Pelé e o “Gol do Século”, uma homenagem

Entendo nada de futebol. Assisto tão somente aos jogos das Copas do Mundo pela televisão e isso para compartilhar e confraternizar com os amigos e não ser do contra. De futebol não manjo, porém tenho um arraigado senso de justiça e resolvi fazer essa homenagem a PELÉ, o titular da camisa 10 da Seleção Brasileira. 

luciano

O Gol do Século

Eram 23 horas e 21 minutos de 19 de novembro de 1969 quando o pênalti cobrado por Pelé balançou a rede do Maracanã. Uma multidão de repórteres invadiu o campo numa mistura de trabalho e devoção ao feito histórico obtido pelo Rei com seu milésimo gol. Chorando, abraçado à bola, o maior atleta de todos os tempos fez um discurso surpreendente. “Pelo amor de Deus, não vamos tripudiar sobre ninguém. Há coisas mais importantes para a gente pensar. O Natal está aí mesmo. Pensemos nas crianças pobres. Pelo amor de Deus olhemos por elas”. A repercussão foi a pior possível e Pelé chegou a ser criticado, chamado de demagogo. 

Quatro décadas depois, a camisa 10 verde e amarela que o ídolo imortalizou continua sendo o maior símbolo do nosso futebol. É possível vê-la em qualquer esquina. Até no corpo franzino de um menino de 10 anos que ontem limpava vidros de carros na Praça de Benfica, em troca de moedas. G.J. sabe que a camisa imunda que veste, com o nome de Ronaldinho, é da Seleção Brasileira. Só não tem ideia de que foi usada por Pelé. Na verdade, ele não sabe quem é Pelé. “Sei não, tio”. 

A resposta é de cortar o coração. “Nunca ouviu falar, filho? O Rei do Futebol, o verdadeiro dono dessa camisa?”, insisto. “Não”, responde, monossilabicamente envergonhado.As palavras de Pelé definitivamente foram esquecidas. Ninguém fez questão de apresentar o maior ídolo do País ao menino. G.J sabe, sim, o que é crack. Sabe o que é tíner. Sabe o que é passar frio e fome. Isso, as ruas de Benfica — onde passa a maior parte do tempo, com seus ‘quase 30 amigos’ — se encarregaram de apresentar. “Eu estudo, sim. Só hoje não fui para a escola. Estou na quinta série. Não, na segunda. Ah, sei lá…”, diz, negando que seja viciado em crack: “Não uso isso, não”. 

A aproximação de sua ‘irmã’, B., uma menina de 16 anos que está nas ruas há três e se prostitui por R$ 10 paracomprar a droga, tranquiliza o menino. O canudo na boca, mastigado sem parar, engana a fome. Dois salgados e um refresco de maracujá mais tarde, G. relaxa e, de barriga cheia, aceita conversar. Só não consegue ficar parado. Anda de um lado para o outro. Cabeça baixa, olha sempre de lado. Aos poucos, vai se soltando. 

G. tem casa, na Favela do Arará, onde vivem a mãe e o irmãozinho. Não sabe ler. Nem sabe como largar o crack: “Uso há alguns meses e queria largar, mas não tem como. Falar é fácil, quero ver fazer”, admite o menino de poucos sonhos: “Quero ser trabalhador. Se eu aprender a consertar bicicleta, tá bom”. 

B., sua protetora, sonha mais alto. Queria ser veterinária, mas parou de estudar quando saiu de casa após sofrer várias agressões. “Há três anos vivo na rua. Me prostituo para comer e comprar crack”, diz, segurando um cordão com a frase ‘Jesus é meu ponto de equilíbrio’. “Não acho que ele me abandonou. Eu que abandonei ele”. 

Enquanto meninos pedem dinheiro e limpam vidros no sinal, por trocados, meninas se oferecem à luz do dia. Sujas e machucadas, atraem clientes. D., 17 anos e aparência de 13, vibra ao ver o Honda preto se aproximar: “Vou ali e já volto”. São 10h46. Menos de 15 minutos depois ela volta. “Não foi nada, não”. Ela está com fome: “Uso crack há dois anos. Na rua, quase todo mundo usa. Já roubei, tomei tiro, porrada, mas sozinho não tem como largar”, diz o menino de 17 anos, um entre 1,8 milhão de crianças de 15 a 17 anos que estão fora das salas de aula no Brasil. O destino deles, sem educação, pode ser o mesmo dos 22.700 presos do sistema carcerário do País que têm, hoje, entre 46 e 60 anos — crianças na época em que Pelé chamou a atenção do mundo para o problema. 

CRÍTICA A GOVERNANTES 

Em Tóquio, capital japonesa, onde participa de eventos publicitários, Pelé relembrou a frase de 40 anos atrás e criticou os governantes, frisando que, ao longo de todo esse tempo, pouca coisa melhorou: “Com relação à educação e às crianças, não mudou muito. Infelizmente, piorou. Hoje você vê crianças batendo nos professores, esperando os professores na saída dos colégios quando tiram nota baixa. A mensagem é, mais uma vez, lembrar que todo país que quer crescer, ser grande, tem que investir na base. E base de uma nação são as crianças, os jovens. Educação é primordial”, disse à Agência Estado. 

