“Onde Está Segunda?” faz elogio subliminar do controle populacional, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Em sua época, filmes distópicos como “Farenheit 451” (1966) e “Planeta dos Macacos” (1968) foram denúncias de como a sociedade estaria próxima de futuros sistemas totalitários. Hoje, esse subgênero sci-fi entregou-se à crítica moralista, ao maniqueísmo e a pura propaganda subliminar da agenda científica dominante. A produção Netflix “Onde Está Segunda?” (What Happened to Monday, 2017) é o exemplo mais flagrante: em um futuro próximo no qual a explosão populacional levou ao esgotamento dos recursos do planeta e os alimentos transgênicos salvaram a humanidade da fome, a Natureza veio cobrar seu preço – o efeito colateral dos alimentos geneticamente modificados foi o explosivo nascimento de gêmeos, agravando o problema populacional. É criada a “Lei de Alocação Infantil”: cada casal pode ter apenas um filho. Os irmãos excedentes são confinados em ambiente criogênico. E os cidadãos são submetidos a vigilância implacável de uma agência. O filme deixa a tese do controle populacional fora de qualquer crítica. A Ciência chega ao Poder numa política de terra arrasada, sem qualquer discussão ou questionamento. Congelar crianças (pobres) excedentes? OK! O problema é apenas a cientista vilã que gerencia o processo: corrupta, má e ambiciosa. Filme sugerido pelo nosso leitor Dudu Guerreiro.

Como o leitor do Cinegnose deve ter observado, dentro do gênero ficção científica o blog faz uma distinção entre filme distópicos e hipo-utópicos. No primeiro, temos visões do futuro sobre estados, sistemas totalitários ou tribalizados normalmente resultantes de cenários pós-apocalípticos – 1984O Livro de Eli etc. Enquanto no segundo, o futuro guarda uma estranha similaridade com o presente, a não ser pelos desdobramentos hiperbólicos das mazela sócio-econômicas atuais – a série Black Mirror, série brasileira 3%Distrito 9, o original Robocop etc.

Esse subgênero, também chamado pelos estudiosos como “ficção científica do Sul”, são filmes extremamente críticos, porque chamam atenção dos problemas atuais, carregando nos tons e projetando no futuro. Ao contrário, as distopias tendem atualmente ao clichê e narrativas onde a ação se sobrepõe ao roteiro. E, o que é pior, tendem a um papel ideológico ao suspender qualquer visão crítica sobre o presente. Como se o filme fosse uma advertência moralista do que ocorrerá se a humanidade não tiver “consciência”.

A produção original Netflix Onde Está Segunda? (2017) é um exemplo bem didático  de como a ficção científica atual está dividida entre esses dois subgêneros: o filme até inicia com uma atmosfera que lembra Black Mirror (até onde a tecnologia atual poderá nos levar) e a estética tech noir de Blade Runner (chuva, o high tech misturado com ruínas).  

 

Porém, o bom conceito inicial se transforma num simples veículo para a atriz Noomi Rapace mostrar suas habilidades físicas como uma estrela de ação (como exibiu em Prometeus) e o filme, de sci-fi, acaba em mais um filme de ação e perseguição – que de resto é o que melhor a indústria do entretenimento dos EUA faz.

Onde Está Segunda? Tem tudo o que se espera de uma distopia: a Terra pós-apocalipse (uma catástrofe ambiental provocada pelo efeito estufa e explosão populacional deixou o planeta desértico e sem alimentos) e um Estado totalitário na qual a vigilância eletrônica biométrica controla a vida de cada cidadão. E como a Ciência, através de alimentos transgênicos, salvou o dia. Mas resultou numa legislação ditatorial que proíbe que os casais tenham mais de um filho.

Mas embora a produção Netflix se envereda em questões ética e morais do progresso da Ciência (até onde ativistas e cientistas podem ir na defesa da agenda ambiental), o filme reduz tuto ao tema ao clichê da irracionalidade humana – quem é “irracional”, cara pálida! A “humanidade” ou uma elite predatória?

O que transforma a mensagem de Onde Está Segunda? em alerta moralizador para o futuro, e não o questionamento do presente. Como faz Distrito 9 ou a série brasileira Netflix 3%

O Filme

Tudo se passa em um futuro próximo, em 2073, no qual o mundo está em crise após uma catástrofe climática que deixou o planeta desértico e sem alimentos. O alimentos geneticamente modificados acabaram se tornando a solução para a sobrevivência humana. Porém, a Natureza cobrou um preço: um aumento drástico de nascimentos múltiplos. Gêmeos idênticos que acabou só piorando o problema.

Um cientista e ativista ambiental, Nicolette Cayman (Glenn Close), se interpõe politicamente a consegue que o Estado (a Federação Europeia) encampe sua iniciativa e deixe o sistema político nas mãos da Ciência: a “Lei de Alocação Infantil”. Um eufemismo para obrigar as famílias a terem apenas filhos únicos. Filhos “indesejáveis” são “alocados”, quer dizer, colocados em crio-congelamento – crianças mantidas em animação suspensa até que os problemas do mundo sejam solucionados.

