Os 300 Anos de Minas culminam com descoberta de obra do Aleijadinho em Rio Pomba, por Franklin Jr.

A obra do Aleijadinho é um ícone da brasilidade, da arte nacional, na visão do modernista Mário de Andrade

Restauro da estátua de São Manoel, obra atribuída a Aleijadinho - Fonte: facebook.com/riopomba/posts/3779018265462404

Os 300 Anos de Minas culminam com descoberta de obra do Aleijadinho em Rio Pomba, por Franklin Jr.

A confirmação da autoria do Aleijadinho equivale a “descobrir uma nova escultura de Michelangelo na Itália”, disse um tarimbado conhecedor da história e da arte mineira e brasileira, Angelo Oswaldo de Araújo Santos (ex-presidente do IPHAN e do IBRAM, do então Ministério da Cultura, ex-Secretário de Cultura de Minas Gerais e prefeito eleito pela quarta vez em Ouro Preto).

A peça em questão, cujas evidências apontam para a lavra de Antônio Francisco Lisboa, corresponde à estátua de São Manoel, o santo padroeiro da cidade mineira de Rio Pomba, fundada em 1767 com o nome de “Freguesia do Mártir São Manoel do Rio da Pomba e Peixe dos Índios Coroados e Coropós”, pelo então padre Manuel de Jesus Maria.

A constatação de que a escultura é obra do gênio do barroco mineiro, Antônio Francisco Lisboa (o Aleijadinho), adveio do trabalho de restauro efetuado pelo historiador André Colombo e o restaurador Valtencir Almeida dos Passos, que também estão recuperando outras quatro esculturas sacras de um outro importante artista mineiro, Antônio Benedito de Santa Bárbara (séc. XIX), pertencentes à paróquia de Rio Pomba (duas dessas obras de arte aparecem na cena final, a procissão do encontro e os milagres, do filme “O Viajante”, do consagrado e saudoso cinemanovista Paulo César Saraceni – ver neste link: https://youtu.be/3Pe7hGKtFro?t=85).

O achado dos restauradores foi lastreado por laudo realizado pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo, que comprova que a matéria-prima utilizada na escultura é o cedro, “usado por Aleijadinho em suas talhas e esculturas”, e corroborado por outros especialistas em obras do Aleijadinho, a exemplo de Carlos Magno Araújo, de São João del-Rei, que disse, em entrevista para a revista Época, que “a restauração foi trazendo à tona a verdade escondida há 250 anos sob camadas de pintura, foi tudo muito impactante […] é uma imagem de Aleijadinho, e da melhor fase dele. […] a imagem de São Manoel é extremamente leve. Acredito que é do apogeu dele como artista, num momento ainda com saúde. O santo tem uma virilidade impressionante, com uma musculatura anatômica muito bem resolvida. Ao mesmo tempo, ele é sereno, sem o peso das imagens do final de sua vida, impregnadas até mesmo de dor”, afirmou, a respeito do ineditismo da obra.

Também para a reportagem da revista Época, André Colombo relata que “a imagem de perfil é inconfundível. Depois que ela já estava com a gente, olhei para a sombra na parede e era um profeta de Aleijadinho de Congonhas”. Em outra matéria, do jornal “Estado de Minas”, Colombo explica que a “remoção da tinta trouxe evidências que permitem a atribuição da peça a Aleijadinho. Há o cabelo bipartido com movimentação e mechas em vírgulas, que caem na frente das orelhas; os ombros atrofiados; os olhos arregalados; o nariz alongado com ‘montículo’ na ponta; as linhas geométricas do drapeado da veste; a proporção das mãos, o formato das unhas e a posição em ângulo dos pés”.

