O trabalhador precarizado vai ao Paraíso em “Sorry to Bother You”, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Uma surreal comédia de humor negro com realismo fantástico e ficção científica inspirado no mundo do telemarketing. “Sorry to Bother You” (2018), filme de estreia de Boots Riley, pode ser tanto o momento atual como aquilo que nos espera em um futuro muito próximo: modernos trabalhadores precarizados que viram máquinas cognitivas de vendas sem quaisquer garantias ou direitos. Cassius Green é um jovem excluído negro que descobre a chave para a ascensão corporativa na RegView, a gigante do telemarketing: encontrar a “voz de branco” interior. Mas tal como “Fausto”, de Goethe, o Diabo vai cobrar algo de volta – algo assustador e surreal que definitivamente fará o protagonista cair “na real” e perceber o cenário entorno.

O filme italiano A Classe Operária Vai ao Paraíso (1971) foi emblemático dentro da cinematografia política daquela década. A trajetória de Lulu (Gian Maria Volonté), um operário de alta produtividade e alheio ao sindicalismo, que via nos objetos de consumo o prêmio pela sua dedicação aos patrões, era o sintoma da grande mudança tecnológica do capitalismo naquele momento: inovações na qual o homem deveria se adaptar à máquina para aumentar a produtividade – a tal ponto que Lulu passa a ter uma relação fetichista e até erótica com as máquinas.

Quarenta e sete anos depois, o filme Sorry to Bother You (“Desculpe por Incomodá-lo”, 2018), nos apresenta uma narrativa análoga ao filme clássico italiano: um trabalhador de alta produtividade, apegado à meritocracia e alheio a qualquer forma de luta coletiva por direitos, é aos poucos forçados a ver finalmente a injustiça ao seu redor. 

Mas agora, o cenário político e tecnológico do capitalismo é completamente diferente: não há mais um partido político, como o Comunista italiano, um Estado que garanta direitos trabalhistas ou proteção social, e há também uma grande massa de desempregados cuja única saída é o trabalho precarizado em telemarketing ou aceitar as condições de trabalho escravo de uma empresa chamada “Sem Preocupação” (“WorryFree”) – uma gigante corporativa que agencia mão de obra farta e barata para empresas de telemarketing e fábricas: em troca, garante alojamento e alimentação precárias em alojamentos padronizados para os “escravos-colaboradores”.

 

 

Saga faustiana

Na mídia, a WorryFree vira um estilo de vida glamourizado pela MTV, enquanto na TV crescem programas de gincanas e prêmios nos quais o participante tem que se humilhar primeiro (p.ex., ser espancado ao vivo por uma gangue) para ganhar o prêmio depois… se sobreviver.

 Sorry to Bother You é uma saga faustiana embalada em distopia e humor negro: um homem que vende sua alma para o sucesso acreditando que sua ascensão meteórica na empresa de telemarketing RegView nada mais é do que um prêmio pelo esforço pessoal de um jovem negro que tinha tudo para se tornar alguém excluído do sistema – aquele que nem mais para ser explorado o sistema tem interesse.

Mas tal como na fábula “Fausto”, de Goethe, o Diabo vai cobrar algo de volta – algo assustador e surreal que definitivamente faz o protagonista cair “na real” e perceber o cenário entorno.

 Se todo filme é um documento do espírito de uma época, Sorry to Both You é um retrato irônico e cínico desse espírito de regressão generalizada de início de século: se no filme político clássico italiano o homem se transforma em mero apêndice da máquina para unicamente amá-la e aumentar sua produtividade, no século XXI as máquinas já nem precisam mais do homem. Reconfigurado, agora o homem tem que se transformar numa máquina cognitiva para vender aquilo que a tecnologia produz. E nessa nova forma de exploração “soft”, o operário se transforma num indivíduo “livre” de seus direitos e garantias sociais. Sem saber o que perdeu, poderá pular de cabeça no sistema sem culpas.

 

 

O Filme

Cassius Green (Lakeith Stanfield) é um desempregado negro que mora em uma garagem sublocada pelo seu tio, com sua namorada Detroit (Thessa Thompson), uma aspirante a artista plástica que nada consegue, a não ser bicos para girar placas de ofertas nas esquinas. 

Para começar, os nomes dos protagonistas já são irônicos: ele, uma mistura de lutador Cassius Clay, que batalha para conseguir “verdinhas”, dólares; e ela, a cidade industrial norte-americana em ruínas cuja indústria automobilística acabou, deixando o desemprego e a desesperança como heranças.

   A sequência de abertura já mostra para quê Sorry to Bother You veio – numa entrevista de emprego em uma vaga de telemarketing na RegView percebemos que Green parece pouco qualificado. De imediato, o entrevistador fareja que o entrevistado falsificou o currículo. Mas pouca importa! Afinal, a tentativa de enganar o entrevistador demonstra que: (a) Cassius Green tem “espírito de iniciativa”; e (b) sabe ler e escrever.

Se sabe ler, obedecerá a única regra da RegView: “siga o roteiro!” – um conjunto de regras de como persuadir e seduzir incautos a adquirir produtos inúteis pelo telefone. 

O trabalho é duro, estressante, e as metáforas de abordagem ao consumidor são violentas e beligerantes – você tem que “marcar” e “ensacar”, assim como se faz com cadáveres em necrotério. As reuniões “motivacionais” da RegView são verdadeiras aulas sobre o novo espírito do capitalismo pós protestantismo weberiano.

 

 

Sem conseguir resultados e sem grana para pagar suas contas, Cassius Green ouve um conselho do seu amigo de trabalho chamado Langston (Danny Glover): ele precisa encontrar sua “voz de branco” interior – uma voz que passe a impressão de que ele não precise daquilo para viver, de que Cassius Green é apenas um vendedor “descolado”. 

É o momento da aliança faustiana com o Diabo: rapidamente Green começa a subir a escala corporativa, para se transformar num “Power Caller”, com elevador próprio e, ao invés das estreitas baias num escritório coletivo, uma confortável sala pessoal.

Paralelo a tudo isso, cresce o movimento da “Facção do Olho Esquerdo”, movimento de protesto terrorista contra o método de escravização soft da WorryFree – cujo proprietário, Armie Hammer (Steve Lift), tem o apoio midiático com presenças no programa da Ophra Winfrey (bom!… sabendo-se que ela já deu visibilidade até para o João de Deus…) e coberturas jornalísticas na MTV.

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