 

Esse é o momento Black Mirror do filme, explorando um ótimo conceito que tem muito a ver com o presente: vemos uma massiva campanha publicitária com sugestivos slogans (“juntos venceremos” ou “Com criogenia garantimos que o seu filho dormirá em paz”) que são eufemismos para dourar a pílula de um sistema totalitário. Mas tudo de passagem, como um cenário para a ação.

É nesse ambiente que o avô Terrence Settman (William Dafoe) tem netos septetos e vê sua filha, Karen Settman, morrer no parto. Ele sabe que está com sérios problemas e, com a ajuda de um médico, ilegalmente esconde os sete bebês em sua casa. São todas meninas, que recebem o nome de cada dia da semana.

Percebemos que isso faz parte de um plano magistral: gêmeas idênticas, cada uma só poderá sair de casa no dia da semana do seu nome. E todas devem compartilhar uma única identidade: Karen Settman. Dentro de casa, cada uma pode expressar sua própria personalidade – Noomi Rapace interpreta as sete personalidades bem diferentes: uma tímida hacker, a outra sexy, uma hippie, uma irmã agressiva e adepta do kickboxer e assim por diante.

Outro tema interessante que o filme deixa para trás para ser sobreposto mais tarde pelas cenas de ação: a clivagem psíquica entre público/privado e o tema da identidade: Karen Settman encena publicamente um papel que é a soma de diversas “eus” das sete irmãs. Assim como o nosso psiquismo para a psicanálise Junguiana – a junção dos diferentes arquétipos.

Karen Settman trabalha num importante banco da Federação Europeia. Secretamente, as sete irmãs fazem um trabalho de equipe para que ela seja promovida a um importante cargo gerencial. Até que esse dia chega, no dia de Segunda desempenhar o papel de Karen. Segunda sai para o trabalho para não mais voltar. 

Isso as leva as irmãs terem que descobrir o que aconteceu com Segunda, obrigando-as excepcionalmente a saírem de casa até serem perseguidas pela Agência de Alocação Infantil, uma instituição que se tornou numa espécie de Gestapo: busca e captura irmãos escondidos por famílias desobedientes.

 

Ação sem premissa

Logo o espectador perceberá que, para a Agência, as sete irmãs Settman que se tornaram adultas são muito mais do que um caso embaraçoso no suposto descuido da vigilância: há algum esquema de corrupção envolvendo a ativista Nicollete Cayman, a Agência e o maior banco da Federação Europeia no qual Karen Settman foi promovida.

A partir desse ponto, o filme parece esquecer todas as suas premissas filosóficas e existenciais para se transformar num thriller de perseguição – assim como o detetive Deckard perseguindo o replicante Roy na noite chuvosa em Blade Runner. Mas sem o questionamento existencial de Roy. Em Onde Está Segunda? tudo vira pura ação, tiros e murros. 

Outro problema de Onde Está Segunda? está no evidente maniqueísmo próprio das distopias. Que rapidamente se transforma em propaganda ideológica – no caso, tomar a questão da explosão populacional como item da agenda ambiental, resvalando numa perigosa ambiguidade que parece até justificar a Gestapo de congelamento de crianças: a ideia até poderia ser boa! Não fosse a corrupta cientista Nicollete Cayman.

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4 comentários

    • (Nao adianta, Marcio:

      (Nao adianta, Marcio:  qualquer comentario curtinho entra.  Eh so os pensados e elaborados que nao entram.  Unico blog do mundo onde isso acontece.)

  1. O Malthusianismo, a Eugenia,

    O Malthusianismo, a Eugenia, o Racismo Científico. Tudo isso está bem vivo nos corações e mentes da ciência da elite mundial nos EUA e Europa. Toda uma agenda, milhares de ONGs, centenas de Think Tanks trabalham diuturnamente para que haja um controle populacional o mais centralizado possível.

    Lembro da Ministra de Saúde da Noruega ou Finalândia alertar para os riscos da vacinação em massa. Uso abusivo de contraceptivos com efeitos colaterias enormes mas jamais discutidos. Lembro também da campanha dos Rockfeller na ìndia com esterilização em massa de milhares de mulheres em condições de higiene deploráveis. Navios com ONGs viajam o mundo esterilizando mulheres pobres.

    Culturalmente, vemos que parte da população sucumbiu às narrativas catastróficas. Vários casais decidiram nem ter filhos, a maioria fica no filho único. E o discurso é o mesmo. A Terra não suportará esse povo todo.

    O fato é que cientistas sérios e independentes não concordam com essa tese malthusiana racista, colonialista e ultrapassada. Como diria um prof. de Geografia de Lausane na Suiça, a Terra é bem sólida para abrigar mais de 20 bilhões de seres humanos.

    Há uma narrativa sórdida amparada por cientistas oportunistas quanto a capacidade da Terra e visa meramente a imposição da visão dos que hoje governam o mundo.

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