me lembro de conhecê-la, apresentada que fui pelo meu avô.  HOje está na Juscelino mas o que mais me agrada é a eterna constância dos pratos.  Lá vc sabe que o tabulê terá sempre o mesmo sabor delicioso assim como os outros pratos.  Não há surpresas.  Ca’d’Oro realmente marcou uma época.  Restaurante elegantérrimo onde a comida era deliciosa.  O Freddy no Itaim também era muito gostoso.  HOje parece que continua no itaim mas na Pedroso, não fui na casa nova.  O Danton francês também era muito gostoso pena que fechou. Sempre gostei muito do Rubayat e do Dinhos.  O Dinhos tinha uma feijoada deliciosa aos sábados. Para mim era até melhor que a do Bolinha.  O Rubayat junto com o Bassi sempre tiveram as melhores carnes de SP.  Rodeio antigo era bom hoje não sei a quantas anda. Dos italianos temos a Cantina Capuano, Roperto, Nello’s que serve uma comida bem honesta. Comida oriental eu gosto muito do Itidai na liberdade.  Restaurante indiano tinhamos o Govinda mas nem sei se ainda está aberto.  Outro que adorava era o  Suntory.  Um restaurante que guardo na memória foi da inauguração do Maksoud,  O La Cuisine du soleil, que foi onde vi pela primeira vez o esgargot. Mas não comi, claro. 

    • O RODEIO foi o primeiro

      O RODEIO foi o primeiro restaurante da região, é uma instituição, não tenho mais frequentado porque acho os preços muito altos e desproporcionais, especialmente nos acompanhamentos das carnes, é tudo cobrado a parte e eles carregam no preço da farofa, do arroz, do purê, os acompanhamentos dobram o preço da carne que tampouco é barata. Acho que não vale.

  4. Restairante frequentado TODOS

    Restairante frequentado TODOS os dias ( úteis) por Antonio Ermínio de Moraes. Ele ia a pé de seu escritório ao restaurante.

      Mas o que gostaria mesmo, A A , é que vc falasse sobre o LENDÁRIO restaurante Gigetto.

     A FAmiglia Mancini DOMINOU tudo . Dois restaurantes e uma pizaria. Até ladrilhou a rua Avanhandava,.

      O que vc tem a me dizer sobre isso ?

     

    • Meu caro, eu conheci o GIGETO

      Meu caro, eu conheci o GIGETO antigo, um casa no centro de um jardim na rua Nestor Pestana, era ponto dos artistas de teatro. Já quando mudou para a rua Avanhandava estive poucas vezes, não curtia os pratos pesados, carregados de milho e o cardapio ultra extenso, a comida era banal e sem brilho mas o local tinha um certo charme nostalgico. É uma pena tenha fechado, o predio outrora de bons apartamentos foi invadido no esquema de “moradia popular” incentivado por certo “movimento social” que é tambem uma grande imobiliaria, tudo sob o olhar tolerante da Prefeitura.

      Quanto à Familia Mancini nunca fui em nenhum dos restaurantes, abomino o circuito “turistico” de São Paulo ou de qualquer lugar do mundo.

  5. Conheçam

       Para os que apreciam a culinaria arabe, moram em São Paulo, um lugar que vale a pena é a “Casa LIbano”, fica na Barão de Ladário próximo a um Shopping de “atacado”, dominado por chineses, bolivianos e outros, pois alem da excelente comida e serviço, é uma experiência cultural, até religiosa, que mostra um pouco da tolerancia brasileira, pois :

        É um restaurante despretencioso, tipo lanchonete, que pratica a cozinha “halal” (muçulmana), o dono é um brasileiro/sirio cristão, a mulher dele é egipcia copta (cristã ), a chefe de cozinha é brasileira (baiana) convertida ao islamismo sunita, e nas sextas feiras, após as rezas, o local lota, com o pessoal que sai da Mesquita do Brasil (sunita) da Av. do Estado, mais as pessoas que saem da Mesquita do Pari (xiita ), que fica quase em frente ao restaurante – e não se matam.

         Não serve bebida alcoolica, mas peçam o café ” egipcio ” – um expresso “grosso”, temperado com cardamono, e percam o tempo conversando com o dono e a mulher dele.

    • Meu caro Junior, a comida

      Meu caro Junior, a comida arabe que conhecemos em São Paulo é essencialmente sirio-libanesa, a comida no Iraque não tem absolutamente nada a ver com a libanesa, a algeriana tampouco, são variações regionais tanto quanto a comida baiana não tem nada a ver com a comida do Rio Grande do Sul sendo ambas cozinha brasileira. Em Bagdah procurei algum lugar de esfiha e nem sabiam o que era, ao fim achei um restaurante de comida estrangeira, libanesa e lá tinha tuodo nosso cardapio. Come-se tambem excelente comida libanesa em Washington e as receitas variam menos do que a comida italiana, que nos EUA chega a ser algo diferente da nossa cozinha italiana, mas a libanesa é identica. A da Algeria é basicamente o cous-cous a base   de carneiro, que eu nem toco. Outra rica cozinha é a turca, lembra um pouco a libanesa, especialmene nas saladas.

      • Em Bagdah

          Faz tempo, mas no Iraque um engenheiro da MJ, encontrou um lugar, próximo a uma das varias pontes, que servia um tipo de pão, coberto com iogurte ( nada a ver com o nosso ), sobre um pão chato, que ele falava que era “esfiha”, só que ele abria este pão e colocava este iogurte ( rigido, tipo pasta ), com carne de carneiro, fortemente temperada com especiarias, uma porrada de pimenta, e tomate.

           Já em Israel, é muito louco, tem restayrantes que insistem que a comida arabe que é servida ( homus, babaganuch, Kafta ), é deles, oriunda das comunidades judaicas sefaradim do norte da Africa, até cous-cous de peixe é servido as sextas feiras ( shabat ), pensei que estava no Libano.

           Cozinha é cultura, saber se portar em uma mesa é fundamental, em certas culturas, seu interlocutor, possivel cliente, lhe analisa nestas ocasiões, vc. pode perder um negócio de milhões, por falta de compreender a cultura do outro.

  6. AA já tava sentindo falta
    AA já tava sentindo falta destes artigos,tenho uma sugestão!
    VC poderia fazer um artigo sobre Percival Farquhar e seus
    negócios á época de Getúlio Vargas!??Ele foi um grande empresário
    nesta época,se não me engano o.maior!

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