A imagem de São Manoel, o santo da “paciência”, em trabalho de restauração. Foto: Lêda Bárbara Soares/Época A imagem de São Manoel, o santo da “paciência”, em trabalho de restauração. Foto: Lêda Bárbara Soares/Época

A obra do Aleijadinho é um ícone da brasilidade, da arte nacional, na visão do modernista Mário de Andrade (apud SILVA, 2016): “o Aleijadinho coroa como gênio o maior período em que a entidade brasileira age sob a influência de Portugal […] Aleijadinho é a solução brasileira da colônia. É o mestiço e é, logicamente, a independência, abrasileirando a coisa lusa, lhe dando graça, delicadeza e dengo na arquitetura”. O artista plástico baiano, Emanoel Araújo (apud SILVA, 2016), enxerga a presença africana na obra do escultor mineiro: “de onde poderia vir senão da África aquela força expressionista contida na força das obras de Aleijadinho, a sua escultura reducionista, geométrica, talhada com energia angulosa à maneira dos escultores nigerianos”. Renato Araújo da Silva (2016) vê numa mestiçagem não biológica, mas cultural, o diferencial do barroco rococó aleijadiniano: “uma arte que tem recursos estilísticos europeus, ibéricos, mas também recursos estilísticos africanos se ali infiltravam” pela via “de aprendizagem diário de oficinas, de técnica, de reflexão, de reprodução, de visualizar a imagem”.

História: a relação do padre fundador de Rio Pomba com o gênio do barroco mineiro

Manuel de Jesus Maria (o padre a serviço da igreja e dos governos das então Capitania de Minas e império português) e Antônio Francisco Lisboa (o gênio do barroco mineiro), tinham em comum não apenas as origens étnico-culturais (ambos eram filhos de mulheres africanas escravizadas e pais portugueses), como o local de nascimento (Ouro Preto) e a contemporaneidade setecentista.

Filho natural da angolana Maria de Barros com o português João Antunes, Manuel de Jesus Maria nasceu na antiga freguesia da Casa Branca, atual distrito de Glaura, em Ouro Preto, no ano de 1731, enquanto que Antônio Francisco Lisboa igualmente nasceu em Ouro Preto (na então freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias), em 1738, sendo também filho natural da africana Isabel e do mestre de obras e arquiteto português Manuel Francisco Lisboa. A proximidade entre Manoel de Jesus Maria e Antônio Francisco Lisboa teria se dado quando o primeiro exercera a função de sacristão na igreja de Antônio Dias, a mesma em que o pai do Aleijadinho trabalhava como mestre de obras, carpinteiro e arquiteto.

Na vida adulta, quando Manuel de Jesus Maria já havia fundado a Freguesia do Rio Pomba e desbravava a região então conhecida como os “Sertões Proibidos do Leste Mineiro” ou “Mata Proibida” (atual Zona da Mata, correspondente à seção do Caminho Novo da Estrada Real), e Antônio Francisco Lisboa já atuava como arquiteto e escultor, este chegou a medir o risco e propor ampliação da capela-mor de Rio Pomba, no ano de 1771, a pedido do então pároco Jesus Maria [documento este que indica que o Aleijadinho também atuava como arquiteto e integra o acervo do Arquivo Público Mineiro, disponível para consulta neste link: http://www.siaapm.cultura.mg.gov.br/modules/brtacervo/brtacervo.php?cid=188]. É bem possível que a escultura do São Manoel, padroeiro de Rio Pomba, tenha sido realizada pelo Aleijadinho no mesmo período, também por solicitação do padre Manuel, provavelmente lastreada pela relação de camaradagem estabelecida entre eles desde o convívio na infância e adolescência em Ouro Preto.

Documento da medição do risco da capela-mor de Rio Pomba por Aleijadinho (1771) – Fonte: APM Documento da medição do risco da capela-mor de Rio Pomba por Aleijadinho (1771) – Fonte: APM

São essas, dentre inúmeras outras histórias, que compõem o repertório de 253 anos de fundação de Rio Pomba, uma ‘pedrinha miudinha’, célula amostral da complexa e dramática tessitura histórica de Minas, do Brasil e da América Latina, espécie de “Aleph” (analogamente à narrativa do escritor Jorge Luis Borges: “o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do orbe, vistos de todos os ângulos”). Mesmo sendo fundada pelo filho de uma africana escravizada, em pleno século 18, Rio Pomba foi também cenário do carrego colonial (lastreado no racismo, no patriarcado e na mais-valia) e de toda a sorte de arbitrariedades incididas, principalmente, contra os povos diaspóricos da África negra e os povos originários ameríndios (em especial, os Puris, os Coroados, os Coropós e os Bocayús), aldeados e reduzidos pela cruz e a espada.  

