Os velhos carnavais de São Paulo

Do Portal Luis Nassif

Velhos carnavais em São Paulo

Carro alegórico da Villa Kyrial dirigindo-se

para o corso na Avenida Paulista (1917)

Os artistas e convidados reunem-se na Villa Kyrial em dia de folia

Quem está se guardando para quando o carnaval chegar? Fugindo ou não, comemoram-se os dias, seja para descansar ou para cair na farra mesmo. Engana-se quem pensa que paulista não gosta de carnaval. No capítulo “Pierrôs e colombinas”, de Villa Kyrial – Crônica da Belle Époque Paulistana (Editora Senac), Marcia Camargos conta sobre o tradicional bloco organizado por Freitas Valle, que saía nos domingos de carnaval pela avenida Paulista. Leia:

“Morreu em pleno domínio da sua inteligência, da sua vontade e das suas energias. Morreu como vivera: aproveitando todos os instantes fugazes da vida que passa para empreender e realizar as coisas eternas que enriquecem e ilustram a nacionalidade.” (Brito Broca, A vida literária no Brasil: 1900, cit., p. 32)

Inspirado nos carnavais europeus de Veneza e de Nice, com arlequins, pierrôs e colombinas de emoções comedidas, o corso do início do século XX realizava-se no Triângulo, o ponto nevrálgico da capital, na interseção das ruas Direita, XV de Novembro e São Bento. Desfilavam tílburis e caleças que levavam meninos em pé sobre o estribo ao lado de moças e rapazes ricamente fantasiados, carregando sacos de confetes multicoloridos ou dourados, os mais chiques de todos. Do alto dos veículos enfeitados jogavam serpentina e lança-perfume uns nos outros e na multidão que acompanhava da calçada, entre maravilhada e incrédula, o jogo da ostentação.

No decorrer da primeira década a Avenida Paulista, inaugurada em 1891 com três vias carroçáveis, se transformaria na artéria elegante da futura metrópole. Durante a gestão do conselheiro Antônio Prado, em 1908, seria alvo de uma série de melhorias, como calçamento e passeios mais largos e ligustruns e ipês no lugar das quatro fileiras de magnólias e plátanos. Ampla e arborizada, enobrecida pelos suntuosos palacetes dos barões do café e imigrantes enriquecidos, atraía os foliões da elite. A partir de 1911, transferiram para lá a mania do corso, que alcançaria o ponto culminante em 1915, quando ela foi asfaltada. Entre as quatro horas da tarde e as dez da noite, o corso passava lentamente em dupla direção, percorrendo o trecho que ia da Praça Osvaldo Cruz ao final da avenida. Com quatro filas de carros em baixa velocidade, cujos motores não raro ferviam, repetiam as tardes de sábado e domingo, que vieram, na Paulista, substituir o footing.

Sem pressa, já que a lentidão, assim como o traje desconfortável, constituía prova de ociosidade e sinal de aristocracia, a nova burguesia industrial, alçada à condição de classe dominante, desfilava. Para os quatrocentões que ainda a olhavam com certo desdém, vinha exibir, no “brilho metálico de suas viaturas”, a fortuna recém-adquirida. As grandes casas armavam tablados junto aos muros para assistir ao corso, e ao anoitecer acendiam todas as luzes e convidavam os conhecidos para tomar refresco. Ao cair da tarde, provavelmente vindo da Villa Kyrial, Washington Luís, de chapéu gelô, risonho e de cavanhaque, por ali transitava, tendo a seu lado Freitas Valle, que, contente, solícito, sobre ele se debruçava certamente contando coisas jocosas.

Se ao longo do ano as ruas eram tomadas por cadillacs conversíveis, no carnaval só se viam landôs, vitórias abertas ou qualquer carro cuja capota pudesse ser completamente arriada. Na Loja Flora ou Hortolândia, recebiam roupagem especial, própria para a ocasião, ressurgindo na avenida transmutados em pagode chinês, cobertos de hortênsias ou em caramanchão de cravos vermelhos. Havia também barcos com vela de azaléias e casco de rosas e cisnes de dálias brancas. Certas famílias que não possuíam carro particular quotizavam-se para alugar caminhões decorados com fitas, folhagens e flores. Enchiam-se de rapazes e moças, cujas mães e homens do clã, sempre atentos, apertavam-se no comprido banco central, com assentos de um lado e de outro. Os de menores recursos utilizavam artifícios menos dispendiosos, adornando a lataria com colchas bordadas e arranjos florais. Num desses carnavais o florista Nemitz pôs em prática antiga idéia de Valle. Construiu sobre um caminhão uma cesta toda enfeitada, dentro da qual se colocaram cerca de trinta pessoas, entre artistas e amigos do senador, vestidos de pierrô branco com botões vermelhos. Esse carro causou furor no corso, precedido pelo automóvel do “chefe” Freitas Valle, um pierrô de cetim vermelho com botões brancos… 

Curiosamente, Freitas Valle faleceu a 14 de fevereiro de 1958, sábado de carnaval. Em vez do domingo de folia, gerações de amigos, escritores, politicos e artistas seguiram-no em cortejo até o Cemitério da Consolação. Quando Manuel Bandeira escreveu o necrológio de Freitas Valle, “observou que as mortes ocorridas durante o carnaval passam quase despercebidas.”

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