O seminário que trouxe Celso Furtado de volta para o debate nacional

Na palestra, Furtado falou da relevância dos fatores culturais, da importância das políticas sociais, com a visão multidimensional que sempre o caracterizou. Na mesa, via-se um Simonsen - geralmente irônico - em atitude educada, de respeito. O evento inaugurou a discussão econômica.

Em maio de 1979 fui contratado como pauteiro e chefe de reportagem de Economia do Jornal da Tarde. O JT era um centro de inovação muito amarrado pela empresa, especialmente devido à crise financeira que a assolava com a construção da sede na Marginal.

Passei também a escrever artigos econômicos. Para dar conta do recado escrevia à noite, quando chegava em casa. Minha esposa da época lecionava à noite e eu ficava tomando conta da Mariana, primeira filha, recém-nascida. Aproveitava para escrever os artigos.

Certo dia, recebo um telefonema de Alberto Morelli, assessor de imprensa, propondo um almoço com Abílio Diniz, presidente do grupo Pão de Açúcar. Foi no restaurante do Hotel Eldorado, no início da rua Augusta.

A conversa foi curiosa. Abílio tinha pretensões de fazer carreira na área econômica e, creio, ambicionava uma vaga no Conselho Monetário Nacional (CMN). No Pão de Açúcar, montara um departamento econômico respeitável, orientado por Luiz Carlos Bresser Pereira, e com economistas como Geraldo Gadernalli e Yoshiaki Nakano. No almoço, me fez uma proposta surpreendente. O país começava a se abrir, a ditadura fazia água, especialmente depois do aumento dos juros e do petróleo em fins de 1979. Sua proposta era montar um seminário internacional no Jornal da Tarde, inteiramente bancado por ele.

Não entendi nada.

— Mas eu sou apenas um jornalista de lá. Por que não fala com os Mesquita?

Disse que não tinha intimidade com os Mesquita e apreciava muito meus artigos. Saí de lá com a proposta para ser encaminhada ao jornal.

No JT procurei o Ruyzito Mesquita, primogênito de Ruy Mesquita, e comuniquei a proposta. A nova sede do jornal tinha um belíssimo auditório, muito pouco utilizado.

No dia seguinte apresentei um projeto para ele. O seminário seria no meio do ano seguinte. Durante alguns meses haveria uma página semanal, no Caderno de Variedades, discutindo os diversos temas nacionais. Seriam os textos preparatórios para o Seminário.

Sugeri uma miscelânea de nomes de diversas linhas, de Mário Henrique Simonsen a Celso Furtado. A proposta foi aceita e passei a trabalhar nela. Fiz uma proposta de um bônus mensal enquanto durasse o projeto, e foi aceita.

Nas semanas seguintes eu embarcaria para os Estados Unidos, a convite do Departamento de Estado para um mês de visitas. Como havia a garantia do bônus mensal, acertei levar minha esposa para lá na última semana – em que teria agenda livre.

De volta ao Brasil, Ruyzito me chama para conversar. Decidira transferir a coordenação do projeto para o José Eduardo Faria, advogado e editorialista do jornal. Ruyzito era a voz do dono. Passei um aperto para equilibrar o orçamento.

Semanas depois, vem a informação de que Faria considerara o projeto muito complexo e o jornal desistira de tocar. Fui ao Ruyzito e novo e perguntei se tinha autorização para tentar recuperar o projeto. Autorizou.

Fui então à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e conversei com o pessoal do Instituto Roberto Simonsen. Aceitaram participar do projeto. Retomei o contato com Abílio, que manteve a proposta de bancar. Levei o projeto ressuscitado para o Ruyzito. Para minha surpresa, Ruyzito transferiu a coordenação para Joao Sayad que, na época, dirigia a ANPEC (Associação Nacional de Pós-Graduação em Economia).

A estrutura do projeto foi mantida. E foi possível, pela primeira vez desde que se exilou, assistir Celso Furtado em um debate civilizadíssimo com Mário Henrique Simonsen – apenas atrapalhado pelas intervenções agressivas de Moyses Glatt, que atuava como uma espécie de empresário e guarda costas de Simonsen.

Na palestra, Furtado falou da relevância dos fatores culturais, da importância das políticas sociais, com a visão multidimensional que sempre o caracterizou. Na mesa, via-se um Simonsen – geralmente irônico – em atitude educada, de respeito. O evento inaugurou a discussão econômica. Deu voz para os jovens economistas que surgiam, como Luiz Gonzaga Beluzzo, João Manuel Cardoso de Mello. Mostrou consensos entre economistas de linhas diversas.

Em um dos intervalos do evento, encontrei no café Chico Mesquita – o responsável pela direção administrativa. Ele me disse então que sabiam que eu era o responsável, mas o Ruyzito me afastou para conseguir mostrar seu mérito para a família. Ruyzito era boa gente, mas muito inseguro nas relações familiares com a empresa.

Quando o evento acabou, na primeira reunião de pauta esperei a redação esvaziar para o almoço e fui até a mesa de Ruyzito. Disse-lhe que tinha trabalhado na Veja, que, sob José Roberto Guzzo, tinha um histórico amplo de desrespeito pelos jornalistas. Mesmo assim, nunca imaginei que seria mais destratado ainda no Estadão. Ruyzito arregalou os olhos:

– Bolei esse seminário. Você não teve a gentileza sequer de me procurar e oferecer convites para amigos, de me oferecer os livros, de me convidar para o almoço com os conferencistas. Acertamos um pagamento pelo meu trabalho, me endividei levando minha esposa para os Estados Unidos e levei um cano.

Depois do desabafo, fui para minha mesa esperando a ordem de demissão.  Não aconteceu naquele dia. No dia seguinte, nova reunião de pauta, Ruyzito de cabeça baixa. Acabada a reunião, redação vazia, ele veio até minha mesa.

– Depositamos uma quantia na sua conta.

E disse o valor. Respondi que não chegava nem perto do que havíamos combinado, mas o que eu queria era consideração mesmo.

Mostrando o padrão Mesquita, não houve retaliação pelo meu atrevimento.

 

 

 

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora