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O sentido da páscoa: uma reflexão para além da religiosidade, por Erivan Raposo

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O sentido da páscoa: uma reflexão para além da religiosidade, por Erivan Raposo

Enviado por Ion de Andrade

Luz sobre o Brasil atual

A festa mais importante para o cristianismo é a Páscoa, como é importante o Pêssach para os judeus. Em ambas, de toda forma, o sentido de passagem de uma condição de  opressão, na qual não se pode afirmar a própria identidade, por não ser livre, é um aspecto fundamental. A saída do Egito, mesmo que não tenha sido realizada do modo como a Torá (ou o Antigo Testamento) relata, não foi uma mera concessão do Faraó aos hapirus, mas resultado da intervenção de Iahweh, aquele que ‘ouve o clamor’ do povo e o liberta.

As pragas lançadas sobre o Egito e seu povo pode ser lida de muitas formas, até mesmo como ações do tipo guerrilha, mas o que importa é que a ultima ‘praga’ é a ‘passagem’ do anjo da morte, que faz sucumbir os primogênitos dos egípcios, a fim de que os (futuros) judeus tenham uma vida nova.

Interessante lembrar que esse amontoado de gente que ‘foge’ do Egito, enquanto o Faraó chora a morte de seu filho e os egípcios choram as de seus primogênitos, somente vai se tornar um povo depois de uma longa e sofrida caminhada, por anos, até que alcancem um lugar para chamar de lar (e não precisamos entrar na discussão do quão violento foi tomar posse desse lugar). Muitos não viveram para entrar na ‘terra prometida’, mas os que lá chegaram, moldados pela dura jornada, pelas dificuldades, pelas tentações de caminhos mais fáceis (retornar ao Egito, por exemplo), se transformaram em um povo.

Jesus, judeu, celebrava o Pessach com os seus – celebração que já devia ter cerca de 1200 anos, se estão certos os arqueólogos e estudiosos da bíblia e da Torá. Não é à-toa que Jesus escolhe o momento de celebração do Pessach para anunciar e sofrer sua paixão. Ele subverte a Pessach, que lembra um deus vingativo, que não hesita em matar os primogênitos dos egípcios, nem em matar os cananeus para dar posse aos (futuros) judeus. A terra prometida foi conquistada sobretudo com a violência, com o sangue dos cananeus.

A subversão se dá quando Jesus oferece-se para ser sacrificado, não mais para sacrificar outros. Deveria ser o último sacrifício, uma denuncia, se está certo René Girard, ao assassinato de inocentes, como sempre acontecia com os sacrifícios. “Esse é meu corpo (…), esse é meu sangue, que é derramado por vós para o perdão dos pecados”.  Que maior pecado há que matar um inocente?

Para além das crenças de cada um, sobre o sentido estritamente religioso que cada cristão ou judeu carrega consigo sobre esse momento chamado Páscoa, queria reter, para encerrar a reflexão, um sentido que é mais ‘filosófico’ (e um algo mais), lembrando, ainda, o que nos pode ensinar René Girard em seu “O Bode Expiatório”. Para ele, os homens, por seu caráter mimético, produzem e reproduzem, a partir do desejo, a inveja (do desejo e desejado pelo outro), num circuito que, em algum momento, leva a uma crise (mimética), na qual há um sentimento generalizado de vingança, na realidade, da certeza de que é necessário vingar-se de algo ou alguém, sobre o qual se coloca toda culpa pela crise (que é real, todos a sentem e ‘veem).

Os linchamentos são os melhores exemplos de como isso se dá. Não importa se uma pessoa ou uma coisa, hoje talvez uma instituição, é má ou tenha feito efetivamente algum mal. Na crise mimética, todos passam a acreditar que sim. É por isso que a turba não hesita em capturar e assassinar, violentar, destruir aquele ou aquilo que consideram o causador de todo o mal, o caos vivido pelo grupo. Participar do linchamento é catártico, a destruição do outro libera o desejo de vingança, abre-se a oportunidade de voltar à normalidade, de encerrarmos a crise.

O que é linchado não precisa ser um pervertido, um bandido, um criminoso, um ser depravado, culpado por muitos crimes, o que importa é que a horda, a turba, o grupo acha que é. Não raro mata-se o inocente. Acontece que, depois do assassinato, há um recurso interessante, de criar uma narrativa que transforme o linchamento em um ato heroico e o linchado em um ser abominável. Assim, a narrativa é repetida ad nauseam até que seja incorporada por toda a comunidade e o bode expiatório seja demonizado a tal ponto que todos acreditam que seu assassinato, em verdade, foi um sacrifício necessário para restaurar a ordem, trazer a paz, fazer a justiça.

Jesus, o Cristo, é um problema. Ele é a vítima inocente, mas sobre ele não se conseguiu produzir uma narrativa para torná-lo mau, portador do mal. Ele subverte definitivamente essa lógica e traz para o primeiro plano uma verdade dolorosa: Somos todos assassinos. Matamos todos os dias inocentes. Não é mais possível esconder esse fato. Matamos o inocente e libertamos, muitas vezes, o violento, o mal, sem nenhum constrangimento.

Vivemos uma crise terrível no país. Parte dela advém de uma crise econômica de nível global, mas a parte mais importante, e que mais impacto traz sobre nossas vidas, é a crise política, alimentada diariamente por pessoas, instituições, e pelos responsáveis em pautar a Opinião. Dissemina-se uma narrativa que praticamente nos exige vingança, nos direciona a alvos que podem ser sacrificados, porque representam o mal, são a causa de todos os males (não importa que nem saibamos nomeá-los ou explicá-los, nem que facilmente, em condições normais, reconhecêssemos serem de origem e vigência muito mais antiga, talvez mais velhos que nós).

Todos os dias esse processo se apresenta entre nós. Mais recentemente, o assassinato da vereadora negra, de esquerda, Marielle Franco, nos deu exemplo de como agem os assassinos. Marielle foi um bode expiatório, precisava ser sacrificada, alguém precisava. Em seguida, mas imediatamente, iniciou-se o processo de desconstrução da pessoa e de sua história. Tentaram transformá-la em algo ruim, ‘do mal’. Ela morreu, pela lógica sacrifical que a crise mimética aciona, porque representava o que, na realidade, ela combatia, a violência, o preconceito, a desigualdade….

Não conseguiram fechar o ciclo, não conseguiram criar um mito negativo, que diabolizasse Marielle Franco, mas conseguem todos os dias com outros. Agora mesmo, latifundiários em todo o país, assassinos de índios, negros e camponeses de todas as cores, diabolizam o MST, a CPT e qualquer um que seja solidário à luta do homem do campo, que denuncie e lute contra a violência no campo, que almeje uma reforma agrária. E os exemplos se multiplicam.

O processo em curso, que talvez surpreendesse até René Girard, nos levou a diabolizar o outro, por sua discordância quanto ao que estamos vivendo. Essa discordância, nos diz a narrativa ‘oficial’, é que provoca a permanência do ‘caos’. Esse outro, agora diabolizado, satanizado, é a ignorância viva, ignorância que pode impedir que façamos o sacrifício derradeiro e nos livremos dessa crise. A resistência em compreender e em ceder, permitindo o sacrifício, deve ser vista como um crime, uma adesão ao mal, o que autoriza sacrificar também esses ignorantes. Por isso, não há mal algum em persegui-los, marcá-los, violentá-los, execrá-los, expulsá-los, humilhá-los, mata-los, enfim. São indignos. São culpados por ‘tudo que está aí’.

Exagero? Não creio, infelizmente.

Espero que o outro lado não comece a ver o mesmo, mas, ao contrário, faça como Jesus, que renunciando à violência, sem renunciar à denuncia, torna possível a ressureição. Não é necessário, de fato, assassinar o inocente, há outra alternativa, há um caminho mais digno e mais efetivo, caminho que coloca a vida em primeiro lugar. Não é menos doloroso, mas é mais glorioso. Ele não promove a morte, mas a denuncia do assassinato do(s), da morte. Promove a vida e convoca a todos a tê-la em primeiro plano.

Que essa Páscoa nos permita, sejamos cristãos ou não, religiosos ou não, ponderar sobre o sentido maior de viver com os outros, no desafio de lutar pela vida, apesar de tanto desejo por promover a morte.

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1 COMMENT

  1. muito bonito e deveras importante

    nosso sistema de nexos precisa urgentemente deixar de ser o mesmo de um campo de batalha

    Pretendem fazer um filme político com a gente, brasileiros, e querem as ruas como estúdio

    ( mecanismo )

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