Os feitos da Associação Cultural Cachuera!, por Walnice Nogueira Galvão

Foto – Divulgação

Os feitos da Associação Cultural Cachuera!

por Walnice Nogueira Galvão

Acaba de ser lançada a última publicação da Associação Cultural Cachuera! Vem completar uma linha editorial que já trouxe uma contribuição notável, cobrindo a música popular tradicional brasileira. O presente volume, um conjunto de livro + CD + DVD, intitula-se Batuque de umbigada : Tietê, Piracicaba e Capivari – São Paulo, acrescentando-se aos anteriores que também tratavam de manifestações desse tipo no Sul-Sudeste brasileiro, às vezes com incursões para rumos mais distantes.

A Associação, que é dedicada aos estudos e à difusão dos folguedos tradicionais, tem como diretor o concertista e etnomusicólogo Paulo Dias. Na sede em São Paulo dão-se eventos de jongo, congo e marujada. Seus integrantes já fizeram uma série de programas na Rádio Cultura e gravaram em campo a Coleção Documentos Sonoros Brasileiros, constando de vários CDs, dedicados ao congado mineiro, aos batuques, às caixeiras, aos sons do sertão de Minas Gerais, aos cristãos e mouros, às brincadeiras paulistas, à musica dos quilombos. De Sergipe trouxeram o DVD Lambe Sujo – Uma ópera dos quilombos. E muitas maravilhas mais.

Entre as ricas e variadas realizações da Associação figura a série mensal de concertos Bach em seu órgão de tubos, em que se destacam virtuoses. Ou os Encontros Musicais de periodicidade regular, abrangendo não só os grupos com uma definição tradicional mas também artistas que aí não se enquadram, desde que atendam à exigência de alto nível, como Mônica Salmaso e outros. Ou então o Estúdio Salaviva, que serve à própria Associação mas também acolhe e faz gravações de outros artistas. Ainda mantém, aumenta constantemente e abre à consulta um dos maiores acervos do país em suas especialidades.  

Não menos importante é a promoção anual da Festa do Divino Espírito Santo, todo mês de maio, com levantamento solene do mastro com a bandeira do Divino e todo o cerimonial que a efeméride merece e exige, bem como o concurso de celebrantes que vêm de vários quadrantes.

Há 25 anos cumprindo a missão que escolheu, já tem um peso específico, da maior seriedade, com alto nível científico, técnico e teórico, não só no panorama dos estudos musicais no Brasil mas também na dinâmica da cultura brasileira atual.

A começar pelo nome da Associação. Essa é a exclamação do jongueiro quando quer que o tambor suspenda seu toque porque decidiu tomar a palavra. Significa aproximadamente o seguinte: “Pára o tambor que eu quero falar!” Adotando e assimilando a exclamação do jongueiro, a Associação se identifica com ele e abre espaço para dizer a que veio. O logotipo da Associação, dois bonequinhos segurando um galho, leva também um ponto de exclamação, tal como seu título e legenda. E foi copiado de um mural rupestre na Serra da Capivara, no Piauí. Ao mesmo tempo, a seus membros agrada o substantivo comum, que dá ideia do quanto é caudalosa a cultura tradicional brasileira, com a riqueza de sua diversidade,  com as múltiplas contribuições que recebeu e continua recebendo de tantos afluentes.

Esta última publicação, o Batuque de umbigada, mais uma vez faz o freguês e admirador do Cachuêra! ficar encantado. Um volume de grande formato, encadernado, com capa colorida tomada por um desenho naïf ou primitivo de um casal dançando, tudo em luxuoso papel cuchê. Resultando de consenso após discussões intensas com a comunidade, incorpora fotos, letras de música, entrevistas e estudos teóricos, que têm alcance histórico, antropológico e estético. Boa parte das ilustrações internas, a exemplo daquela da capa, é produzida por membros da comunidade, donde sua riqueza e sua abrangência. Nelas vemos como eles e elas se vêem enquanto praticam sua arte imemorial ou quando estão envolvidos na sociabilidade do dia-a-dia. Acompanham o volume um CD e um DVD, assim ampliando não só o prazer e a informação do amador dessas coisas, mas fornecendo material didático audiovisual, que pode servir a muitos objetivos, inclusive em sala de aula.

Associação Cultural Cachuêra!: rua Monte Alegre, 1094 (Perdizes – SP)

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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