Os 40 anos de música de Arismar do Espirito Santo

Recebo convite do Arismar do Espírito Santo para o show em homenagem aos seus 40 anos de estrada.

Para quem não conhece, Arismar é o maior contrabaixista brasileiro, ex-marido da Silvinha, pianista do Toquinho, tão pequena e afirmativa que, quando casados, montaram a banda conhecida pelo nome da A Banda da Patroa.

Aliás, há dúvidas se Arismar é o primeiro ou segundo maior contrabaixista brasileiro porque há outro Espírito Santos, o Tiago, que é o segundo ou maior contrabaixista brasileiro, filho do Arismar e da patroa. Mas, pelo que Arismar apresentou no show, Tiago só herdará o cetro quando o rei aposentar o baixo.

Conhecemo-nos por volta de 1975 ou 76 no bar do Alemão.

O Alemão tornara-se ponto de encontro de todos os jovens músicos que aportavam em São Paulo e, depois das 23 horas, das estrelas da MPB e dos velhos sambistas que vinham do Rio de Janeiro. A música rolava solta na mesa 8, a “mesa da diretoria” como dizia o Arismar.

O bar nasceu no final dos anos 60 e ganhou fama depois de ter sido cenário da capa do primeiro LP do Eduardo Gudin, que dominou a cena do bar até 1973 ou 1974.

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Depois, Gudin passou a se dividir por outros botecos e o bar ficou com uma nova conformação musical, baseada no choro.

O criador, Murilo, dono de uma imobiliária em frente ao bar, bandolinista amador, vendeu para Dagô, um vendedor de livros que jamais pensara em se tornar dono de boteco. Dagô contratou para caixa o Nelsinho Risada, grande cavaquinho e que, dali para frente, tornou-se nosso guru musical.

Foi Nelsinho e Heraldo – funcionário da imobiliária do Murilo – que me abriram os olhos para a importância de Garoto para o violão brasileiro.

Cheguei ao bar em uma quinta-feira de 1974, quase meia noite, depois de um fechamento da Veja e subi na parte de cima. O bar estava meio vazio e Nelsinho terçava uns acordes em seu cavaquinho. Perguntei se tinha algum bandolim e apareceu um velho bandolim português, abaulado.

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De lá até 1982, bati ponto quase diariamente no Alemão com a nossa formação: Serginho no 7 cordas, Heraldo no violão de 6, Nelsinho no cavaco, Dagô no pandeiro, eu no bandolim e instrumentistas de todos os naipes que iam para o bar depois do expediente.

O bar já tinha fregueses ilustres, com mesas cativas, como Pelão, que já começara a revolucionar a produção de discos na gravadora Marcus Pereira; o Gutenberg, de codinome Baiano, grande boêmio; o Almeida, também vendedor de livros.

Em pouco tempo foram chegando os jovens músicos que, nos anos seguintes, brilhariam no universo da música popular brasileira.

Com 24 anos de idade apareceu o baiano de Serrinha, Vicente Barreto, montado em uma parceria com Vinicius de Morais, Zé Geraldo, os Bendengó, Carlinhos Vergueiro. E, em suas passagens por São Paulo, João Bosco, Nelson Cavaquinho, Cartola.

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Dois dos jovens músicos  logo se destacariam pela extrema musicalidade e bom humor com que tratavam a música: Serginho Leite e Arismar do Espírito Santo. Eram, de longe, os músicos instrumentais mais talentosos.

Sobre o Serginho, já escrevi algumas vezes.

O primeiro instrumento de Arismar foi a bateria. Quando chegou ao Alemão, já se tornara um baixista requisitado para gravações. Mas era inacreditável a facilidade com que empunhava o violão e fazia as baixarias do choro.

Muitos anos depois, assisti um sarau inesquecível no Rio, com Arismar, Yamandu, Armandinho, Rogerinho 7 Cordas e Apexandre Penezzi, no qual Arismar nada ficava a dever aos demais, mesmo estando na praia do choro, que não era a sua.

Juntos, ele e Serginho produziam caricaturas musicais, a capacidade de fazer humor nos acordes, imitando estilos, misturando escolas, que apenas os grandes instrumentistas inteligentes são capazes.

Falei em inteligência, porque nem sempre um grande músico é um músico inteligente. Arismar e Serginho pertenciam a essa classe de músicos talentosos, inteligentes e com discernimento.

Em pouco tempo Serginho foi contratado pelo Tropical Jazz Quintet, um conjunto de baile sofisticadíssimo, que tinha como crooner a holandesa Sara. Não me lembro se Arismar também passou pelo Tropical.

Só sei que dali para frente foi se firmando como um dos multinstrumentistas brasileiros mais respeitados internacionalmente.

Ali no palco do Sesc Vila Mariana, celebrando seus 40 anos de carreira, acompanhado dois dois filhos, o talento de Arismar explode no piano, no baixo e na bateria.

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O baixo de Arismar já ouvi inúmeras vezes. Mas seu solo de bateria foi inesquecível. Solo de bateria costuma ser tão cacete quanto o do contrabaixo do jazz. O sujeito cria um crescendo no caixa e arremata com uma porretada nos pratos, depois outro crescendo na caixa, um contraponto tímido no surdo e outra porretada nos pratos.

O que Arismar fez mereceria uma tese de doutorado. Conseguia manter uma determinada cadência no bumbo (com os pés), outra no surdo, outra no caixa, como se cada qual tivesse vida própria, um ritmo próprio e o resultado final fosse a harmonia geral dos ritmos.

Com esses ouvidos que a terra há de comer, garanto que nunca ouvi nada igual.

Arismar é uma espécie de versão santista de Hermeto. De Hermeto tem o gênio, a irreverência, o multitalento.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=TocKRjl2cdM

[video:https://www.youtube.com/watch?v=MwYJQxVObHo

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