Peça do grupo Armazém faz crítica contundente do sistema político-social brasileiro

Sugerido por Maurício Salles
Armazém cia. de Teatro enfia o dedo na crise político-social
 
 
 
 
 
FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA
 
 
Otto Jr contracena com Jopa Moraes na peça do Armazém: a força do sistema é contestada pela utopia de aparência fraca; contradições presentes em O Dia em que Sam Morreu – Foto: Juliana Hilal/Clix
 
Por Miguel Arcanjo Prado
Enviado especial do R7 a Curitiba*
Foto JULIANA HILAL/Clix
 
 
 
Os protestos que começaram em junho de 2013 desencadearam poucas mudanças políticas efetivas – fora o não aumento da tarifa de ônibus –, mas ainda reverberam nos palcos brasileiros.
 
O Armazém, um dos mais prestigiados grupos do País, oriundo de Londrina (PR) e radicado no Rio, levou ao Festival de Teatro de Curitiba 2014 a estreia nacional da peça O Dia em Que Sam Morreu no Teatro Guairinha. Nela, coloca o dedo na ferida político-social brasileira. E o faz com a sensibilidade do olhar poético que é identidade da trupe, e que não deixa de ser contundente.

 
O espetáculo aborda os bastidores de um hospital, onde pacientes são salvos pelo dinheiro que têm, e onde reina um cirurgião inescrupuloso, dominando a todos com sua arrogância e capacidade de jogo.
 
Otto Jr. assume o papel cheio de potência e força bruta, uma espécie de macho alfa que paira no ar até ser contestado por um jovem enfermeiro idealista, personagem de Jopa Moraes, que começa titubeante no posto de protagonista, mas que ganha força com a evolução da encenação.
 
 
Patrícia Selonk e Lisa E. Fávero: boas atrizes no palco do Teatro Guairinha – Foto: Juliana Hilal/Clix
 
Completam o elenco coeso Marcos Martins, Ricardo Martins, Lisa Fávero e Patrícia Selonk. Estas duas últimas, as mulheres do elenco, chamam tudo para si quando estão em cena. Sempre intensas. Ambas igualmente boas atrizes.
 
O texto de Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes, que dirige a montagem, consegue expor de forma crua o desprezo pela vida alheia quando a própria vida é posta em primeiro plano, jogando para debaixo do tapete todo discurso ético.
 
Detalhe para o simples e ao mesmo tempo complexo cenário de Paulo de Moraes e Carla Berri, bem como para a iluminação de Maneco Quinderé, que contribui para a evolução da dramaturgia. A música executada ao vivo, sob comando de Ricco Viana, também dá potência à obra, explicitando os sentimentos dos personagens.
 
O espetáculo do Armazém mostra que o problema político-social brasileiro vai bem mais além dos discursos eloquentes ou de cartazes improvisados para passeatas: ele mora no âmago da sociedade, nas relações interpessoais que estabelecemos no jogo do “jeitinho brasileiro”, no qual tudo é possível e permitido sem escrúpulos.
 
O modelo de civilização no Brasil é posto em xeque pela obra, que expõe suas amarras cruéis e a falta de utopia reinante na sociedade. Tal utopia é representada pelo jovem enfermeiro Samuel, que teima crer em um mundo melhor e mais justo mesmo que tudo ao seu redor diga a ele que isso jamais será possível.
 
Mergulhado no teatro pós-moderno, o personagem e seu drama representam o grito sonhado na geração pós-desilusão. Como num movimento cíclico, o jovem em cena representa a mesma coragem que levantou jovens 50 anos atrás contra o regime totalitário que deixou ares tenebrosos no País por 21 anos. Contudo, atitudes contestatórias estão cada vez mais em desuso nos tempos em que crianças são educadas para vencer na vida a qualquer custo.
 
Questionamentos como estes são levantados em O Dia em que Sam Morreu. A obra aponta que não há vencedores nem derrotados. Todos estão mortos. Sem dó, o Armazém joga na cara da plateia de classe média o quão sua sobrevivência na corda bamba da vida pode ser medíocre e desprovida de sonhos. E, por isso, vazia. Tal qual a imagem de um palhaço sem memória e de riso perdido.
 
 
O Dia em que Sam Morreu
 

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2 comentários

  1. ´não sei… de tragedia já

    ´não sei… de tragedia já temos todos os dias. podiam contar isso de uma forma diferente. com humor. que chame a atenção dos absurdos que acontecem desde sempre.

  2. shoppings e armazéns

    “o Armazém joga na cara da plateia de classe média o quão sua sobrevivência na corda bamba da vida pode ser medíocre e desprovida de sonhos. E, por isso, vazia.”

    Lula, depois de assistir à peça: “Depois de anos que lutei para chegar à classe média, vem essa peça e esculhamba com a classe média. O Fernando Henrique comemorava frango e iogurte, mas eu botei esse povo no shopping. Tão aí os rolezinhos e o funk ostentação que não me deixam mentir. Só vim assistir porque num tinha jogo do Corínthians…”

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