Tombamento, turismo e segurança: desafios e possibilidades para o ano que se inicia

Ainda que de maneira marginal, Rio Pomba já figurava no espectro do legado do Aleijadinho, em função do risco da capela-mor feito em 1771. Agora, no entanto, com a eventual confirmação de autoria da escultura do santo padroeiro da cidade, Rio Pomba estará inserida no prestigioso circuito de obras do gênio setecentista ouro-pretano, alargando o potencial turístico do pequeno município mineiro, situado nos contrafortes da Serra da Mantiqueira. Fortalecerá, ressignificando, inclusive, o circuito regional de bens histórico-culturais, a exemplo do próprio museu histórico de Rio Pomba, o de Visconde do Rio Branco, o de Rio Novo, o de Ubá (Ginásio São José), dentre outros.

Conforme noticia o jornal “Estado de Minas”, “o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural de Rio Pomba já providenciou o tombamento da imagem de São Manoel e está encaminhando o pedido ao Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha)”.

Contudo, com o retorno da escultura restaurada ao município, espera-se que medidas efetivas de segurança (tais como instalação de sistema de alarmes, vídeo-patrulhamento, vigias etc.) sejam providenciadas, dada a excepcionalidade da obra, cuja importância extrapola fronteiras, é de magnitude internacional, requerendo atenção também do Iphan e até mesmo da UNESCO, principalmente nesta dramática conjuntura, em que o país vive sob os desígnios do autoritarismo e do ataque à soberania, inclusive à cultura nacional.

Tais medidas se tornam ainda mais relevantes devido à reincidência de furtos e extravios de artes sacras do município, que já perdeu um altar inteiro da igreja do Rosário dos pretos (vendido pelo padre à época, anos 80), assim como a escultura de Nossa Senhora do Rosário (que depois de vendida, porém, foi resgatada pela comunidade e restaurada pelo Iepha), dentre outras situações que requerem máximo cuidado. O Ministério Público de MG, ademais, lançou em 2018 uma campanha para o resgate de peças sacras, são “734 peças desaparecidas, a exemplo de imagens de santos, castiçais, sinos, pedaços de altares e outras. Na lista, com objetos desaparecidos desde 1848, há muitas atribuídas a Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho”. Mas também há bons exemplos de proteção, como a instalação de chips de segurança nas obras de arte sacra da Catedral de Puebla, no México, ou o da Catedral da Sé, de São Paulo, que dispõe de sistema de câmeras e seguranças dia e noite para a proteção de peças sacras.

Referências

Obra desconhecida de Aleijadinho é encontrada em MG

https://epoca.globo.com/cultura/obra-desconhecida-de-aleijadinho-encontrada-em-mg-24792044

Reconhecida como de Aleijadinho, imagem de São Manoel volta a Rio Pomba

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/12/27/interna_gerais,1223994/reconhecida-como-de-aleijadinho-imagem-de-sao-manoel-volta-a-rio-pomba.shtml

Minas: patrimônio histórico do século 18 corre risco na Zona da Mata do Estado

https://jornalggn.com.br/cidades/minas-patrimonio-historico-do-seculo-18-corre-risco-na-zona-da-mata-do-estado/

Minas procura 734 peças sacras retiradas de igrejas, capelas e museus

https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2018/08/13/interna_gerais,979792/minas-procura-734-pecas-sacras-retiradas-de-igrejas-capelas-e-museus.shtml

Obras de arte sacra recebem chips de segurança

https://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u59069.shtml

Para garantir paz a fiéis, igrejas investem em segurança

http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL145254-5605,00-PARA+GARANTIR+PAZ+A+FIEIS+IGREJAS+INVESTEM+EM+SEGURANCA.html?fbclid=IwAR3ZZjxIh0q7zZO6No4ySp3MM5QrD-Xf8nLIGuo4zlkVuOkbUvWcDBYMaWs

SILVA, Renato Araújo da. Arte Afro-Brasileira: altos e baixos de um conceito. São Paulo: Ferreavox, 2016. Disponível em: https://artebrasileiros.com.br/featured/voces-acham-os-portugueses-brancos-a-arte-afro-brasileira-como-construcao/

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