Viva voz: Criancinhas de Pelé 
(Márcio Guedes, colunista de O DIA, que cobriu, em 19/11/1969, o jogo em que Pelé fez seu milésimo gol) 

Antes da inesquecível noite do Vasco x Santos que, poucos duvidavam, traria o esperado gol mil de Pelé, evento frustrado em partidas anteriores (talvez por esperar o palco ideal), dois assuntos dividiam as conversas nas esquinas e botecos do Rio. No esporte, apesar da proximidade de uma Copa que seria gloriosa, havia muitas apostas sobre quando e de que forma sairia o milésimo gol, tipo de evento que seria comemorado pela primeira vez na história do futebol brasileiro. Na política, o tema eram as nuvens cada vez mais sombrias do estado de exceção, que prometia um regime ainda mais autoritário na era Médici, já com um ano da vigência do AI-5. 

O gol de Pelé foi um momento mágico em um Maracanã cheio, com alegria espalhada por todo o estádio e palmas até dos vascaínos. A partida foi paralisada por vários minutos para que o Rei fosse carregado em triunfo em uma celebração que, se fosse hoje, certamente entraria ao vivo em boa parte do mundo e seria matéria instantânea da CNN. 

O Brasil já era bicampeão do mundo, mas ainda era uma terra de poucos heróis e, no futebol, só mesmo Pelé e Garrincha estavam acima do bem e do mal. Pelé, além do futebol genial, era criticado por algumas entradas violentas que atingiam os marcadores mais como autodefesa. Mas as restrições a ele eram poucas e nem se chegava a cobrar o fato de que sempre se declarava desinteressado na política. Seria um alienado inofensivo, mas o patrulhamento começou nessa primeira declaração um pouco mais ambiciosa. O pedido para que amparassem as criancinhas abandonadas do País parece só ter tido um impacto inútil nas famílias conservadoras e foi tida por grande parte da mídia e pelos intelectuais como uma declaração descabida, ingênua, que cheirava a pura demagogia. A partir daí, criou-se a crença de que tudo o que Pelé falava era bobagem de uma mente simplória ou então clichê para o marketing. Palpites sobre competições, jogadores, tudo caía no vazio e na chacota. Ironicamente, passadas várias décadas, muita gente que torceu o nariz na época refere-se à frase de Pelé sobre as criancinhas como um alerta importante para que o problema social se resolvesse enquanto havia tempo. Hoje, com ou sem demagogia, vê-se que Pelé tinha certa razão embora não fosse ele o agente da grande cruzada nacional. O Brasil está, hoje, cheio das criancinhas de Pelé. 

 

Quarenta anos depois do gol mil, Pelé lamenta descaso com crianças brasileiras 

Há exatos 40 anos, Pelé, o Rei do Futebol, estufou a rede do Maracanã numa cobrança de pênalti e caiu em prantos para comemorar o seu milésimo gol. No instante em que os holofotes do mundo apontavam para o craque, ele pediu pelas crianças. 

O tempo passou e Pelé vê que nada foi feito. “Com relação à educação e às crianças, não mudou muito, infelizmente. Piorou, até. Hoje, você vê crianças batendo nos professores na saída dos colégios quando tiram nota baixa”, disse o Rei em entrevista à Agência Estado. 

“A mensagem, mais uma vez, é lembrar que todo país que quer crescer, que quer ser grande, tem que investir na base. E a base de uma nação são as crianças, os jovens. E a educação é primordial”. 

Naquele jogo entre Vasco e Santos, em que Pelé tinha mais uma chance para se ‘livrar’ do fardo, ele recorda que quando pegou a bola para cobrar o pênalti, aos 35 minutos do segundo tempo, com o jogo em 1 a 1, suas pernas tremeram. “Lembro que senti o joelho e as pernas tremerem na hora de bater a penalidade. Foi difícil. Eu tinha perdido alguns pênaltis. Pensei na hora que aquele eu não podia perder porque o Maracanã inteiro gritava ‘Pelé, Pelé, Pelé’. Graças a Deus fiz o gol”. 

Diante de 65.157 pessoas, Pelé cobrou com o pé direito no canto esquerdo do goleiro Andrada e, às 23h11, virou o jogo para 2 a 1. “Estou feliz por ter conquistado o gol mil aqui no Maracanã, onde sempre fui bem recebido. Como todos sabem, sou vascaíno de coração e o gol mil não foi, em absoluto, um tento contra o Andrada, mas, uma homenagem ao grande goleiro da seleção argentina”, afirmou Pelé, que, emocionado, pediu para deixar o jogo e foi comemorar no vestiário. 

Capa de “O Dia” em 20/11/1969 trouxe Pelé com a camisa do Vasco

 

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